Dados sobre educação básica revelam abismos em regiões da capital paulista

Dados sobre a educação municipal de São Paulo mostram que a diversidade da capital paulista também se reflete nas salas de aulas da rede ligada à Prefeitura. Recortes sobre retenção de alunos, distorção de idade adequada à série e até nível de formação de professores revelam abismos nas comparações entre as subprefeituras da cidade - apesar da melhora na média. Em alguns casos, regiões vizinhas têm resultados com mais de 100% de disparidade.

PAULO SALDAÑA, OCIMARA BALMANT, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2012 | 03h10

É o caso quando a análise recai sobre os índices de retenção. Esse dado é um importante recorte de avaliação da educação, usado, por exemplo, no cálculo de rendimento escolar que compõe o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). As escolas da região da subprefeitura de Cidade Ademar, na zona sul, tinham em 2010 o pior resultado, com 7,98% de reprovação. O resultado é mais que o dobro da subprefeitura com o melhor aproveitamento nas aprovações: Parelheiros, também da zona sul, com retenção de 3,04%.

Apesar de representarem os extremos da cidade, as duas regiões são vizinhas e de uma região das mais carentes da capital. Chama a atenção que essa desigualdade sem regionalidade definida pode ser vista em outros índices da Secretaria Municipal de Educação (mais informações nesta página).

A taxa de distorção de idade - que representa o volume de alunos com idade superior à recomendada para a série - também é espelho dessa realidade. A área da subprefeitura de Jaçanã/Tremembé, zona norte, tem o melhor resultado, com 10,6%. A vizinha Freguesia/Brasilândia tem um resultado 57% pior: 16,6% dos alunos da região estão atrasados na escola.

A dona de casa Maria Lucicleide de Oliveira, de 38 anos, vive essa realidade em casa. O filho Alexandre, de 15 anos, está fazendo pela segunda vez neste ano a 7.ª série. Segundo Maria, foi ela quem foi à escola - o CEU Paz, na Brasilândia - e insistiu que seu filho não passasse de ano. "Eu quis que ele fosse reprovado, tinha faltado muito e achei que ele não tinha como passar."

Alexandre conta que preferia ficar em casa, na frente da TV, a frequentar a escola. "As aulas eram muito chatas, não tinha motivo nenhum para ir lá."

A especialista em gestão educacional da Fundação Itaú Social, Patrícia Mota Guedes, afirma que o poder público precisa ficar atento a diferentes motivos de problemas com rendimento. "Esses resultados apontam para a necessidade de se considerar fatores interescolares que afetem o rendimento dos alunos. Muitas vezes, comete-se o erro de achar que só os indicadores socioeconômicos justificam evasão, frequência e aprendizagem, mas isso não é verdade", disse.

Professores. A líder comunitária Duilia Domingues Simões, de 49 anos, que tem um filho de 12, reclama da falta de preparo de professores. "A reclamação que recebemos é de que há poucos professores bons, a maioria é mal preparada, não motiva os alunos", diz ela, moradora da Brasilândia.

A crítica de Duilia pode explicar um pouco as diferenças entre as escolas. A opinião é do educador Jorge Werthein, ex-representante da Unesco do Brasil. "Professores e diretores têm formação diferente e eles são os grandes responsáveis pelo perfil da escola", afirma. Segundo Werthein, o contraste regional na rede municipal é característico de grandes cidades, como São Paulo, Buenos Aires e Nova York. "A educação faz parte da luta contra a desigualdade. Obviamente, é necessário uma política de reforço de discriminação positiva."

Avanço. As médias da cidade como um todo têm apresentado avanços, segundo os indicadores. Entre 2009 e 2010, a rede teve uma pequena melhora tanto no fluxo - com redução nas taxas de reprovação - quanto na distorção de idade, com um porcentual menor de alunos atrasados.

Além disso, os dados da rede municipal são mais positivos do que as médias nacionais. A retenção no município representa, por exemplo, metade do índice do Brasil, que é de 10%.

A Prefeitura reconhece a diversidade. A Secretaria de Educação informou que discute com a rede o Índice de Qualidade da Educação (Indique), que servirá para nortear as ações da pasta com base nas diferenças locais e necessidades de cada escola ou região. / COLABOROU ARTUR RODRIGUES

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