De matador de padre ele só tem a fama

Os italianos já deram vários nomes irreverentes às receitas de sua admirada cozinha. O mais atrevido foi o spaghetti alla puttanesca, cujo molho picante combina alho, peperoncino (pimenta cumari), tomate, alcaparra, azeitona preta, anchova, orégano e salsinha. Segundo a tradição, surgiu nos bordéis do Quartieri Spagnoli, o histórico bairro de Nápoles.

Dias Lopes, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2011 | 01h47

Outro prato de nome ousado, que aliás está em alta, é o strozzapreti, massa caseira à base de farinha de trigo, água e sal. Pode ter a forma de bastõezinhos com 5 cm de comprimento, ligeiramente torcidos, ou então de grossos cordões com até 20 cm de comprimento. Em Trento, capital do Trentino-Alto Ádige, strozzapreti designa nhoque de pão dormido, espinafre, ovo e parmesão ralado, servido com queijo derretido e sálvia; em Nápoles eram nhoques de farinha de grano duro que donas de casa gordinhas e sorridentes vendiam aos domingos no mercadinho de Forcella.

Strozzapreti, em italiano, significa esgana ou estrangula (strozza) padres (padri). Originalmente, chamava-se strangulaprievete, a seguir virou strangolapreti, que vem a ser a mesma coisa. Em certos lugares da Itália prevalece a designação primitiva. Muitos autores a julgam anticlerical. Lembram que o nome strozzapreti se originou na Romagna. A região fez parte dos Estados Pontifícios, os territórios da Península Itálica que entre os anos 756 e 1870 estiveram sob a autoridade civil dos papas e cuja capital era Roma. A dominação prolongada suscitou o conhecido anticlericalismo da população romagnola, sobretudo entre os homens. Uma versão atribui a invenção do strozzapreti às donas de casa da região. Extremamente católicas, ofereciam o prato ao padre da paróquia, enquanto os maridos torciam para ele esganar-se (strozzarsi) de tanto comer.

Entretanto, o escritor italiano Graziano Pozzetto, no livro Cucina di Romagna (Franco Muzzio Editore, Roma, 2004), levanta novas hipóteses. A primeira sugere que a massa foi batizada de strozzapreti por apresentar consistência firme, capaz de esganar (strozzare) a caricaturada fome dos padres. A segunda associa o nome do prato ao movimento de torção com o qual as cozinheiras esganam (strozzano) as tirinhas de massa para transformá-las em strozzapreti. Enfim, quando se apresenta na modalidade de cordões longos, a massa receberia o nome por se assemelhar aos cadarços que os anarquistas do século 19 retiravam das botinas para esganar (strozzare) os padres e qualquer autoridade, fosse religiosa, política, econômica, etc.

Recentemente, o pesquisador gastronômico Federico Valicenti, chef do restaurante La Luna Rossa, de Terranova di Pollino, na região da Basilicata, retirou os sacerdotes de cena. Ele afirmou que a palavra é muito antiga e tem outra etmologia. Foi citada em um manuscrito de 1524, de Antonio Camuria, sobrinho do papa Paulo IV e cozinheiro em Nápoles do cardeal Carlo Caraffa. O substantivo strangulaprievete ou strangulapreti derivaria dos verbos gregos straggalao (enrolar) e prepto (equivalente a escavar), pois em algumas das massas é feita uma incisão com o dedo indicador ou polegar. Nesse caso, de anticlerical ela só teria a fama.

A receita do strozzapreti chegou ao Brasil nos anos 90, trazida pelo chef Sergio Arno, que a colocou no cardápio do La Vecchia Cucina, de São Paulo, onde virou atração. Neste ano, ele ensinou seu preparo no livro 10 Anos de La Pasta Gialla (Edição Particular, 2011), outra casa sua. A massa que usa é do tipo longo. O molho leva linguiça defumada, tomate, pimenta dedo-de-moça e manjericão. Aliás, esse adereço deve ser substancioso. O strozzapreti exige molhos bem temperados ou ragus elaborados. Infelizmente, no Brasil, ainda é pouco difundido. E pode ser saboreado sem receio, pois a fama de esganar ou estrangular os comilões não passa de lenda.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.