Decisão esperada da Moody´s

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Sergio Vale*, O Estado de S. Paulo

11 Agosto 2015 | 22h00

Em uma decisão mais do que esperada, a Moody´s rebaixou o Brasil para um nível acima do junk, ou seja, de Baa2 para Baa3, com o atenuante de perspectiva estável. Isso pode significar que antes de perdermos definitivamente o investment grade, a agência pode ainda mudar a perspectiva de estável para negativa.

Na sequência da primeira agência a baixar a nota este ano, a Standard and Poor´s, a próxima deverá ser a Fitch, e teremos as três principais agências de rating no gatilho ano que vem para eventualmente rebaixar o Brasil. A questão agora é se haverá espaço para isso acontecer. A julgar pela visão otimista da Moody´s, a chance ainda é grande disso acontecer.

A expectativa da empresa, por exemplo, é de a dívida bruta chegar a 67% do PIB ano que vem chegando a 70% apenas em 2018, enquanto trabalhamos com números que podem bater nos 70% já no ano que vem. Estima-se também crescimento médio de PIB de 2% em 2017 e 2018, o que parece otimista no cenário básico de continuidade da presidente Dilma.  

A grande dificuldade do cenário é que o risco político ainda deverá crescer sobremaneira nos próximos meses, com as decisões sobre as pedaladas fiscais (TCU) e a impugnação da candidatura petista (TSE) ditando as chances da presidente perder o mandato este ano. Não é o cenário mais provável, por enquanto. Não há coalizão política amplamente formada sobre essa decisão e as chances de uma saída da presidente virar uma batalha jurídica prejudicial ao País apenas coloca mais dificuldade para este cenário.

Além disso, 2016 será certamente um ano conturbado, pois continuará jogando todos os partidos contra o PT por conta da eleição municipal. A divisão política tenderá a manter a presidente emparedada, caso ela não saia. Com isso, o risco de um Congresso ainda arredio e refratário a mudanças relevantes permanecerá. A chance que o ministro Levy tinha para apresentar um caminho novo se foi este ano e a divulgação da pauta conjunta entre Senado e Fazenda apenas prova isso.

É verdade que se a presidente passar pelo risco TCU e TSE, seu mandato fica menos arriscado de ser perdido. Entretanto, entregará para 2016 uma presidente absolutamente sem poder, com a necessidade permanente de uma equipe bem coordenada por trás para tocar o governo. Hoje, o vice-presidente e o ministro da Fazenda fazem esse papel, mas precisará ter o Congresso mais próximo para que a presidente consiga se viabilizar minimamente. 

Não se pode esquecer também que a Operação Lava Jato tem vida própria, com ampliação de escopo cada vez maior, levando ao risco de mais paralisia quando as ações do Ministério Público chegarem à esfera política.

Assim, uma eventual volta à condição de pária no mercado financeiro nem seria tanta novidade. Primeiro, as agendas econômica e política permitem vislumbrar esse cenário. Segundo, o mercado já sinaliza isso ao colocar o risco medido pelo CDS em cerca de 330 pontos, bem acima dos países que estão na mesma nota que o Brasil hoje. Caso isso aconteça, será apenas o resultado final de um caminho tortuoso que o governo segue desde o segundo mandato do presidente Lula. Reconquistar a confiança do mercado internacional demandará tempo e trabalho redobrado de um próximo governo. E, quem sabe, finalmente, os erros recorrentes de política econômica possam ser definitivamente deixados para trás.

* Sergio Vale é economista chefe da MB Associado


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