De diplomata a estilista revelação

Juliana Jabour leva prêmio nacional com coleção jovem e usável, após desistir de carreira diplomática

Valéria, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

A estilista Juliana Jabour, de 35 anos, caiu no gosto das paulistanas descoladas quando resolveu criar seis modelos de roupas para serem vendidos na butique de duas amigas, Claudia Tannous e Helena Linhares, na épocas sócias da Pelu, loja instalada numa vilinha dos Jardins, zona sul de São Paulo. Mistura de multimarca, cabeleireiro e bar, a loja virou reduto fashion, um celeiro de novos estilistas que ganharam ali uma boa vitrine. Juliana entrou sem muitas pretensões na Pelu, com 15 peças, que foram sucesso de vendas. Logo depois, ela aumentou sua participação, com 200 unidades, e, em seguida, organizou seu primeiro desfile, na própria vilinha, a céu aberto. Isso foi há apenas quatro anos.

No fim do mês passado, ela ganhou o Prêmio Moda Brasil, criado para prestigiar e valorizar profissionais de todo o País, com 1.461 inscritos em 21 categorias. Levou o primeiro lugar na categoria Estilista Revelação, com a coleção de inverno 2009, que apresentou no Fashion Rio. E ainda embolsou R$ 50 mil.

Há uma semana, Juliana inaugurou seu primeiro showroom, numa rua tranquila dos Jardins, a quatro quarteirões de seu apartamento. Com 120 metros quadrados, ali recebe com hora marcada clientes que chegam de todas as partes. Sua marca tem 180 pontos de venda espalhados pelo Brasil. O espaço funciona como uma loja fechada, com modelos desfilando ao vivo suas criações - para o verão, ela produziu 400 modelos -, e algumas delicadezas, como bebidinhas e canapés.

"Tudo está acontecendo ao mesmo tempo. Desenhei a coleção de inverno 2010 contratando equipe, cuidando da reforma e da decoração do showroom", diz Juliana. "Isso sem contar o desfile." Explica-se: na quarta-feira, ela mostrou a coleção de alto-verão numa estufa, na Vila Madalena, na zona oeste, para compradores, fashionistas e amigos.

No dia seguinte, Juliana estava no showroom, de minissaia, chinelo de plástico e cabelo preso, deixando à mostra cinco tatuagens. Duas delas, nos pulsos. No direito, estampou duas cerejas, hoje símbolo de sua marca; no esquerdo, um lacinho. "Adorava a Hello Kitty, marca ícone das meninas, por isso fiz essas tatuagens. É o meu lado kitsch."

Sua atitude não destoa do visual. Não há arrogância nem deslumbramento com a boa fase. "Ela é muito pé no chão", diz a amiga publicitária Claudia Tannous, ex-Pelu, que hoje trabalha numa agência e tem um programa de entrevistas na web. "Acho que é por causa de sua formação. Ela foi preparada para dar certo."

Diferente da maioria dos novos estilistas, que em geral cursam faculdade de Moda ou de Design, Juliana estudou Ciências Políticas e Econômicas na Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, e depois pós-graduação em Política de Integração da União Europeia, na Sorbonne (França). "Aos 15 anos, resolvi fazer high-school nos Estados Unidos. E tudo o que estudei depois foi para seguir carreira diplomática."

Caçula de quatro irmãos, ela contou com a ajuda financeira do pai, o empresário mineiro Nagib Jabour - vítima de um enfarte em 2001, cinco anos depois de a filha concluir os estudos. "Depois, ele falou que eu tinha de me virar." Juliana resolveu ir para Londres. "A cidade era muito cara. Consegui um emprego de vendedora de loja." Ela foi trabalhar na Joseph, loja de um designer marroquino, especialista em descobrir novas marcas e hoje considerado uma das atrações do mundo fashion londrino. "Apesar de morar na casa da minha irmã, tinha dia em que faltava dinheiro para o metrô. Andava até a loja com frio abaixo de zero. Vivia como uma cidadã de segunda categoria."

E a carreira de diplomata? "Percebi que teria de ralar muito para conseguir ser algo como a terceira secretária da Costa do Marfim. E levar uma vida nômade." Em 1998, a hoje estilista voltou para o conforto do lar brasileiro - primeiro para Belo Horizonte, sua cidade natal, e na sequência para São Paulo, onde está há mais de uma década.

Eu sempre gostei de moda, mas, quando cheguei aos Estados Unidos, não tinha ideia nem do que era Prada ou Chanel. Aprendi isso com minhas amigas de Los Angeles, e nas minhas idas constantes a Nova York na época." E teve ainda Londres, onde passou rapidamente de vendedora a gerente de compras, o que expandiu sua visão de moda.

Filha de libaneses, povo com a cultura do comércio nas veias, Juliana optou por uma linha de produto de fácil aceitação no mercado. "Não trabalho por hobby. Minha coleção não é conceitual a ponto de ninguém conseguir usar, nem comercial demais." Juliana, diz, desenha aquilo que ela mesma usaria.

E isso quer dizer roupa confortável e com estilo. Tem peças muito jovens, como saias, shorts e vestidos curtíssimos, e outras mais curinga, que servem para qualquer idade. "Em Fortaleza, vendo as roupas dela para clientes de 12 a 60 anos", garante Lisieux Brasileiro, que tem uma loja com o mesmo nome. "É uma democrática, que serve para magrelas e gordinhas, dependendo do modelo. As mulheres mais maduras usam muito as túnicas", conta Lisieux.

Juliana ainda vende para França, Portugal, Espanha, Estados Unidos e Japão - este o maior parceiro. Só no Japão, tem 30 pontos de venda. Ela entrou no mercado oriental graças à parceria que fez com a japonesa Uniqlo, uma das maiores redes de roupas do mundo. A estilista escolhe o material, faz a peça-piloto e manda para o Japão, junto com a ficha técnica, para que confeccionem na escala que acharem melhor.

"Tenho modelos que em duas horas acabaram nas lojas da rede", conta. Como no Brasil, os japoneses também compram para revender. E, por conta disso, um de seus vestidos foi parar no ebay.com, site de compras, onde Juliana adquire muita coisa, de livro a bolsa Chanel. "Não resisti e comprei para testar. Chegou direitinho."

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