Deficientes e empresas ganham com a inclusão

A inserção das pessoas com deficiência no mercado de trabalho está transformando a vida de muitas empresas para melhor

BRUNO GALLO E GUSTAVO MILLER,

16 Junho 2008 | 00h00

Em setembro de 2006, Rafael Macedo da Cunha, de 23 anos, conseguiu o seu primeiro emprego. Ele sofre de artrite reumatóide juvenil, que afeta principalmente sua coluna vertebral e os membros inferiores e o obriga a usar muletas. "Bati na porta de muitas empresas que não me aceitaram por causa da deficiência. Desde que consegui essa oportunidade minha mãe anda super feliz", sorri. Rafael trabalha em casa – onde mora com os pais e a irmã – como atendente de telemarketing da Uranet, empresa de tecnologia na área de call-center. "Agora tenho a minha vida. Sinto que sou útil e estou fazendo a minha parte na sociedade", diz. Rafael diz gostar de trabalhar em casa, entre outros motivos porque seria complicado se locomover todos os dias até o trabalho. Mas sente falta de um convívio maior com os colegas – com quem conversa, às vezes, pelo MSN. A cada 15 dias vai à empresa para fazer um acompanhamento de suas atividades. LEI DE COTAS O sistema de cotas empregatícias para pessoas com deficiência surgiu na Europa no século passado, com o objetivo de empregar soldados feridos na Primeira Guerra Mundial. No Brasil, foi introduzido em 1999, com a regulamentação da chamada Lei de Cotas, de 1991. Segundo a norma, empresas com cem ou mais funcionários são obrigadas a preencher de 2% a 5% do seu quadro com portadores de deficiência. Até 2001 o número de contratados era insignificante. No Estado de São Paulo, apenas 601 deficientes estavam empregados. A partir de 2003 o Ministério do Trabalho começou a autuar empresas que descumprissem a lei. De lá pra cá muita coisa mudou e, em abril deste ano, o número de trabalhadores com deficiência empregados chegou a 82.301 em São Paulo. "Há quatro anos começamos um programa de fiscalização e o resultado já está aparecendo", afirma o médico e auditor fiscal do programa de inclusão da Delegacia Regional do Trabalho de São Paulo (DRT-SP), José Carlos do Carmo. Apenas em 2008 foram cerca de 300 autuações. As multas, que podem ser reiteradas de três em três meses, variam entre R$ 1.254,89 e R$ 188.231,92, de acordo com o tamanho da empresa. REDUZIR AS LIMITAÇÕES Por parte das empresas, o primeiro passo é cumprir a lei. E, por parte do Estado, exigir o cumprimento. Mas não adianta empregar uma pessoa com deficiência sem oferecer condições para que ela trabalhe adequadamente. Isso é prejudicial à empresa, que não pode se dar ao luxo de ter um funcionário que não produza, e ao funcionário, que quer se sentir útil e valorizado. É aí que entra a tecnologia: as empresas precisam investir em equipamentos e softwares (leia mais nas págs. 9 e 10) para reduzir as limitações de seus funcionários, tornando-os aptos a mostrar sua capacidade. Com freqüência são soluções caras, que ficam mais acessíveis quando usadas por um grupo maior de pessoas. Gilmar de Freitas Mariano, de 24 anos, formado em pedagogia e cego desde os 12 anos, trabalha no HSBC desde 2004 e é enfático ao afirmar que "não teria condições de fazer as atividades sem o Jaws (software leitor de tela)". "Realmente mudou minha vida." Campeão de vendas entre todos os operadores de telemarketing do banco em 2005, Mariano trabalha hoje como analista na área de qualidade. "Sempre me senti capaz, e a tecnologia propiciou igualdade de condições." Também é preciso treinar e capacitar. "Os deficientes têm um histórico de exclusão. Muitos não sabem direito português e matemática, então como pedir para eles aprenderem logo informática?", observa a vereadora paulistana Mara Gabrilli, tetraplégica. "As empresas investem na qualificação de olho na longevidade do funcionário", afirma Fernando Ruibal Solla, diretor de negócios da Techaccess, empresa que atua na área de inclusão, acessibilidade e tecnologia. Para elaborar uma política consistente de contratação de pessoas com deficiência, a HP Brasil buscou o apoio do Instituto Paradigma (entidade do terceiro setor que promove a inclusão). "Tratamos a todos de forma igual. Esse não é um programa social nem de doação. Os resultados a serem obtidos (pelos funcionários com deficiência) são iguais aos dos demais funcionários", diz o diretor de RH, Jair Pianucci. Pode parecer uma postura um pouco rígida, mas ela é elogiada pelos funcionários com deficiência. "Queremos ser tratados como todos, não somos coitados", diz Salomão Rodrigues de Lira Jr. (foto), 29 anos, funcionário da HP. Já o HSBC criou um programa de capacitação em parceria com a ONG Unilehu – Universidade Livre para a Eficiência Humana. "Precisávamos cumprir a cota e optamos por esse modelo. Esperamos contratar mais de mil pessoas até 2010", explica o gerente de RH do banco, Luiz Moura. Apesar das dificuldades e da necessidade de investimentos substanciais, os executivos ouvidos pela reportagem foram unânimes em dizer que a inclusão é boa para todos. "A empresa fica mais humana com essa diversidade", afirmou Lairton Correa, gerente de efetivo do RH da Petrobras, que conta com mais de mil deficientes no seu quadro. AINDA FALTA Apesar de todos os avanços, a DRT-SP calcula que hoje ainda haja mais de 100 mil vagas no Estado a serem preenchidas pelas empresas, para que todas passem a cumprir com a cota. Mas o que falta para que mais deficientes sejam contratados? Para a educadora Ana Maria Barbosa, coordenadora da Rede Saci, da USP (Universidade de São Paulo), que atua na divulgação de novas tecnologias, o problema é a desinformação. "As empresas desconhecem muitas vezes tudo o que já está disponível (em termos de tecnologia) e essa desinformação é trágica", lamenta Ana Maria.

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