Dalai-lama propõe referendo sobre sua reencarnação

Líder budista tenta lutar contra influência do governo chinês sobre a religião

BBC Brasil, BBC

28 de novembro de 2007 | 08h50

O líder budista dalai-lama propôs um referendo sobre sua reencarnação, o que poderia levar ao fim de uma tradição de séculos, numa tentativa de diminuir a influência chinesa no processo de seleção do próximo líder tibetano. Tradicionalmente, o dalai-lama é reencarnado em um menino, logo após morrer. Vários meninos são identificados como a possível reencarnação - a partir de pistas deixadas pelo último dalai-lama - e passam por uma série de testes até que seja identificado. Em um encontro de religiosos de todo o mundo, na Índia, o 14º dalai-lama, de 74 anos, sugeriu uma consulta popular entre os budistas tibetanos para saber se ele deveria reencarnar ou não, afirmando que quer tornar a escolha do líder tibetano mais democrática. Outras sugestões seriam reencarnar enquanto ainda vivo, uma eleição feita por outros lamas, num método similar à escolha do papa, ou a possibilidade de ele próprio nomear o próximo dalai-lama, enquanto ainda estiver vivo. As propostas do dalai-lama foram duramente condenadas pelo governo de Pequim. "A declaração do dalai-lama é uma violação clara da prática religiosa e procedimentos históricos", disse o Ministério do Exterior. "O governo chinês não vai aceitar nenhuma dessas propostas, já que quer controlar a futura liderança espiritual do Tibete." O governo comunista e ateu parece, estranhamente, estar apelando diretamente à fé dos tibetanos. O governo afirma que o dalai-lama não está respeitando a tradição religiosa tibetana ao sugerir que o velho método de reencarnação seja descartado. Pequim agora alega ser única organização que pode salvaguardar e validar as futuras reencarnações de todos os lamas. A briga se intensificou desde setembro, quando Pequim aprovou uma lei com o objetivo de controlar a indicação de lamas de escalão mais baixo em templos no Tibete. Segundo as novas regras, qualquer reencarnação que não seja aprovada pelo governo é considerada ilegal. Os chineses já nomearam seu próprio panchen-ama - o segundo mais importante na tradição tibetana - substituindo o 11º panchen-lama, que havia sido identificado pelo dalai-lama e que agora está desaparecido. O governo justifica sua decisão de dar a aprovação final com base em um precedente estabelecido no século 17, sob a dinastia Qing. Lamas em todo o Tibete são vistos como uma ameaça pelo governo chinês, por serem líderes comunitários e símbolos da oposição à dominação cultural chinesa.   O Tibete é tido como uma província rebelde, e muitos tibetanos vêem a postura de Pequim como a transformação de um sistema baseado em antigas regras espirituais em uma religião organizada pelo governo, enfraquecendo ainda mais a cultura himalaia. Apesar de estar bem de saúde, o dalai-lama costuma falar sobre sua sucessão. Há dez anos ele anunciou que se o Tibete ainda estivesse ocupado quando ele morresse, sua reencarnação não ia nascer em uma região controlada pela China, mas sim em um país livre. Com o aumento da pressão sobre os monastérios tibetanos, a retórica parece estar ganhando força. O governo chinês vê o dalai-lama como uma ameaça à estabilidade, chamando-o de "separatista", determinado a dividir o Tibete de sua "terra-mãe" chinesa. O líder tibetano afirma que só quer autonomia para a região.   BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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