Dando sentido à nova fúria política americana

Correntes de protesto dividem-se em duas, deixando populistas de um lado e puristas do outro

Sam Tanenhaus, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2010 | 00h00

Como muitas grandes narrativas, as histórias políticas, embora muitas vezes se desenrolem segundo linhas simples, convidam a múltiplas interpretações, por vezes conflitantes. Foi o que aconteceu na semana passada. O primeiro caso foi a vitória desconcertante do republicano Scott Brown na eleição para uma vaga no Senado por Massachusetts, considerada uma revolta populista do eleitorado.

Dois dias mais tarde, a Suprema Corte, em uma decisão mais dramática do que muitos previam, anulou a reforma da lei de financiamento de campanha, dando às corporações, sindicatos e outras organizações a liberdade de gastar somas ilimitadas na época das eleições. O presidente Barack Obama, inaugurando seu novo tema populista disse que a decisão favorecia "poderosos interesses" que ameaçam "sufocar as vozes do americano comum". Os republicanos retrucaram que os democratas também têm seus financiadores milionários nos laboratórios farmacêuticos que apoiam o projeto de Obama para a reforma da saúde.

De qualquer modo, esses fatos surpreendentes enfatizaram uma divisão cada vez maior da política americana, exemplificada pelas brigadas "Tea Party" - movimento de uma parcela da população que, como na época da independência, defende a menor ingerência do Estado e o renascimento do nacionalismo -, e também por liberais que começam a manifestar sua decepção com o primeiro ano de governo Obama.

O consenso que vai além das linhas partidárias, visto como possível um ano atrás, deu origem a uma curiosa harmonia na dissensão - uma vez que ambas as partes denunciam a ajuda dada pelo governo aos grandes bancos e as bonificações pagas por Wall Street. Mas, na realidade, o que está havendo são duas diferentes correntes de protesto. Uma, mais visível à esquerda, origina-se no populismo tradicional favorável a uma maior ingerência do governo. A outra, à direita, nasce de uma cepa purista da política americana que não confia absolutamente no governo.

Tanto o populismo quanto o purismo não gostam da elite. Mas ambos detectam a elite em lugares diferentes. Os populistas deploram os ricos. Os puristas não gostam da classe governamental. Assim, as rebeliões puristas foram dirigidas repetidamente contra as elites do Partido Republicano - seja os centristas do "Me too" (eu também) das décadas de 50 e 60, seja os "Republicans in Name Only" (os "republicanos só de nome") atacados hoje em dia.

Em tempos de crise, os líderes republicanos atraem os rebeldes, renovando desse modo os princípios do partido que se abastece da energia das bases. Contudo, os puristas nem sempre agem de maneira recíproca. A eleição de Brown aparentemente proporcionou a perspectiva de uma trégua, porque os ativistas do Tea Party e o Comitê Nacional de Senadores Republicanos uniram forças para garantir sua vitória.

Mas a eleição em Massachusetts pode ter sido um caso especial. Nos lugares onde os conservadores têm raízes mais fortes - na Flórida e no Colorado, por exemplo - os rebeldes do movimento Tea Party e os republicanos mais antigos continuam em conflito, brigando por causa de candidatos e plataformas.

Este conflito faz lembrar as tensões surgidas durante a primeira rebelião realmente bem-sucedida do movimento conservador - a campanha para a indicação de Barry Goldwater à presidência, em 1964. Na época, também os ativistas das bases declararam guerra ao establishment republicano.

Goldwater perdeu as eleições gerais, mas os rebeldes conseguiram o controle do partido, e foram bem-sucedidos em seus esforços de purificação do partido quando o herdeiro de Goldwater, Ronald Reagan, foi eleito em 1980.

O resultado foi o partido mais unificado em termos ideológicos e ainda intacto em 2010, mais obviamente no Congresso, onde os republicanos da Câmara formaram um bloco rígido e os republicanos do Senado fizeram da ameaça de obstrução um instrumento de luta política.

E no entanto, embora eles se oponham energicamente a Obama, estes mesmos republicanos agora estão sendo atacados. Os novos insurgentes os acusam de cumplicidade com o governo por concordarem com os grandes gastos e com uma maior ingerência do Estado.

Como foi que isso pôde acontecer? Uma das explicações é que, como restaram tão poucos moderados, os únicos alvos plausíveis dos puristas irados são os conservadores que se mancharam com a heresia ocasional.

Um novo complicador é a dificuldade cada vez maior de se saber com precisão onde acaba a vida privada e começa o governo. Ambos se tornaram tão profundamente, e por vezes tão confusamente, entrelaçados que agora é possível ser tanto a favor quanto contra uma maior interferência do governo, e às vezes, ambas as coisas ao mesmo tempo.

Um exemplo memorável ocorreu em meados do ano passado quando Bob Inglis, um republicano da Câmara da Carolina do Sul, atraiu a ira dos rebeldes em uma reunião pública. Um dos eleitores dirigiu-se a ele furioso: "Tire suas mãos governistas do meu Medicare". Inglis retrucou: "Na realidade, meu caro, é o governo que paga pelo seu sistema de saúde". Na época, este incidente foi amplamente citado como um sinal da ignorância do público a respeito do sistema de saúde. Mas pode ser interpretado também de modo diferente - como um reflexo da impotência sentida por muitos americanos numa época de crescente dependência de um governo que cada vez mais interfere na vida pública.

Neste ambiente, não surpreende que nenhum dos dois partidos possa gabar muita lealdade. Os populistas estão perdendo a paciência com os democratas assim como os puristas brigam com os republicanos.

Na época da Grande Depressão, Arthur Schlesinger Jr. escreveu que, mesmo naquele período de profunda crise política e econômica, os americanos continuavam mantendo "a desesperada convicção íntima de que a resposta poderia se encontrar em algum lugar". É talvez na sua busca que populistas e puristas poderão encontrar um terreno comum.

FRAGMENTAÇÃO

Neste artigo, o autor explica como a derrota dos democratas na eleição para o Senado em Massachusetts e a decisão da Suprema Corte de liberar doações de campanha por grandes empresas enfatizam a profunda divisão no cenário político dos EUA. Segundo ele, o racha resulta na criação de duas correntes de protesto que ganham cada vez mais espaço no país: os populistas, à esquerda, e os puristas, à direita.

*Sam Tanenhaus é escritor e concorreu ao Prêmio Pulitzer

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.