De volta ao ensino médio

Grupo que deixou escola há 10 anos faz prova para saber o que lembra das matérias

Marta Valim, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2011 | 00h00

Pense rápido: o que você estava fazendo dez horas atrás? E há dez anos? Edison, Paulo, Joatan, Wilson, Silvia e Tarsilla lembram que em 2000 estavam no ensino médio. Mas o que estavam estudando e o que ficou na memória? Para responder a essa questão, o Estadão.edu pediu aos seis que fizessem um teste com 15 questões de disciplinas no ensino médio, preparado pelo coordenador do colégio Oswald de Andrade, André Meller.

Algumas questões foram tiradas de edições passadas da Fuvest e outras, criadas pelo professor. Meller tomou um cuidado: nenhuma pergunta exigiu fórmulas facilmente esquecidas por quem já parou de estudar há algum tempo.

Os ex-estudantes testados são profissionais das áreas de Farmácia, Economia, Geografia, Design, Direito e Engenharia, com idades que variam entre 27 e 30 anos. Eles concluíram o ensino médio entre 1999 e 2001. Alguns ficaram confiantes em seu desempenho, outros temerosos. "Estou em pânico, me sentindo no pré-vestibular", revelou o designer Joatan Jamilton. Das 15 questões, ele respondeu 9 - e acertou apenas 5. "As que eu não lembrava preferi deixar em branco."

A advogada Silvia Regina da Silva se saiu um pouco melhor: acertou 8 questões e meia. Ela gostou do teste, por fazê-la lembrar das redações que escrevia na escola. "Era melhor, a escrita entre os advogados é um pouco desconfortável e há termos que poderiam ser evitados." Apesar disso, Silvia usou termos jurídicos como "fonte consuetudinária" na prova, para explicar o que é feudalismo.

Líderes. Os campeões foram o engenheiro elétrico Edison Sakamoto e o professor Wilson Ferreira de Andrade, que acertaram 14 questões. Sakamoto só errou ao exilar o escritor português Fernando Pessoa em Goa, na Índia. "Acho que confundi com outro poeta."

Segundo Meller, o conteúdo lembrado pelas pessoas varia de acordo com os conhecimentos que usam em seu trabalho hoje e com a abordagem das disciplinas que tiveram durante o ensino médio - se entendiam o que estava estudavam ou apenas reproduziam o conteúdo. "Só conhecendo o procedimento, sem o conceito, as pessoas não conseguem acompanhar as transformações do mundo, ficam desatualizadas."

Para Silvia Colello, professora da Faculdade de Educação da USP, a super especialização mina aos poucos o conhecimento mais amplo que todos deveriam manter. "É interessante pensar que um professor doutor seria incapaz de entrar como aluno no curso em que é livre-docente", diz.

Segundo Silvia, há um pressuposto entre os educadores de que é preciso saber certas coisas para ser um cidadão, mas, entre elas, há uma série de conhecimentos muito detalhados que não são aproveitados e acabam esquecidos. Ela dá o exemplo de um candidato de Exatas que passou no vestibular e estava feliz por se livrar do "ciclo de reprodução das lesmas". "Não é o ciclo em si, mas a atividade de conhecimento sistemático em diferentes áreas que importa, os valores para além do conteúdo, os raciocínios dedutivos, a iniciação à pesquisa, os olhares críticos."

Meller e Silvia concordam que o ensino tem mudado e vem seguindo esse caminho mais conceitual. O professor do Oswald lembra que os vestibulares têm cobrado questões que exigem interpretação, o conhecimento de várias linguagens e a relação entre elas.

Silvia cita o Enem como exemplo disso, apesar de fazer ressalvas ao exame. "Com certeza houve um avanço nos últimos anos, mas ele ainda é insuficiente para os sonhos educacionais. A prática conteudista ainda está muito arraigada."

Utilidade. A utilidade de alguns assuntos é uma dúvida clássica entre os alunos, especialmente depois de decidirem qual carreira seguir. Em geral, eles esquecem que, para escolher a profissão, tiveram antes de entrar em contato com grandes áreas do conhecimento. Joatan, por exemplo, diz que a escola influenciou sua escolha de carreira, mas até hoje se pergunta por que aprendeu certas coisas de matemática.

O coordenador do Oswald explica que qualquer adulto é solicitado a conhecer minimamente o que acontece no mundo e circular por várias áreas, nem que seja só para uma conversa. "Todos têm direito ao conhecimento e à cultura humana, em todas as suas formas. Matemática também é cultura".

Para quem está deixando o ensino médio agora, a dica para manter conhecimentos na memória é básica: ler muito e se informar. "Quando leio algum assunto que envolva clonagem ou ecologia, sinto que trago conceitos do universo da biologia lá do ensino médio que me ajudam a entendê-lo melhor", diz Silvia. "O que é ensinado de modo significativo fica."

Veja o perfil e as notas dos ex-alunos

Tarsilla Cury, 28

Fez ensino médio no Colégio Leonardo da Vinci e Unesp (Farmácia); desenvolve produtos numa indústria cosmética

Joatan Jamilton, 30

Fez Colégio Salvador Rocco e Anhembi-Morumbi (Design). Designer da Agência de Merchandising do Office Shopping

Paulo Bessara, 27

Fez vestibular mais recentemente que os outros. Acertou 13 questões. Citou até a fórmula do peso, com direito a aceleração da gravidade.

Silvia Regina da Silva, 30

Deixou 3 questões em branco e acertou 8 e meia. "Achei um pouco difícil, mas gostoso de fazer. Estou desatualizada."

Wilson de Andrade, 29

Acertou 14 questões. Em uma sobre feudalismo, citou os tributos que os servos pagavam aos senhores: corveia, talha, mão morta, banalidades.

Edison Sakamoto, 27

No trabalho, usa conceitos de física, química, matemática e português. Acertou 14 itens. "Passei, então?", brincou.

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