Daniel Dantas, Pitta e Naji Nahas são presos pela PF

Uma operação daPolícia Federal para desmontar esquema de desvio de verbapública e corrupção levou às prisões do banqueiro Daniel Dantase do investidor Naji Nahas nesta terça-feira. Ambos sãoacusados de chefiar organizações criminosas distintas: umaevadia divisas com um fundo de cerca de 2 bilhões de dólares emum paraíso fiscal e a outra fazia lavagem de dinheiro. A operação Satiagraha, nome que significa "resistênciapacífica e silenciosa", também pediu a prisão do ex-prefeito deSão Paulo Celso Pitta, acusado de ser dono de uma contabancária no exterior e de ser cliente de operações de câmbioirregulares feitas por Nahas. No total, a PF tem mandados de prisão para 24 pessoas e 56de busca e apreensão. Dantas, dono do Banco Opportunity, Nahase Pitta já estão sob a prisão temporária decretada pela JustiçaFederal em São Paulo. Dantas e mais dez pessoas ligadas a ele, segundo oMinistério Público Federal (MPF), cometeram crime de evasão dedivisas por meio do Opportunity Fund nas Ilhas Caimã, entre1994 e 2002. Segundo a polícia, o volume movimentado podesuperar os 2 bilhões de dólares, e o dinheiro seria lavado porDantas também por meio da compra de gado. A operação foi classificada como "tão complexa que nem opróprio cabeça da organização criminosa sabia quantos clientese quantos recursos havia", de acordo com o delegado ecoordenador da operação, Protógenes Queiroz. Nahas e outros dez envolvidos terão de responder peloscrimes de formação de quadrilha, operação de instituiçãofinanceira sem autorização do Banco Central, uso de informaçãoprivilegiada e lavagem de dinheiro. O advogado que representa Dantas afirmou, em entrevistacoletiva, que a prisão do seu cliente foi "ilegal, arbitrária edesnecessária" e que o banqueiro tem sido perseguido pela PF epelo Ministério Público, que poderiam "estar atendendo ainteresses de alguns segmentos do governo". O advogado Nélio Machado disse que está "amadurecendo" aidéia de que o governo federal estaria por trás da prisão deseu cliente e afirmou. Ele teve um rápido contato com DanielDantas na sede da PF, no Rio de Janeiro, e disse que obanqueiro está muito abalado. "Sem dúvida ele se encontra numestado de abatimento ... Mas ele me disse que não tem dúvidasde que sua prisão está ligada ao caso Telecom Itália." Procurados pela Reuters, representantes de Nahas e Pittanão estavam disponíveis para fazer comentários. Figura polêmica do processo de privatização das empresas detelefonia do país, Dantas vendeu no fim de abril por cerca de1,4 bilhão de reais as suas participações na Brasil Telecom ena Oi, que visam se unir para formar a maior companhia detelecomunicações do Brasil. O investidor libanês Naji Nahas provocou um terremoto nomercado de capitais do Brasil em 1989. Ele foi acusado derealizar operações ilegais que quebraram várias corretoras eesvaziaram a Bolsa do Rio, principal mercado de ações do paísna época. Após anos de batalha judicial, em que chegou a sercondenado a 24 anos e oito meses de prisão, Nahas foiinocentado pela Justiça e briga contra a BM&FBovespa, herdeirado mercado de ações, por uma indenização bilionária. MENSALÃO E TENTATIVA DE SUBORNO Dantas e Nahas mantinham conversas telefônicas e faziamnegócios pontuais, segundo o coordenador da operação, queinformou que as investigações sobre o fundo começaram em 2004 etiveram desdobramentos após o escândalo do mensalão. O dono do Opportunity é suspeito de ter contribuído para oesquema de financiamento ilegal do PT, uma vez que empresas dasquais foi acionista, a Telemig e a Amazônia Celular, fizerampesados depósitos em contas do empresário Marcos Valério, que éacusado de ter sido intermediário do suposto esquema de comprade apoio político no Congresso. "Na apuração foram identificadas pessoas e empresasbeneficiadas no esquema montado pelo empresário Marcos Valériopara intermediar e desviar recursos públicos", disse Queiroz,que se recusou a responder se o ex-ministro da Casa Civil JoséDirceu e o ministro de Assuntos Estratégicos, RobertoMangabeira Unger, estariam vinculados às investigações. "Esta investigação ainda tem muito conteúdo sigiloso",disse Queiroz, sem dar mais detalhes depois de ser perguntado. Além das acusações em inquéritos anteriores, como a deespionar adversários e membros do governo, Dantas tambémresponderá por ter tentado subornar um delegado da PF com 1milhão de dólares, disse o procurador da República Rodrigo deGrandis. Os banqueiro, disse o procurador, buscava ter o seu nome, oda irmã Verônica Dantas e o do sócio Carlos Rodemburg retiradosda investigação que desencadeou a operação Satiagraha. Eletambém desejava, de acordo com o MPF, estimular a abertura deum inquérito contra um dos seus inimigos --o empresário LuizRoberto Demarco, ex-sócio do Opportunity. Por causa da tentativa de suborno, outras duas pessoas, queteriam agido sob o comando de Dantas, tiveram a prisão pedida.Com um dos dois corruptores, foi encontrado 1 milhão de reais. Para demonstrar boa-fé nas negociações, os dois chegaram adar ao delegado 129 mil reais semanas antes, disse a PF, queainda não sabe exatamente como Dantas chegou ao nome dodelegado que o investigava. Esse tipo de dado é sigiloso. De acordo com o MPF, o ex-deputado petista Luiz EduardoGreenhalgh pode ter atuado como elo com os Poderes Executivo eLegislativo para obter as informações para Dantas. O juizfederal Fausto Martins de Sanctis, da 6a Vara Criminal de SãoPaulo, rejeitou o pedido de prisão do ex-parlamentar. O MPF e a PF lamentaram o fato de a Justiça Federal terrejeitado o pedido de busca e apreensão no escritório deGreenhalgh, disse o procurador de Grandis. LAVAGEM E INFORMAÇÃO PRIVILEGIADA Todos os detidos na operação deverão ser indiciados peloscrimes de lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, evasão dedivisas e sonegação fiscal. Mas Nahas soma às acusações contraele a de uso de informação privilegiada, devido a indícios deque ele tenha se aproveitado de um "megacontato" no FederalReserve, o Banco Central norte-americano, disse a PF. "Nahas (conseguia informações) devido a um megacontato noFederal Reserve... ele se privilegia de informações", disse odelegado Queiroz, sem revelar o período que isso aconteceu, porsigilo de investigação. A PF afirmou também que "além de fraudes no mercado decapitais, baseadas principalmente no recebimento de informaçõesprivilegiadas, a organização (comandada por Nahas) atuava nomercado paralelo de moedas estrangeiras". Perguntado, o delegado da PF não respondeu se os recursossacados pelo ex-prefeito Celso Pitta, ex-herdeiro político dodeputado Paulo Maluf (SP), têm relação com os escândalos decorrupção que marcaram sua gestão na cidade, entre 1997 e 2000,e que fizeram com que seus direitos políticos fossem suspensos. (Com reportagem adicional de Rodrigo Viga Gaier no Rio deJaneiro e Silvio Cascione em São Paulo)

EDUARDO SIMÕES E MAURÍCIO SAVARESE, REUTERS

08 de julho de 2008 | 20h32

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