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Decência hilariante

É possível atacar as mentiras oficiais sobre o Iraque e ajudar os que se alistaram como voluntários para invadir o Iraque em nome das mentiras a conseguir emprego? É possível eviscerar a Casa Branca pelo desastre no lançamento online do seguro saúde universal e ser convidado para papos informais na Casa Branca, pelo tal que fez o seguro Obamacare? É possível, mas improvável, e Jon Stewart é mais exceção do que regra.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

10 Agosto 2015 | 02h00

Os americanos passaram o último ano se despedindo de programas de comediantes. Stephen Colbert, o menos conhecido deles, encerrou o Colbert Report depois de nove anos em dezembro. David Letterman, mais famoso pelo seu talk show, se despediu, em maio, do programa que criou em 1982. Na quinta-feira passada, foi a vez de Jon Stewart multiplicar os nós na garganta de seus admiradores ao se despedir do Daily Show, um falso telejornal que ele não criou, mas do qual se apropriou por puro mérito.

Perdi a conta do número de vezes que ouvi e li recentemente a expressão, “Como você vai fazer falta, Jon.” Embora me confesse abalada com o vazio criado nas noites de segunda a quinta, a ideia de um comediante-pastor, consciência nacional é inquietante. E pareceu pesar na decisão de Stewart, quando, num anúncio emocionado em fevereiro passado, ele explicou que ia sair do ar porque o público não merece um apresentador inquieto.

A despedida de Stewart, além de provocar sentimentos de orfandade entre seus fãs, provocou o inevitável lamento no exterior. Certamente não temos nada semelhante no Brasil. Não estamos planejando invadir país algum e provocar mais de cem mil mortes, desestabilizar toda uma região, mas há motivos de sobra para desejar figuras populares que exponham, com humor implacável, a pornografia que emana do nosso poder político e econômico.

Aqui, é preciso dar crédito à extraordinária equipe de redatores do Daily Show, cuja provável falta de carisma diante da câmera é fartamente compensada por um intelecto que supera o da maioria de redatores de notícias hoje, nos Estados Unidos. Do programa de Jon Stewart saíram vários talentos entre atores e comediantes, como Steve Carell, John Oliver, que hoje faz a chamada comédia investigativa na HBO, e o mais brilhante de todos, Stephen Colbert. Daqui a um mês, um público bem mais vasto vai conhecer Colbert, quando ele estrear como substituto de David Letterman na TV aberta.

Não é coincidência Colbert ter sido escolhido pela extraordinária cozinha do Daily Show para o momento sem roteiro da noite de despedida. Um Jon Stewart mortificado, combatendo lágrimas ouviu de Colbert que os inúmeros profissionais cujas carreiras se beneficiaram do Daily Show aprenderam com ele por exemplo: como trabalhar com propósito, claridade e respeito. E ouviu que eles se sentiam, não só melhores profissionais, mas melhores seres humanos. Espere aí, ainda estamos falando de comediantes? Sim, e esta é uma diferença entre a despedida do lendário rei da noite Johnny Carson, em 1992, e a partida de Jon Stewart. Johnny Carson se aposentou, David Letterman foi aposentado pela concorrência de jovens ansiosos por agradar, como Jimmy Fallon, Stephen Colbert saiu para encontrar uma audiência maior. Jon Stewart cedeu graciosamente sua vaga a um sul-africano jovem, Trevor Noah, porque sua identidade é mais do que a franquia de um programa noturno.

A comédia é, entre outras coisas, um veículo para expressar indignação. “Se a comédia é igual à tragédia mais tempo, eu preciso de mais tempo,” disse, um furioso Jon Stewart, na noite de 4 de dezembro, quando um júri se recusou a indiciar o policial branco acusado de matar, em Nova York, o negro Eric Garner, suspeito de venda ilegal de cigarros avulsos na rua.

Mas a raiva de Jon Stewart naquela noite e em tantas outras memoráveis não é a raiva de Lula xingando a oposição de nazista, a raiva de Dilma acusando um delator de crime econômico de entreguista ou a primitiva raiva do dependente químico de carros de luxo que xinga um juiz de ‘filho da puta’ no Congresso nacional. É a raiva generosa de quem se importa e cobra de si, do outro, da comunidade e do país.

O mesmo Jon Stewart que se tornou o mais poderoso acusador dos criminosos responsáveis pela aventura no Iraque, ao voltar ao ar, depois do 11 de setembro e 2001, encerrou o programa lembrando que a vista de sua janela, dias antes, eram as torres gêmeas. “A vista agora é da Estátua da Liberdade, ” disse ele.

Tanto Stewart como Colbert representam a ideia de que é possível atuar dentro da engrenagem, no caso, a megacorporação Viacom, dona do Comedy Central e parente da CBS, sem se desfigurar eticamente. A inteligência superior de ambos é indissociável de seu compasso moral. Por isso, a sátira da hora que dominaram, em seus dois programas, era tão contundente. Quem sabe se estamos testemunhando uma nova equação no Brasil. Corrupção mais tempo, propósito, claridade e respeito é igual a?

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