Decisão sobre Plutão cria racha entre astrônomos

A decisão da União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês) de retirar o status de planeta de Plutão causou descontentamento entre alguns cientistas. O principal cientista da missão robótica da Nasa (agência espacial americana) a Plutão, New Horizons, criticou a decisão, adotada na quinta-feira, qualificando-a de "constrangedora"."É uma decisão horrenda; é ciência mal feita, e jamais vai passar pela avaliação da categoria (de astrônomos) por duas razões", disse ele. "Primeiramente, é impossível e artificial colocar uma linha divisória entre planetas anões e planetas. É como se nós declarássemos que as pessoas não são pessoas por uma razão arbitrária, como ´elas tendem a viver em grupos´"."Em segundo lugar, a definição em si é ainda pior, porque é inconsistente." Um dos três critérios para o status de planeta é que ele precisa ter "limpado as áreas vizinhas em sua órbita". Os maiores objetos no Sistema Solar agregam a matéria em seu caminho, ou acabam por expeli-la. Plutão foi desqualificado porque sua órbita altamente elíptica se sobrepõe à de Netuno - ou seja, nem agregou nem expeliu o outro planeta.Stern destacou que Terra, Marte, Júpiter e Netuno também não "limparam" totalmente as suas zonas orbitais. A Terra tem órbita com 10 mil asteróides próximos. Júpiter, por sua vez, é acompanhado de 100 mil asteróides "troianos" (asteróides que seguem na mesma órbita que um determinado planeta).Estas rochas são essencialmente fragmentos que sobraram após a formação do Sistema Solar, há mais de 4 bilhões de anos. "Se Netuno tivesse ´limpado´ a sua zona, Plutão não estaria lá", acrescentou. Stern disse que astrônomos com posições semelhantes à sua organizaram uma petição para restituir a Plutão sua classificação de planeta.Decalques onde se lê "buzine se Plutão ainda é um planeta" estão sendo vendidos pela internet, e e-mails sobre a decisão que circulam na rede mundial de computadores estão chamando a IAU de "União Astronômica Irrelevante".Owen Gingerich preside a comissão que define planetas da IAU e ajudou a elaborar uma proposta inicial elevando o número de planetas do Sistema Solar de nove para 12.O professor emérito de Harvard atribuiu o resultado em grande parte a uma "revolta" dos dinamicistas - astrônomos que estudam o movimento e os efeitos gravitacionais dos corpos celestes."Em nossa proposta inicial, nós tomamos a definição de um planeta que geólogos planetários queriam. Os dinamicistas se sentiram terrivelmente insultados que não os tivéssemos consultado para saber o que pensavam. De alguma forma, havia um número suficiente deles para criar um grande protesto", disse Gingerich. "A revolta deles criou uma grita suficiente para destruir a integridade científica da resolução (anterior)." "Havia 2,7 mil astrônomos em Praga (onde ocorreu a reunião da IAU) durante o período de dez dias. Aqueles que discordaram e estavam determinados a bloquear a outra resolução apareceram em maior número do que os que acharam ´bem, esta é apenas uma daquelas coisas em que a IAU está trabalhando´".Gingerich, que estava nos Estados Unidos e perdeu a votação, disse que gostaria da introdução, no futuro, de votos eletrônicos.Alan Stern concorda: "Eu não pude votar porque eu não estava no plenário, em Praga, na quinta-feira 24. De 10 mil astrônomos, 4% estavam naquele recinto - não se pode nem alegar consenso.""Se todo mundo tivesse que viajar para Washington DC todas as vezes que se desejasse votar para presidente, nós teríamos resultados muito diferentes porque ninguém iria votar."

Agencia Estado,

25 de agosto de 2006 | 14h35

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