Defesa de réus ligados a Valério diz desconhecer mensalão

As defesas de quatro réus ligados a Marcos Valério, apontado como principal operador do chamado mensalão, adotaram estratégia comum nesta terça-feira, durante julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), ao rebaterem as acusações de formação de quadrilha e responsabilizarem o publicitário pelas supostas irregularidades.

HUGO BACHEGA, Reuters

07 de agosto de 2012 | 19h57

Os réus tinham ligações com a agência de publicidade SMP&B, que seria usada para o repasse de verbas para a compra de apoio parlamentar, segundo denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Os defensores de Cristiano Paz, ex-sócio de Valério; de Rogério Tolentino, advogado que prestava serviços a Valério; e das funcionárias das agências do publicitário Simone Vasconcelos e Geiza Dias rejeitaram a existência do suposto esquema, defenderam que todos atuavam exclusivamente em suas áreas e que não tinham conhecimento dos acordos que teriam sido feitos por Valério.

O advogado de Paz, Castellar Modesto Guimarães, abriu o segundo dia de apresentação das defesas e disse que o acusado atuava especificamente na área de criação da SMP&B e que só se tornou réu no processo por sua sociedade com Valério.

"Sua atividade específica e única (era) como publicitário e homem de criação", disse Guimarães, que pediu a individualização das denúncias, já que há "ausência incontestável de provas" para condená-lo.

Paz é acusado pelos crimes de formação de quadrilha, corrupção ativa, peculato, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Os advogados das então funcionárias das agências também buscaram minimizar a atuação profissional que tinham dentro do grupo, tentando rejeitar a tese de que conheciam o suposto esquema, afastando a acusação de formação de quadrilha. Todos apontaram a ausência de provas na denúncia.

No caso de Simone, a defesa disse que a acusada trabalhava numa área conhecida como "porão", num andar abaixo do usado pelos sócios, e que, apesar do cargo de diretora financeira, "não tinha cargo de chefia, apenas cumpria ordens".

O advogado Leonardo Yarochewski reconheceu que Simone movimentou altos volumes de recursos, o que afirmou ser normal no ramo publicitário, mas disse que a ré desconhecia o destino dos montantes ou os parlamentares citados como beneficiários do suposto esquema.

"VIROU MODA"

O argumento de que os recursos que estavam sendo manejados seriam caixa dois eleitoral voltou ao plenário, assim como no primeiro dia de argumentação dos acusados, quando Yarochewski citou a prática para creditar os montantes administrados por Simone.

O advogado ainda arrancou risos da plateia que acompanhava a sessão no plenário ao dizer ser "bonito" acusar as pessoas por formação de quadrilha ao citar personagens da novela "Avenida Brasil", da TV Globo.

"Virou moda, até na novela das oito, a Carminha disse que ia processar a Nina por formação de quadrilha", disse.

Ele afirmou que a "acusação severa" da PGR foi baseada em recortes de jornais e disse que "ao contrário da acusação, a defesa traz provas" para pedir a absolvição.

Yarochewski fez várias ironias à acusação feita pelo procurador-geral, Roberto Gurgel, na sexta-feira.

Sobre o uso de carro-forte, disse que "saidinha de banco acontece a toda hora" e falou sobre uma "dupla sertaneja", sem citar o nome, que só recebia em dinheiro vivo para justificar o uso de altos valores em espécie.

Ao final, assim como Gurgel, citou Chico Buarque. O procurador falou da música "Vai Passar" ao fazer a denúncia. A resposta de Yarochewski veio na letra de "Apesar de Você".

"Você que inventou o pecado, esqueceu de inventar o perdão. Apesar de você, amanhã há de ser outro dia", disse.

"MEQUETREFE"

A defesa de Geiza também tentou rebater as acusações da PGR, afirmando se tratar de uma "funcionária subalterna, humilde, trabalhadora". Ela também desconhecia os beneficiados pelo suposto esquema, já que "só cumpria ordens".

"Geiza era uma funcionária mequetrefe, de terceiro ou quarto escalão. Era uma batedeira de cheque", disse o advogado Paulo Abreu e Silva.

Geiza e Simone são acusadas dos crimes de formação de quadrilha, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Abreu e Silva já havia subido à tribuna para defender o advogado Tolentino, quando disse que um auxiliar de Gurgel teve "preguiça mental" der ler os laudos ao apontar para faltas de provas que o incriminassem. Ele também argumentou a existência de caixa dois para rebater a acusação de lavagem de dinheiro.

O suposto mensalão, esquema de desvio de recursos e compra de apoio entre partidos da base aliada no Congresso, veio à tona em 2005 e foi a maior crise política do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na primeira sessão destinada à defesa, na segunda-feira, cinco dos principais réus do processo expuseram uma estratégia de defesa na qual negaram a existência do suposto mensalão e alegaram que os repasses apontados pela PGR caracterizaram caixa dois eleitoral.

Nesta terça-feira, as defesas tiveram um pedido de suspensão da sessão indeferido pela STF.

Os advogados argumentaram contra a ausência da ministra Cármen Lúcia, que não acompanhou a segunda parte das defesas devido a um compromisso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ela se justificou, dizendo que já havia solicitado as fitas da sessão para acompanhar no dia seguinte.

A apresentação das defesas segue até o dia 15, quando deverá começar o voto dos 11 ministros do STF. A defesa do ex-deputado federal Roberto Jefferson, delator do suposto esquema, deverá se apresentar em 13 de agosto.

Não há previsão para o término do julgamento, já que os ministros poderão levar quantas sessões precisarem para a leitura dos votos, mas há expectativa de que o processo poderá ser acelerado para permitir o voto do ministro Cezar Peluso, que se aposenta no início de setembro ao completar 70 anos.

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