Dalton por inteiro

Violetas e Pavões, novo livro de contos do autor curitibano, mistura diferentes formas de narrativa, compondo uma ficção armada em rede, como um ''romance invisível''

Augusto Massi, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

Para quem tem fama de recluso até que ele circula bastante. Está em cada esquina da cidade, tomando nota, ouvindo seus informantes. É um escritor ligado no mundo. Publicou mais de 30 livros, vasos comunicantes da nossa comédia humana, território real quase na periferia do imaginário. É difícil falar de Violetas e Pavões, coletânea de contos de Dalton Trevisan, sem incorporar ao comentário crítico dois de seus livros anteriores: O Maníaco do Olho Verde, de 2008, e Macho Não Ganha Flor, de 2006 (todos lançados pela Record). Digo isso porque as histórias se ramificam, se comunicam, se conectam em conjunto e, sob a aparente diferença dos volumes individuais, oculta-se uma ficção armada em rede, um romance invisível. Não é possível falar em ciclos, séries, relações de subordinação. O realismo de Dalton, um curitibano de 84 anos, parece se estruturar segundo circuitos de reciprocidade, onde versões complementares e/ou contraditórias sugerem novas combinações de leitura.

O mundo mudou. Curitiba mudou. Dalton mudou. Então por que a crítica mecanicamente fala em repetição? Destacar mudanças decisivas na experiência cotidiana de seus personagens é uma tarefa simples: os bêbados viraram drogados, diálogos telefônicos reduziram-se a interrogatórios policiais e o escritório de advocacia cedeu espaço para a delegacia. Em outras palavras: a classe média perdeu espaço para o coro dos coitados, acuados entre a violência do tráfico e a corrupção da polícia. O próprio Dalton, em Pico na Veia (2002), já havia disparado: "Curitiba - essa grande favela do primeiro mundo."

O interessante é que a degradação social encontra correspondência na forma literária. Enquanto o núcleo central do enredo é segregado na periferia das histórias, fiapos do tecido social esgarçado se entrelaçam nas farpas de uma fala ficcional. Numa primeira leitura, os 22 textos que compõem Violetas e Pavões parecem ter o seu horizonte narrativo dramaticamente reduzido. Antes de qualquer conversa, é dada voz de prisão; antes do boletim de ocorrência, a confissão é arrancada sob tortura. Diante da absoluta falta de mediação, há um grande esforço para captar a matéria bruta do fato no fio desencapado do flagrante. A frase é uma breve e intensa descarga elétrica, curto circuito entre verdade e mentira. As linhas de força do realismo se transformam em linhas de fuga.

Macho não Ganha Flor sugere um novo ponto de virada na trajetória de Dalton Trevisan. Os contos se expandem, voltam a crescer, retomam um modelo claramente narrativo. É dentro deste princípio que se inserem O Maníaco de Olho Verde e Violetas e Pavões; o conto inédito publicado nesta edição (leia na página 2) também confirma tal tendência. (Ressalva: os textos voltaram a ser longos mas os heróis continuam nanicos, pernetas e colibris.) Se por um lado os personagens transitam, traficam, num entra e sai de cena pelas páginas dos três livros, de outro, estão circunscritos ao mesmo espaço urbano: a Vila Zumbi, o Bar do Tiozinho, a célebre Rua Amintas, a casa 749.

Violetas e Pavões delimita e embaralha os contornos. Existem três tipos de registro literário. O primeiro é composto por cartas de amor, escritas sempre por mulheres. De início, elas adotam um tom confessional, culto e carinhoso, que aos poucos deriva para a mais pura libertinagem. Dalton explora esse gênero desde o seu livro de estreia (Sonata ao Luar, 1945), mas, agora estamos diante de um virtuose, um tarado cerebrino, um renomado punheteiro na arte da "palavra puxa palavra". Diante da solidão, as suas heroínas empunham as mil varas das variações de linguagem, querem conhecer a erudição enciclopédica do kamasutra, dissolver as fronteiras entre lirismo das alcovas e gozo místico. A descrição faz a delícia do realista: os detalhes miúdos, a estilização da língua, a pornografia do pormenor. Reconhecemos a mão leve do autor. O dedo sacana de Dalton.

O segundo tipo de narrativa é mais experimental. Os textos são breves e imitam o corte de poemas. No geral, todos capturam a voz de um acusado diante do delegado: "Não tinha droga comigo não senhor" ou "ela vendia pó e pedra sim senhor". Guardam semelhança com a linguagem dos depoimentos, misto de reportagem de TV e pesquisa sociológica. Mas, aqui, as antigas justificativas para a violência sexual, pedofilia, roubo, assassinato respingam também na esfera familiar. O ato realista de contar-se trava um corpo a corpo com ficção, a verdade resvala pra versão, o conhecido negocia com o anonimato.

O terceiro é um depoimento mais detalhado, relato travestido de desmentido: "Esta história aí no papel não é a verdade" ou "Na verdade eu tava dormindo de favor na casa desse rapaz". Em alguma medida, aludem de forma dissimulada a mesma questão apresentada pelo documentário Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho. Através deles, travamos contato com uma cartilha para sobreviver na Polícia Federal ou na Delegacia de Entorpecentes, ora ele se apresenta nas brechas dos artigos em que as pessoas devem ser enquadradas, o 16, o 157 ou o 218, ora somos apresentados ao magistério das advogadas de porta de cadeia.

DESLOCAMENTOS

Mas, o leitor nunca deve perder de vista o conceito de rede associativa e vasos comunicantes. O que parece específico da fatura literária de Violetas e Pavões só se realiza plenamente com a leitura dos outros livros citados. Desta forma, os personagens perdem a invisibilidade, saem do anonimato e ressurgem de corpo inteiro por intermédio de pequenos índices de identidade. Por exemplo, mesmo sem ser nomeado, Tibinha, um dos assaltantes miúdos que domina de cabo a rabo Macho não Ganha Flor, pode ser reconhecido no conto O Recibo de Violetas e Pavões: moço gago, de boné vermelho, dentinho de ouro, olhão verde. Outro exemplo da recorrente dissolução de fronteira entre os três livros é a presença do traficante Buba, que onipresente em O Maníaco do Olho Verde, ressurge graças a um mandado de prisão equivocado no conto Não Sou o Buba - "Falo e repito que sou outro. Não o desgracido Buba. Euzinho, o velho Dimas da Silva, mais que disposto a colaborar."

Eu me pergunto, qual crítico consegue acompanhar os constantes deslocamentos de Dalton Trevisan? Quando compramos um livro raramente temos a consciência de que colaboramos para esgotá-lo. E esgotar um livro pode ter muitos significados. Um deles seria tirá-lo fisicamente de circulação. Outro, esgotar todas as possibilidades de leitura. Um terceiro, seria ficar inteiramente absorvido, sugado, esgotado. E neste caso, é o livro que nos tira de circulação. Nessa hora, a crítica é uma atividade clandestina.

Mas, no momento seguinte, ela pode se transformar em algo extremamente civilizada. De proprietário, colecionador, amante, o leitor pode passar a um profissional da crítica. Ler exige estratégias, alianças, adeptos. Da mesma forma que podemos emprestar um livro, podemos transmitir, trocar, partilhar nossa leitura. Por vezes, costumamos dizer que não entramos no livro. Outras, que não conseguimos mais largá-lo. Ler Dalton Trevisan é oscilar entre a dádiva e a danação:

"São dez segundinhos, porra. Te bate no pulmão. O bruto soco na cabeça. E o mágico tuimmm!

Na pedra, sabe? Tem um espírito vivo. Daí o craquinho fala direto comigo:

- Vai, Augusto. Vai fundo Mermão!"

Augusto Massi é professor de literatura brasileira na USP

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