Decisão deve ser breve, aposta d. Damasceno

Para presidente da CNBB, congregações-gerais ajudaram a traçar um perfil ideal do novo papa; italianos estariam costurando aliança

JOSÉ MARIA MAYRINK , JAMIL CHADE , ENVIADOS ESPECIAIS / VATICANO, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2013 | 02h06

Ao celebrar missas ontem, os cardeais não deixaram de pensar no conclave que se inicia amanhã. "Creio que nesta semana já teremos um novo papa", disse o cardeal d. Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida (SP) e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil após rezar na Igreja da Imaculada, no Tiburtino, para pedir que Deus ilumine os eleitores na escolha do sucessor de Bento XVI.

D. Damasceno disse que o Colégio Cardinalício discutiu bastante a situação difícil que a Igreja atravessa e analisou o perfil do papa ideal para os dias atuais. "Pode haver surpresa, pois o Espírito Santo sopra onde quer e cada eleitor vota com discernimento, de acordo com sua consciência", acrescentou o cardeal. As reuniões da congregação-geral, realizadas de segunda-feira a sábado, "foram muito ricas e ajudaram o discernimento".

Os cardeais, segundo d. Damasceno, não falaram de nomes nas reuniões, mas desenharam o perfil do papa que seria o "ideal". A idade pode pesar na avaliação, por poder criar dificuldades para o cumprimento da função. Mas o país de origem do escolhido, disse, não é um fator decisivo. "Não é uma eleição política, mas uma escolha que se faz sob a ótica da fé."

"Os quatro cardeais brasileiros têm condições de serem eleitos", disse ele, excluindo-se da relação - "porque há outros mais idôneos e mais capazes". D. Damasceno disse estar tranquilo quanto à rapidez do processo. "Marquei minha passagem de volta para o dia 22."

Imprensa. Preso pelo juramento de não revelar nomes, d. Damasceno tornou a desmentir que tenha declarado que não votaria em d. Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo. Segundo ele, ao iniciarem o conclave, os cardeais deverão levar em conta a relação de nomes que vem sendo citados na imprensa como os candidatos mais fortes. "Se a imprensa publica, é porque deve ter fundamento", advertiu.

Os cardeais que melhor preencherem o perfil do "papa ideal" deverão aparecer com mais votos já nos primeiros escrutínios, prevê d. Damasceno. Para ele, é difícil dizer quem tem a maioria dos votos, porque ainda não se falou em candidatos.

D. Damasceno disse que se inscreveu para fazer uma intervenção na congregação-geral de hoje de manhã, a última prevista antes do conclave, mas não revelou o tema de que vai tratar, porque está impedido por juramento.

O cardeal brasileiro d. João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos da Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, que reside em Roma, falou duas vezes nas reuniões (mais informações nesta pág.). Ontem, não rezou missa.

Bastidores. O Estado apurou que grupos de cardeais voltaram a se reunir no fim de semana de forma privada para garantir que o conclave seja breve. Os cardeais italianos estariam tentando costurar uma aliança e superar diferenças para apoiar um nome único. Já os demais grupos passaram a debater estratégias para ampliar o apoio a algum outro nome.

A meta de cada ala é garantir que seu candidato tenha apoio suficiente para aparecer já na primeira votação com um número importante de eleitores. Já chamadas de "primárias", as primeiras votações de amanhã definiriam quem continuará no páreo nos próximos dias.

Uma outra questão tratada nas reuniões secretas é o possível cenário em que nenhum dos favoritos receba votos suficientes para chegar aos 77 votos de apoio necessários, dentre os 115 cardeais, para ser eleito papa. Neste caso, a conversa gira em torno de nomes alternativos, que possam superar o impasse.

Seja qual for o nome escolhido, o cardeal de Viena, Christoph Schonborn, também cotado à sucessão, admitiu ontem que a renúncia de Bento XVI foi um "ato de conversão" da Igreja e de uma "profundidade que levaremos anos para entender". O austríaco reconheceu que chegou a chorar ao saber da renúncia e o que ela significava para a Igreja.

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