De geração em geração, a escola permanece

Colégios tradicionais de São Paulo abrigam por décadas membros das mesmas famílias

Mariana Mandelli, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2010 | 00h00

Os 140 anos do Colégio São Luís, na zona central de São Paulo, estão plenamente entrelaçados com os últimos 140 anos da família Toledo Ridolfo. Aos 47, o advogado José Olinto, ex-aluno da escola, lembra, entre tantas recordações, que, por mais de 127 anos, todos os homens da família estudaram lá.

"Até a década de 1970, o São Luís só aceitava meninos. Se minha mãe não tivesse ingressado depois, a história de nossa família teria parado ali", lembra. "Além disso, meu avô, que também estudou lá, pediu a mão de minha avó nas escadarias da igreja do colégio." O Padre Faria, que deu aula para José Olinto, celebrou seu casamento e batizou seus filhos, que hoje são a quinta geração da família a ingressar no colégio.

O motivo da escolha de um mesmo colégio por décadas, segundo as famílias, é unânime: os valores transmitidos pela instituição. Na opinião da psicóloga Ida Kublikowski, do Núcleo de Família e Comunidade da pós-graduação da PUC-SP, os pais se sentem seguros ao escolher um ambiente familiar para os filhos. "É uma forma de manter tradições e valores, uma espécie de certeza de que as crianças vão vivenciar as boas experiências que eles tiveram", afirma. "Tradição não é letra morta: tem muita vida."

Os métodos pedagógicos e a preocupação em inovar o currículo também são fatores levados em conta. "É importante que a instituição seja antenada, porque as crianças acabam passando mais tempo lá que em casa", afirma o advogado Octavio Moura Andrade, de 33 anos, ex-aluno do Santo Américo.

O pai de Octávio se formou em 1968 no colégio. Agora, são os filhos do advogado, Victoria, de 10 anos, e Guilherme, de 4, que lá estudam. Para Octavio, o Santo Américo conseguiu estar sempre à frente de seu tempo. "Em 1989, eu já tinha aula de informática, com uns computadores que hoje são arcaicos. Meus filhos agora têm aula de robótica, por exemplo."

Tempo. Nas escolas que vivenciaram o conturbado século 20, as transformações pedagógicas e estruturais foram grandes. "No meu tempo, mulher não podia pintar a unha e homem não podia usar calça jeans na escola", lembra o engenheiro mecânico Mário Gerd Liebrecht, de 67 anos, ex-aluno do tradicional Colégio Visconde de Porto Seguro, fundado em 1878.

Entre seus avôs, pais, filhos, tios, sobrinhos e primos, ele calcula que passaram pela escola no mínimo 15 familiares seus. A família de Mário, de origem alemã, escolheu o Porto Seguro justamente para preservar as tradições, já que a escola tem raízes no país europeu.

Vínculo. A amizade que nasce entre as famílias e os funcionários dos colégios, segundo os pais, dá a tranquilidade de que seus filhos não serão tratados como "números de matrícula", mas sim como crianças com nome e sobrenome.

"A maioria dos meus amigos de hoje ainda é a turma do colégio", conta a publicitária Andréa Maccaferri, de 33 anos. Ela e o marido, Paulo Maccaferri, de 36, estudaram no Colégio Franciscano Nossa Senhora Aparecida, fundado em 1937. O filhinho dos dois, Thiago, de 3 anos, já está matriculado lá.

"Queremos que o Thiago aprenda e carregue esse valor de amizade com ele", afirma Andréa. Os pais de Paulo, Solange e Ricardo, de 64 e 70 anos, respectivamente, e avôs de Thiago, também foram alunos do Consa.

O vínculo da família com a escola requer cuidados para não funcionar como pressão, já que o sobrenome é velho conhecido da direção. É o que aconteceu com a orientadora pedagógica Tiyomi Misawa, de 60 anos, do Colégio Santa Maria. Ela estudou na escola nos anos 1960 e matriculou as duas filhas. Seu neto, Victor, de 12, hoje estuda na escola. Alguns professores dele deram aula para sua mãe. "Ele não se sente pressionado, mas não dá para negar que sinta uma cobrança maior, que é natural."

Uma relação contruída em décadas

Tradição

Muitas famílias acabam permanecendo na mesma escola porque afirmam que

a instituição consegue manter valores e disciplina.

Amizade

O vínculo que nasce entre a escola e as famílias também é outro aspecto de destaque. As boas memórias dos tempos de colégio motivam os pais a matricularem os filhos na mesma instituição em que estudaram.

Cobrança

O fato de os mesmos professores darem aula para membros de uma mesma família por gerações pode pressionar os novos alunos a terem um desempenho melhor que o de seus antecessores.

Inovação

Em instituições antigas, as adaptações pedagógicas e curriculares, somadas a

reformas de infraestrutura, são essenciais.

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