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Luiz Horta
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De ex-desafetos ao namoro em andamento

O chocolate era doce. O vinho não gostava. Um dia ele ficou amargo...

Luiz Horta,

02 de abril de 2009 | 08h56

Chocolate já fez parte da lista de vilões que abalavam o mundo dos vinhos. Como alcachofras, wasabi e umas poucas coisas mais, era um dos desafios clássicos à harmonia.Por ser doce e, principalmente, por ser untuoso (aquela sensação táctil deliciosa na língua, mas devastadora para o vinho), tinha enorme dificuldade de atravessar essa camada e alcançar também alguma eloquência na mistura. A solução, que todo sommelier e estudante de gastronomia dava para o encontro não ser desastroso era: Banyuls, o vinho fortificado do sul da França. Alguns indicariam também certos tipos de Porto ou um Pedro Ximenez, o vinho doce de Jerez. Tudo dentro da regra clássica de que o vinhoprecisa ser mais doce que a sobremesa. Mas um dia o chocolate deixou de ser doce e até untuoso. Veio a mania do alto teor de cacau, os cacaus de origem determinada e tão diferentes, cheios de expressão de terroir. E apareceram também os chocolates em misturas gastronômicas inesperadas, como pimenta, mostarda, vinagre, fleur de sel. Um chocolate de altíssimo porcentual de cacau e nada de açúcar é mesmo outra coisa: uma comida quase de sal, um snack, terroso, mastigável e quebradiço, cheio de sabores viris e rusticidade, como em alguns de Claudio Corallo, que são como comer um torrão de terra, o melhor torrão de terra jamais digerido por alguém. Os vinhos tomaram um choque. Ainda não sabem como lidar com a situação, a relação está sendo repensada e parece que pode rolar um casamento, depois de tantos anos de brigas.Certamente a resposta anterior, a de correr para os fortificados doces, já não pode ser a única, talvez nem seja mais útil. A matéria está literalmente sobre a mesa dos provadores. Em degustações recentes, pelo mundo, houve quem indicasse Syrah encorpado para acompanhar chocolates. Outros tentaram brancos, sem muito sucesso. Eu fico com alguns Malbecões argentinos, aqueles com muita fruta madura, pouca acidez e taninos bem baixos, que têm alguma doçura, parte vinda do alto teor alcoólico. Em resumo, os vinhos que agradam Robert Parker na América do Sul, aqueles que ele pontua com generosidade. Finalmente, esses vinhões parkerizados, bombas de fruta alcoólica, encontraram alguma utilidade no mundo do sabor. Desanimadores que são com a comida, passam a ser companhia ideal para o neochocô.

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