Darjeeling, de onde vem o melhor chá do mundo

Cristiana Menichelli, ESPECIAL PARA O ESTADO,

24 de junho de 2010 | 11h41

Makaibari. Deste jardim de chá familiar sai o Silver Tips Imperial, o chá mais caro do mundo

 

 

Uma viagem a Darjeeling, no norte da Índia, é inesquecível por vários motivos. Situada a uma altitude de 2.134 metros, a cidade, a meio caminho do Nepal, do Tibete e do Butão, tem como pano de fundo a Cordilheira do Himalaia e uma vista privilegiada do Kanchenjunga (8.586 m), o terceiro pico mais alto do mundo. Um cenário deslumbrante que por si só valeria a viagem.

 

Quem chega a Darjeeling pela primeira vez também é surpreendido pela densa névoa que todas as manhãs encobre as casas e a paisagem, revelando a aura mística das grandes montanhas. Mas o que realmente atrai viajantes de todos os cantos é o chá.

 

Cultivados nesse terroir mágico ao longo de 150 anos, os arbustos de Camellia sinensis dão origem a uma bebida especial que, por seu grau de complexidade e sua origem singular, ficou conhecida entre os especialistas como o champanhe dos chás. As variações na qualidade de um ano para outro e a escassez da produção - Darjeeling corresponde a praticamente um quarto de todo o chá produzido na Índia - corroboram a comparação com o vinho francês. Refletem também os altos preços do produto no mercado internacional. Alguns connaisseurs vão além, reconhecem no sabor doce-amargo característico do chá preto de Darjeeling a impermanência das coisas, a efemeridade da vida.

 

Herança britânica. Foram os ingleses que perceberam o potencial de Darjeeling para o plantio de chá e, em meados do século 19, realizaram os primeiros testes com mudas trazidas da China. Os bons resultados levaram ao rápido desenvolvimento da atividade. Surgiram as primeiras propriedades, os tea gardens (jardins de chá) e, em pouco tempo, a fama de Darjeeling ganhou o mundo. Hoje, há cerca de 90 jardins de chá na região - a maioria pertence a multinacionais, e a produção é quase toda exportada.

 

A colheita do chá está dividida em três períodos. O first flush, em abril, inaugura a temporada; o second flush, entre maio e junho, é a safra mais aguardada pelos fãs de Darjeeling, quando a planta desperta após um curto período de dormência. As folhas colhidas nessa época do ano produzem um chá de cor moscatel absurdamente caro - dependendo da qualidade, o preço do quilo pode ir de US$ 400 a US$ 800. O third flush começa no outono, em outubro, depois das chuvas de monções.

 

Em todas as colheitas de Darjeeling a presença feminina é notável. As mulheres representam mais de 70% dos trabalhadores nos jardins de chá. Suas mãos hábeis e delicadas as tornam insubstituíveis no trabalho minucioso de escolher as folhas (quanto mais perto da ponta do galho, maior a concentração de seiva) e uma inflorescência dos arbustos.

 

O processamento das folhas para a elaboração do chá preto é feito no mesmo dia. Elas são postas para secar; depois, levadas a fermentar, etapa na qual adquirem a coloração, o aroma e sabor característicos. Em seguida são torradas a 90°C e selecionadas por tamanho.

 

Último dos moicanos. Fundado em 1859 pelo bisavô de Rajah Banerjee, o Makaibari Tea Estate é o único jardim de chá em Darjeeling que permanece nas mãos de uma família. Localizado em Kurseong, um dos três municípios de Darjeeling (os outros são Kalimpong e Darjeeling), ocupa uma área de 750 hectares, onde são produzidas anualmente 120 toneladas de chá.

 

No comando do Makaibari desde a década de 1970, Banerjee foi pioneiro em adequar as plantações de seu jardim à agricultura biodinâmica e orgânica e um dos primeiros a dedicar atenção às questões sociais. No Makaibari, os 1.700 trabalhadores estão organizados em sete vilas e engajados ativamente na vida em comunidade. O visitante que quiser conhecer melhor tudo isso tem a chance de hospedar-se em chalés construídos dentro das vilas.

 

Entre os chás produzidos no Makaibari está o Silver Tips Imperial, considerado o mais caro do mundo atualmente (50g custam US$ 20). Há dez anos, o Makaibari passou a produzir também chá verde. "As folhas colhidas no período das chuvas retêm muita umidade e são as melhores para esse tipo de bebida", diz Banerjee.

 

 

 

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Os chás

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