De hábitos simples, pontífice toma ônibus e paga contas

No primeiro dia como papa, Francisco não altera rotina de austeridade que o tornou conhecido na Argentina

JAMIL CHADE, ANDREI NETTO, ENVIADOS ESPECIAIS / VATICANO, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2013 | 02h05

Um pontífice informal, que faz brincadeiras sobre o conclave, dispensa a limusine oficial do Vaticano, pega ônibus com os colegas cardeais e levanta mais cedo para fazer as malas e pagar, ele próprio, a conta de seu alojamento em Roma. Esses foram os indícios de que o cardeal Jorge Mario Bergoglio, agora papa Francisco, deverá imprimir um novo estilo, mais despojado, à frente da Igreja Católica.

Na noite de quarta-feira, durante o jantar oferecido aos cardeais após o conclave, Francisco ergueu a taça de champanhe com a qual todos comemoravam a eleição do novo pontífice e, segundo o cardeal brasileiro d. Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, brindou ironizando a própria escolha de seus pares: "Que Deus os perdoe".

"Ele já mostrou que vai trazer um novo ar para o Vaticano", disse ao Estado o cardeal chileno Javier Errázuriz Ossa. "Ele tem humor."

Ontem cedo, antes de se dirigir à Basílica de Santa Maria Maior acompanhado pelo prefeito da Casa Pontifícia, d. George Gaenswein, e o vice-prefeito, Leonardo Sapienza, o papa pediu para passar na Casa Internacional do Clero, onde se hospedara durante as reuniões pré-conclave. Lá, ele arrumou suas malas e pagou a própria conta de estadia (diárias de 60). A atitude despertou admiração de cardeais como d. Geraldo Majella Agnelo, que se disse impressionado pelos primeiros "exemplos de humildade" do novo pontífice.

"Está aí o significado do nome Francisco", comemorou, lembrando de São Francisco de Assis, religioso que pregava o voto de pobreza.

Bergoglio já era conhecido em Buenos Aires, cidade da qual foi arcebispo, por seus hábitos simples, como cozinhar as próprias refeições, dispensando ajuda de serviçais. "Chegou um novo estilo de papa, como já pudemos ver hoje", disse o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.

Segurança. Caso se mantiver ao longo de seu pontificado, a nova postura imprimida por Francisco vai exigir adaptações por parte dos serviços de segurança do Vaticano, aprimorados desde a tentativa de assassinato de João Paulo II, em 13 de maio de 1981. "No Vaticano, não é a segurança que impõe o que um papa pode fazer. A segurança é montada a partir do estilo do papa, está ao serviço do pastor e em função do que ele vai adotar como atuação", explicou Lombardi

Jesuíta, Francisco também demonstrou que está disposto a inovar os ritos litúrgicos e reduzir a pompa do cargo, justamente para permitir que sua mensagem chegue de forma mais clara aos fiéis. Ao aparecer no balcão da Basílica de São Pedro, convidou d. Cláudio Hummes, seu amigo de muitos anos, para ficar a seu lado. Quem deveria estar lá era o cardeal Valini, seu vigário para a Diocese de Roma.

Na missa dos cardeais ontem, celebrou em pé, em vez de usar a cátedra. Na hora da homilia, surpreendeu ao falar de improviso, sem ler. Além disso, usou a estante de leitura, do lado esquerdo do altar, como se fosse um simples padre. / COLABOROU J.M.M.

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