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Dedicação e sorte impulsionam ascensão meteórica

Mais jovem professor titular da Faculdade de Medicina da USP concilia comando do Icesp e da oncologia do Sírio-Libanês

Karina Toledo, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

"Gosto de resolver as coisas rapidamente", diz o oncologista Paulo Hoff, de 42 anos, tentando explicar como conseguiu entrar na faculdade de Medicina aos 16 e, aos 29, tornar-se professor do principal centro de oncologia do mundo.

Agora, essa rapidez será necessária para conciliar o comando do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) com a direção do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, o atendimento clínico nas duas instituições, o trabalho como pesquisador, as aulas na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e as sessões de videogame com as filhas Camila, de 15 anos, Isabela, de 13, e Juliana, de 8.

Também na vida pessoal, Hoff não perde tempo. Logo no início da graduação, conheceu a então estudante Ana Amélia Fialho de Oliveira, com quem se casou aos 23 anos. "Estava no aeroporto e vi aquela mulher bonita lendo um livro de eletrocardiograma do dr. Enéas. Logo pensei: "Vou cantar"."

Namoraram por um tempo, brigaram e se reencontraram na Universidade de Miami, na Flórida, onde cursavam o último ano do curso de Medicina graças a uma bolsa de estudos. "Foi o destino", diz. "Acabei fazendo a residência por lá, primeiro em clínica médica e depois em oncologia." O interesse pela área vinha desde a época do vestibular, quando seu padrinho morreu de câncer. A doença também levou seu avô paterno.

"Conversando com os professores, percebi um enorme campo de pesquisa e a possibilidade de desenvolver novos tratamentos para os pacientes." Em 1992, ano em que o furacão Andrew devastou o sul da Flórida, decidiu que essa seria sua carreira.

Após cinco anos em Miami, seguiu para M. D. Anderson Cancer Center, em Houston, Texas, para fazer a especialização. Ao concluir o curso, foi convidado para ser professor. "Aceitei para ficar um tempinho, mas fui galgando posições", diz. Quando deixou a instituição para aceitar o convite do Hospital Sírio-Libanês, em 2006, já era vice-chefe do Departamento de Oncologia Gastrointestinal.

No lugar certo. A ascensão meteórica pode ser atribuída, em parte, à sorte. Em 1998, ano em que se tornou professor do M. D. Anderson, seu mentor, Richard Pazdur, foi convidado para assumir a área de oncologia do Food and Drug Administration (FDA, agência que controla alimentos e remédios nos EUA). "Com a saída dele, tornei-me a referência para tratamento de câncer de colo e reto. Isso me abriu portas. Participei da aprovação de várias drogas hoje utilizadas no tratamento de câncer", conta.

Com menos de 40 anos, Hoff havia saboreado o "American dream". Ainda assim, decidiu voltar para o Brasil. "Minhas filhas estavam crescendo e sentia que, se não voltasse naquele momento, não voltaria mais."

Além da saudade da família - de origem paranaense, mas que vivia em Brasília desde meados dos anos 1980-, a percepção de que o País havia avançado durante os anos em que esteve fora pesou na decisão. "Em 1990, foi um choque ver a diferença entre o que era feito na Universidade de Brasília e de Miami. Era outro mundo. Hoje, quando saio do Icesp ou do Sírio e vou a uma instituição americana, é muito parecido ", avalia.

Na hora certa. O desejo de seguir carreira acadêmica acompanhou Hoff no seu retorno. A oportunidade de realizá-lo surgiu em 2007, quando o então professor titular de oncologia da FMUSP, Ricardo Brentani, aposentou-se. Mais uma vez, Hoff teve de ser rápido. Assumiu como professor regente e, em cerca de um ano, concluiu o doutorado e a livre-docência. Aos 39 anos, tornou-se o professor titular mais jovem da instituição.

Na mesma época, um paciente ilustre atraiu os holofotes para sua atuação clínica. A amizade com o então vice-presidente José Alencar ficou evidente em diversas trocas públicas de elogios. "Ele parece ser da minha família", disse Alencar à revista Época em 2009, quando Hoff foi eleito um dos cem brasileiros mais influentes do ano. "Assume com o próprio coração o caso do paciente. Vive o seu caso. Não é indiferente", acrescentou.

No tratamento do câncer, explica Hoff, essa proximidade acontece pela frequência das consultas. "E nosso ex-presidente é uma pessoa fantástica, tem uma memória prodigiosa e interesses em comum. Como eu, adora livros de História. A gente tem muita coisa para conversar", diz o médico.

No rol de personalidades que frequentaram o consultório de Hoff no Sírio-Libanês estão a presidente Dilma Rousseff, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta, o ator Raul Cortez e o atual presidente do Paraguai, Fernando Lugo. Certamente há outros, mas a discrição de Hoff não permite revelar. "Pacientes famosos tendem a gostar de sua privacidade", desconversa. "São pessoas acostumadas a ter um controle absoluto da situação e a doença tira um pouco do controle pessoal. O nível de estresse é mais alto com esses pacientes."

No ambiente de trabalho é visto como um chefe exigente e atento aos detalhes - até mesmo àqueles com os quais não precisaria se preocupar. "As pessoas precisam acompanhar sua velocidade", diz um colega. "Gosto das coisas bem feitas, de preferência da primeira vez", admite Hoff.

Apesar da rotina de trabalho puxada - de cerca de 13 horas diárias -, é um pai companheiro e carinhoso, diz Ana Amélia. "Ele chega do trabalho e fica com as meninas. Só depois que elas dormem, por volta de meia-noite, volta a trabalhar no computador." Hoff afirma que dedica menos tempo à família do que gostaria. "Não há dúvida de que elas acabam pagando um preço pelo pai que têm."

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