De olho em votos da direita, candidatos franceses prometem cortar imigração

Na reta final da campanha, Hollande se une a Sarkozy em discurso a favor da redução no número de estrangeiros vivendo na França

Daniela Fernandes, BBC

04 Maio 2012 | 16h00

Na reta final da campanha para as eleições presidenciais francesas, o candidato socialista, François Hollande, prometeu reduzir a entrada de estrangeiros no país, e o presidente Nicolas Sarkozy adotou um discurso ainda mais radical sobre o tema.

"No atual período de crise, é indispensável limitar a imigração de pessoas que buscam trabalho (na França)", disse Hollande, favorito nas pesquisas com 52,5% a 54% das intenções de voto. O candidato socialista também disse que lutará contra a imigração clandestina.

Porém, enquanto Sarkozy prometeu cortar pela metade o número de imigrantes que entram legalmente na França (180 mil em 2011), Hollande preferiu não fixar metas para uma redução desse contingente.

O candidato socialista havia evitado abordar o tema da imigração durante boa parte da campanha, recusando-se a responder em inúmeras entrevistas se, como Sarkozy, também achava que havia "imigrantes demais" no país.

O socialista também vinha se recusando a fazer comentários sobre a sua proposta de conceder direito de voto a estrangeiros não-europeus nas eleições municipais.

Guinada à direita

O que colocou a imigração no centro do debate eleitoral neste segundo turno foi o apoio obtido pelo partido de extrema direita Front National no primeiro turno, em 22 de abril.

A candidata Marine Le Pen, que disputou as eleições pela primeira vez, obteve o melhor resultado histórico do partido, com 18% dos votos.

Pressionado pela imprensa francesa e por Sarkozy a se posicionar sobre a questão da imigração, Hollande endureceu seu discurso numa tentativa de atrair eleitores da extrema direita - ainda que continue bem mais moderado do que o rival sobre esse tema.

Cerca de metade dos imigrantes que entram legalmente na França, o fazem por razões de ordem familiar (por exemplo, para casar-se com um francês ou reunir-se com parentes que já estão no país).

Durante um debate na TV entre os dois candidatos, na quarta-feira, Hollande disse ser favorável à exigência de um determinado nível de renda, moradia e conhecimento da língua francesa para que um imigrante possa trazer sua família à França. Essas regras já são impostas por Sarkozy.

O candidato socialista, porém, prometeu que não tentará reduzir, como o atual governo, o número de estudantes estrangeiros no país - hoje em cerca de 60 mil por ano.

Desde o início de sua campanha, Sarkozy adotou a estratégia de tentar atrair o eleitorado da extrema direita com um discurso radical contra a imigração, associando o tema também aos muçulmanos, o que provocou críticas e divisões em seu próprio partido.

Com o argumento de que a França "não pode acolher toda a miséria do mundo", o presidente propôs a reforma do tratado de Schengen (sobre a livre circulação de pessoas em países europeus), argumentando que a Europa se tornou "uma peneira".

Seu discurso neste segundo turno se tornou ainda mais radical, com referências à necessidade de "proteger as fronteiras" para garantir a identidade nacional francesas, evitar o comunitarismo (de muçulmanos) e uma sobrecarga do sistema de proteção social francês.

"Não aceitarei que não haja mais nenhuma diferença entre ser ou não ser francês", declarou Sarkozy em um comício.

Estratégia arriscada

O fato de Sarkozy ter adotado temas defendidos pelo Front National resultou na perda de apoio dos centristas, historicamente ligados à direita.

François Bayrou - que obteve 9,1% dos votos no primeiro turno - declarou na quinta-feira que irá votar em Hollande, mas frisou que seus eleitores são livres para escolher.

Bayrou denunciou a "obsessão" de Sarkozy em relação à imigração e sua "corrida desenfreada" em direção às teses defendidas pelo Front National.

O discurso radical de Sarkozy contra a imigração acabou reforçando, segundo analistas, a candidata de extrema direita, sem atrair, necessariamente, mais votos para o presidente francês nesse segundo turno.

Segundo uma pesquisa do instituto Ipsos divulgada na quinta-feira, 66% dos franceses acham que há imigrantes demais na França - frase utilizada por Sarkozy e Le Pen ao longo da campanha.

"Esse número é supreendente, mas só no domingo saberemos qual é a real importância desse tema para os franceses", disse à BBC Brasil Dominique Reynié, professor do Instituto de Ciências Políticas de Paris.

"Se Sarkozy ganhar, é porque o assunto se tornou prioritário. Caso contrário, poderemos concluir que a prioridade dos franceses é a questão da "justiça social". Na mesma pesquisa, esse tema foi considerado importante por 63% dos entrevistados", explica o analista. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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