De mudanças

'Em 1980, aquelas pessoas tão caladas começaram a ter coragem de me interpelar: 'Ei, tá me fotografando por quê?' O trabalho estava concluído'

Christian Carvalho Cruz,

29 Março 2014 | 16h19

Certas coisas não mudam. Numa tarde sufocante de segunda-feira, o Armando Prado chegou para mostrar suas fotografias munido de um velho projetor de slides (alô crianças embasbacadas com o universo digital, favor consultar o... vocês sabem). Aparelho na tomada, espera a lâmpada esquentar, o carrossel fazendo "tecléc, tecléc" e lá estão elas na parede. As fotos que o Armando fez nas ruas de São Paulo entre 1976 e 1980 e que representam uma mudança na vida dele. Mas também, vistas com olhos de hoje, ele acha, alguma imutabilidade desse ente chamado sociedade brasileira.

Na série composta no total por 55 imagens está a origem do trabalho colorido do Armando - que depois o conduziria às polaroides que o tornaram nome grande nas galerias, à fotografia de moda e publicidade e ao tratamento ainda hoje dispensado pelos amigos: "professor". Até então, como fotógrafo do Jornal da Tarde, ele só fotografava em preto e branco.

Seduzido pela nova fotografia americana de William Eggleston, Joel Meyerowitz e Joel Sternfeld, enxergou na cor a força necessária para, mais que documentar, sentir aquela época. "Eram tempos contaminados. Tinham matado o Herzog, o Manuel Fiel Filho, virava e mexia prendiam colegas do jornal, a gente só ouvia falar de pau de arara, cadeira do dragão", ele relembra. "E nas ruas aquela complacência, aquela alienação... Resolvi fotografar de outro jeito numa tentativa de lidar com a indignação que eu sentia."

Tudo como antes: As fotos, depois de projetadas em casa para a mulher, os filhos e poucos amigos, foram para a gaveta. E lá esperaram por quase 40 anos. Na hora de resgatá-las, a indignação continuou. O Armando, agora com 61 anos, olha para as imagens iluminadas na parede e vai pontuando:

"Ônibus executivo. Sempre as políticas públicas favorecendo os mais abastados."

"Mão segurando a moeda. Era uma propaganda da poupança Haspa, cujo dono fugiu para Miami levando o dinheiro de 1,6 milhão de pessoas."

"Menino com dificuldade de locomoção no meio da rua. Vá lá fora e olhe a calçada; dá para um cadeirante circular?"

"E aí você vê a reedição da Marcha da Família, os conservadores completamente sem vergonha... Eu acho que a gente continua com os problemas de sempre, o País pertence aos donos de sempre.

Então lembro sempre de O Leopardo, do Lampedusa, e as célebres palavras ‘é preciso mudar para que tudo fique como está’."

E ainda se pode elucubrar sobre a solidão de alguns retratados, o sumiço dos grandes magazines de rua, a senhora assustada engolfada pela escuridão e o céu demoníaco, ou a majestade forçada do milico de farda cheirando a naftalina. O que mudou? O que não mudou? "A partir de 1980 começa a mudar", conta o Armando. "Aquelas pessoas tão caladas, tão desesperançadas, passaram a ter coragem de me interpelar: ‘Ei, tá me fotografando por quê?! Vai fazer o que com a minha foto?!’ Achei que o trabalho estava concluído e parei."

Um ano atrás o Armando resolveu fotografar na rua de novo. Comprou uma câmera digital. Mas diz que conseguiu fazer apenas duas fotos boas até agora. Certas coisas demoram pra mudar.

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