De brioches a panetones

O mensalão do governo Arruda, que reeditou a frase da rainha francesa para "se não tem pão, que comam panetones", confirma algumas realidades que corriam risco de sumir com a amnésia cultural brasileira. Primeiro, mensalões continuam a existir - mostrando que, ao contrário do que alegaram os petistas em 2005, não se trata de caixa 2, o que já seria crime, mas de redes de corrupção que amarram doações de campanha a licitações públicas. Segundo, a expressão "reforma política" sempre reaparece nesses momentos, por conveniência dos que não a fazem, e serve apenas como biombo para desviar o olhar das baixarias cometidas com o dinheiro público - afinal, há legislação de sobra para que se vigiem e se punam os prevaricadores. Terceiro, o clima de vale-tudo institucionalizado no governo Lula é tal que o primeiro beneficiado é ele mesmo. Ver Tarso Genro lamentando o escândalo é de rir-chorar.

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

06 Dezembro 2009 | 00h00

O presidente Lula começou reagindo com seu habitual bordão, já repetido pela ministra e candidata Dilma Rousseff, de que precisamos esperar a condenação da Justiça para emitir opiniões e protestos (como se uma autoridade sob graves acusações pudesse continuar exercendo o poder em sua defesa). Disse que as imagens não falavam por si mesmas. No dia seguinte, atacou o esquema, embora ainda chamando de "coisinha". E afirmou que mandou duas propostas de reforma política ao Congresso, mas, citando Jânio Quadros (acredite se quiser, Jack Palance), atribuiu a inoperância a "inimigos ocultos". Bem, a frase de Jânio é controversa, mas teria sido "forças ocultas" e num contexto bem diferente; e todo mundo sabe que não são inimigos, mas aliados, e muito menos ocultos, já que incluem arrimos do governo como Sarney, Collor, Temer, Renan et caterva. E achar que essa caterva vai parar de armar mensalões caso o financiamento de campanha seja público é gostar de se iludir ou de iludir o povo.

Transformar conceitos em desculpas faz parte do personalismo brasileiro, que está em alta nestas vésperas de ano eleitoral. Muitos críticos não percebem como fazem parte do jogo ao criticar o governante em vez do governo. O debate se resume ao bate-leva de adjetivos. De um lado, Lula é chamado de autoritário, analfabeto, etc.; um antigo partidário, César Benjamin, chega a insinuar que ele abusava de um preso, o tipo de afirmação que não viria ao caso nem se não fosse leviana, desprovida de provas. Do outro, o presidente é santificado por um filme com o mais alto orçamento da história e qualificado de "culto" e "inteligentíssimo" até por quem não gosta do petismo. Lula é como seu governo, um neopopulista muito esperto que sabe se gabar das boas notícias sobre o Brasil e se safar das más, pondo a culpa no passado e/ou na imprensa por estas. Não por acaso seu ministro da Cultura se vê no direito de apontar para repórteres e dizer que são pagos para mentir.

Também não é por acaso que já não existe oposição no Brasil. Ela não tem ideias, ou melhor, não tem nem sequer bandeiras. Não pode falar muito da corrupção, porque o valerioduto começou no PSDB mineiro e agora o duto de Arruda passa pelo DEM. Não pode falar muito da incompetência, porque o apagão do governo anterior foi mais calamitoso, por exemplo, e os números do PIB em média são melhores, podendo passar de 5% em 2010. Não pode falar muito da política social, porque o barato e limitado Bolsa-Família virou sinônimo de distribuição de renda, mesmo que o governo Lula não tenha tirado nem um centavo dos ricos (muito pelo contrário). E não pode falar muito dos impostos, porque todos os mandatários só sabem aumentá-los. (O prefeito Gilberto Kassab, segundo a ingênua mídia, teria "recuado" no pulo do IPTU, estabelecendo o teto de apenas 30%...) Temas como meio ambiente e educação dão muito espaço para ataque, mas não catalisam votos como os citados. Logo, não espanta que Dilma suba nas pesquisas, por mais diferente de Lula e inexperiente em urnas.

Entenda direito, leitor: há uma enormidade de assuntos em que o governo Lula pode e deve ser criticado - como venho fazendo há sete anos, enquanto tantos andam desistindo. Quase todos os ministérios fizeram trabalhos ruins ou medíocres, da Saúde à Infraestrutura, da Educação à Justiça. Há uma "herança maldita" em plena expansão, que são os gastos públicos (principalmente com pessoal e Previdência) e as contas externas (a "bolha Brasil", como sugerido por Paul Krugman, feita de ingressos especulativos que derrubam o real). E há todas as reformas que não foram feitas, assunto que ao menos permitiria uma campanha no tom "o Brasil melhorou, mas vamos olhar para a frente e ver como melhorar ainda mais". Na arena política, porém, a situação tem dado a liga faz tempo, comemorando agora o consumo aquecido para o Natal. A população come o pãozinho de cada dia - e as autoridades juram que é panetone.

AMÉRICA, AMÉRICA

O problema de Barack Obama, repito, não é o que ele tem feito, mas as expectativas que criou. O que ele tem feito é razoável em muitos aspectos. Nesta semana, por exemplo, investiu alto nas pesquisas com células-tronco que seu antecessor congelou por sete anos. Também divulgou seu plano para o Afeganistão, onde o conflito tem natureza muito diferente do iraquiano, e anunciou aumento de tropas para conduzir a intervenção a um fim. O problema é que a opinião pública se divide entre os que querem saída imediata e os que querem jugo americano. Daí a imagem crescente de Obama como um político ambíguo, que fala bonito e faz pouco. Até a recessão econômica andaram botando em sua conta, muito embora seu plano - que recusou nacionalização sugerida por catastrofistas como Krugman - esteja ajudando a acabar com ela.

O sociólogo francês Jacques Ellul escreveu brilhantemente sobre tudo isso em A Ilusão Política, observando que a população domina e decide assuntos bem menos do que imagina. As restrições mais fortes à realização dos desejos supostamente contidos em seus votos vêm da maneira como a sociedade está organizada, com seus bolsões de poder (como os sindicatos na América Latina, que sempre se pintaram como vítimas do poder), com seus privilégios setoriais. Obama enfrenta o establishment bélico e corporativo com as maneiras disponíveis - sua reforma do sistema de saúde e suas propostas para o mercado financeiro são bem mais sensatas do que as de democratas antecessores -, mas não pode bater de frente sempre e nem comprometer demais a popularidade. Por melhor que seja seu governo, nunca será o que sonharam que fosse.

Campanha é feita em poesia, governo em prosa, como já disseram; por isso mesmo, não se permite senão uma prosa o mais telegráfica e banal possível.

DE LA MUSIQUE

E viva a coragem. Se fosse conversar com um empresário ou produtor musical desses que dominam a indústria do entretenimento, a mezzo-soprano Cecilia Bartoli ouviria um rotundo "não!" ao propor um CD como Sacrificium, em que reúne o repertório dos "castrati", os meninos castrados na Nápoles do século 18 para que suas vozes unissem a tessitura feminina à intensidade masculina, dos quais Farinelli foi o mais famoso. Eis que o belo CD, com momentos de dicção virtuosística, está entre os mais vendidos em várias partes do mundo.

Coragem teve também Sting ao fazer um disco invernal, If on a Winter"s Night, com antigas canções inglesas sobre o tema, assinadas por compositores como Purcell e letristas como Dryden - além de alguns trabalhos próprios, incluindo a letra para uma música de Bach. O problema é que a voz de Sting não dá conta de toda a gama de notas e ideias. De qualquer modo, o CD chegou à sexta posição nos EUA. Já I Dreamed a Dream, de Susan Boyle, tem vendido como água, na esteira de sua fama, mas quem simplesmente escutar o que é cantado ali, como Cry me a River, sabe que está longe de uma grande artista.

POR QUE NÃO ME UFANO

Uma das áreas mais falhas do governo Lula é a política externa. Ela é ao mesmo tempo primária e arrogante: comete erros inacreditáveis, mas parece acreditar que está espalhando a paz e o "brazilian way of life" mundo afora... No caso de Honduras, está perdendo mais uma excelente oportunidade de mostrar que sabe a diferença entre pragmatismo e demagogia. Nenhum governo sério apoiou ou reconheceu o golpe de Micheletti, pois Zelaya foi destituído à força na calada da noite. As eleições, até onde os observadores puderam atestar, foram então realizadas com lisura - e a turma de Zelaya perdeu. Querer que ele volte ao poder depois disso, sabendo-se que suas intenções de mudar as regras do jogo nasceram justamente da perspectiva da derrota, é mais burrice que teimosia. Não há outro caminho senão carimbar a vitória de Pepe Lobo e ajudar na transição até a posse. Entre Obama e Chávez, Lula não deveria ter dúvidas.

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