De volta à realidade das tribalizações

Em Cultura Com Aspas, a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha reúne textos escritos no decorrer de 40 anos de atuação

Lilia Moritz Schwarcz, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

"O velho levantou-se. Olhou para o auditório e disse com indignação: Alguém aqui acha que honi é cultura? Eu digo que não é!" Mais do que um episódio destituído de sentido, a bravata é real e faz parte do novo livro de Manuela Carneiro da Cunha: Cultura Com Aspas. Resultado da reunião de artigos, fundamentais, escritos no decorrer de 40 anos de atuação, a coletânea representa uma forma de consagração e, ao mesmo tempo, as pegadas de um longo percurso.

Consagração, pois a obra marca o retorno ao Brasil dessa antropóloga de origem portuguesa, que se radicou por aqui aos 11 anos, para viver entre São Paulo, Chicago e a Amazônia. Formada em matemática, Manuela guinou para a antropologia, passando a atuar nas áreas de etnologia e de história dos povos indígenas, mas também no campo dos estudos de etnicidade, na fronteira que separa e compara conhecimentos tradicionais e científicos, e na militância da causa indígena e de seus direitos intelectuais.

Eis aí uma trajetória de difícil doma e complicada definição. Tal dificuldade está presente também no desfile de artigos que o livro reúne e confere unicidade. Ler os ensaios em conjunto permite recuperar os meandros de um trabalho em construção e adivinhar um todo coerente. Cultura Com Aspas apresenta os textos em suas formas originais contando, porém, com notas elaboradas pela autora, que não só contextualizam o momento de produção, como comentam desenlaces ou demonstram arrependimento, quando a análise se mostra datada.

O conjunto dos textos espelha, ainda, características da produção de Manuela, que alia rigor, com grandes doses de curiosidade: capacidade de síntese combina com crítica, originalidade com independência de pensamento. Modelos de etnicidade presentes em seus estudos africanos servem para problematizar análises de etnologia; a teoria fertiliza a prática, e vice-versa.

O livro é dividido em quatro momentos. Em primeiro lugar estão os artigos sobre lógica indígena e sua maneira "de entender e se entender com a história". Aí aparecem as discussões sobre mito, memória e a evidência de que "se os índios têm futuro, tem com certeza passado, o seu passado". A segunda parte dedica-se, simetricamente, a entender como nossa história ocidental incorporou índios e escravos. Povos sem f, l, r (sem fé, lei e rei), na visão do viajante Gandavo, os indígenas são recuperados a partir dos relatos do século 16 que insistem na nudez, práticas de canibalismo e vingança.

Cabe, entretanto, ao olhar afiado da antropóloga anotar reiterações e descobrir filosofias. Manuela, em artigo escrito em coautoria com Eduardo Viveiros de Castro, mostra por exemplo, como a vingança indígena, tão estranhada pelos cronistas, é antes prática de memória e de erradicação do esquecimento.

Com a terceira parte chegamos aos estudos de etnicidade e à demonstração de como processos de identidade são construídos de forma situacional e contrastiva, constituindo resposta política a uma conjuntura: resposta articulada com outras identidades em jogo, com as quais forma um sistema. Trata-se, pois, de anotar estratégias de diferença, uma vez que grupos de cultura articulam identidades, e não o contrário. Discursos identitários são causa e não consequência da cultura, pois o que importa é a tomada de consciência das diferenças, e não as diferenças em si. Nos termos da autora: não se trata em Roma de falar como os romanos, mas antes de falar com os romanos.

Voltamos, assim, ao início desta resenha. O evento selecionado revela como identidades agenciam origens históricas através de sinais tangíveis: a cultura. Hora de entrar na quarta parte, quando descobrimos, finalmente, a diferença entre culturas: cultura seria um patrimônio geral; já "cultura", a propriedade particular de cada povo. Manuela mostra como é a "cultura" que tem sido sendo usada de maneira ampla, assumindo novo papel como argumento político.

Mas o que pretendia o velho chefe quando declarava que honi não era cultura (sem aspas)? Talvez sublinhar a patente local da "cultura do honi", e negar a ideia de que ela corresponderia a uma espécie de tesouro universal. E por isso a defesa da perereca, ou melhor, do honi, era tão fundamental para os índios katukina. Numa carta datada do início de 2003, os indígenas afirmavam que o uso da secreção da rã, difundido em várias cidades, derivava de conhecimento tradicional e que este andava sendo indevidamente apropriado. A secreção curaria caçadores azarados, mas também asseguraria sucesso erótico, propriedade que popularizou de vez o tratamento com kampô - outro termo que designa tanto a perereca como os efeitos milagrosos.

A prática, que teria se difundido por meio das religiões ayahuasca, ficou conhecida entre nós a partir do chá de cipó usado pelos fiéis do Santo Daime, e por aí vamos longe. O importante é que o indígena reclamava a sua patente, com termos traduzidos, e fazia uso pragmático da "cultura". Afinal, enquanto cultura é passível de acumulação e empréstimo, já "cultura" opera em regime de etnicidade e como instrumento operante de defesa da propriedade intelectual. Vale a pena lembrar da sensível virada destes últimos tempos. Se o período do pós-guerra defendeu a universalização dos direitos, mais recentemente a ênfase recaiu nos direitos das minorias. Ora, nesse mundo das diferenças, nada como acionar a "cultura" enquanto recurso para afirmar identidades.

Não há como resumir um livro de vida toda e deixo ao leitor o privilégio da surpresa e da boa leitura. Certa vez, Clifford Geertz disse que antropólogos são "mercadores do espanto", e acrescentou: "Se quiséssemos verdades caseiras, seria melhor ter ficado em casa." Manuela Carneiro da Cunha faz bonito na definição. Diante de um mundo cada vez mais globalizado, Cultura Com Aspas devolve a realidade das tribalizações, o império da diferença e a própria "indigenização da cultura". Nada mais contraditório e atual; desta vez, sem aspas.

Lilia Moritz Schwarcz é professora do Depto. de Antropologia da USP e autora de O Sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay (Companhia das Letras)

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