Decisão inédita em 600 anos foi tomada há meses

Antes de confidenciar a pessoas próximas, como o irmão Georg, Bento XVI mencionou renúncia em entrevista a jornalista em 2010

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2013 | 02h03

Foram precisos 600 anos para que a cristandade assistisse a uma nova renúncia papal. O ato de Bento XVI tem poucos precedentes na história de poder e espiritualidade que envolve o trono de Roma. Apenas um, diz o Vaticano. Foram seis, afirmam algumas fontes, os papas que renunciaram anteriormente. Outras incluem nessa lista casos polêmicos, como de Marcelino (296-304), que preferiu deixar a Sede de Pedro em vez de sacrificar aos deuses pagãos para cumprir a ordem do poderoso imperador romano e perseguidor de cristãos Diocleciano. E assim a conta chega a uma dezena.

Entrar para esse pequeno elenco era uma hipótese alimentada havia meses por Bento XVI de acordo com o relato de seu irmão Georg, também ele padre. Ao Die Welt, ele disse que sabia da decisão. "Fui colocado a par. Meu irmão deseja mais tranquilidade em sua velhice", explicou. O próprio Joseph Ratzinger havia em 2010 aberto o caminho para a renúncia da única forma que parece legítima a um intelectual: refletiu sobre o ato e sobre suas circunstâncias.

Fez por meio das entrevistas ao jornalista Peter Seewald, transformadas no livro Luz do Mundo. Bento XVI, cujo papado enfrentava uma série de crises, afirmava então as condições que ele julgava serem necessárias para que o grande ato se consumasse. Primeiro dizia "quando o perigo é grande, não se pode fugir". "Eis por que este não é seguramente o momento de se demitir. É justamente nesse momento que é necessário resistir e superar a situação difícil."

O papa completava ainda seu pensamento afirmando que só se podia pensar em renúncia em um momento de serenidade, "no caso em que não se consegue mais resistir". E completou: "Quando um papa atinge a clara consciência de não ser mais capaz física e espiritualmente de exercitar as tarefas que lhe são confiadas, então ele tem o direito e, em tais circunstâncias, também o dever de se demitir".

Antes, somente monsenhor Luigi Betazzi, bispo emérito de Ivrea, havia falado publicamente sobre a renúncia do papa. "Ele está muito cansado, basta vê-lo. É um homem habituado aos estudos", disse o religioso em 2012. De um lado, o sofrimento do homem e o cansaço diante das enormes tarefas que a Cúria lhe impunha. Do outro, o estupor e a surpresa dentro da Igreja.

O cardeal Stanislaw Dziwisz, secretário pessoal de João Paulo II até a sua morte, recordou ontem que o papa polonês decidiu continuar em suas funções apesar da saúde cada vez mais frágil. "Wojtyla pensava que da cruz não se desce." Segundo Dziwisz, que é arcebispo de Cracóvia, não se trata aqui de criticar o papa. "Cada um deles tinha um grande carisma e desenvolveu um grande papel para a Igreja e para a humanidade. João Paulo II abriu a Igreja ao mundo, e este papa continuou esse percurso."

Dante. No passado, a renúncia de um papa despertava outros sentimentos. Houve condenação e alívio, dependendo da figura que deixava o Trono do Pedro. O estupor diante do ato de Celestino V fez o poeta Dante Alighieri colocar o papa no círculo infernal reservado aos indolentes e covardes. Embora canonizado em 1313, Celestino V está lá, para sempre eternizado na Comédia, no Canto 3.º do Inferno (e infatti vidi l'ombra di colui/che fece per viltà il gran rifiuto ou na tradução livre: e, de fato, vi a sombra daquele/que fez por indolência tal renúncia). O poeta pagara caro o fato de tomar partido nas lutas políticas de sua terra natal, Florença, e não perdoava aos que desistiam de uma contenda.

Celestino justificou-se escrevendo que era levado à renúncia por "razões legítimas, por humildade e fraqueza do meu corpo e pela maldade do povo". "Com o fim de recuperar com a consolação da vida de antes, a tranquilidade perdida, abandono livremente e espontaneamente o pontificado, renunciando expressamente ao trono, à dignidade, às honras e à honra que ele comporta, dando assim ao Sacro Colégio dos Cardeais a faculdade de escolher e prover, segundo as lei canônicas, um novo pastor à Igreja Universal", escreveu.

Celestino V tinha quase 80 anos quando foi nomeado papa. Nascido em Molise, na Itália, Celestino foi eleito papa em 29 de agosto de 1294. No dia 13 de dezembro daquele ano, deixou o cargo depois de apresentar a renúncia por escrito. A Igreja reconhece oficialmente o caso de Celestino como o único precedente na história de renúncia papal.

Mas, além de Celestino, a história registra outros casos de papas que não terminaram o papado. São caso polêmicos, em que a livre renúncia se confunde com a obrigação imposta por um déspota ou por algum poder antipapal. Foi assim com os papas Clemente I, quarto bispo de Roma, obrigado a deixar a cidade por causa de perseguições ou com o papa Ponciano, que em 235 teve de abdicar em função das perseguições de outro imperador romano. Silvério, em 537, também foi obrigado a deixar o papado. Desta vez quem o obrigou foi o general Belisário, que, em sua campanha de conquista da Itália para o Império Bizantino, acusou o então papa de ajudar secretamente seus inimigos, os godos, que dominavam o país. O último papa que abandonou o trono foi Gregório XII, que deixou o cargo como condição para acabar com o cisma criado pelos antipapa de Avignon. Era 1.415.

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