Deixe o barulho lá fora

Para quem é aficionado por comida, os restaurantes deixam de ser apenas um lugar onde se fazem refeições. Transformam-se em referência, tanto da passagem do tempo, como da localização no espaço. Você é do tipo que guarda uma certa data de sua história porque lembra de um jantar especial? Ou conhece uma determinada rua apenas porque ali é que fica um tal bistrô? Então certamente vai me entender.Revisitar um restaurante pode ser mais do que atender a uma fome específica ou alimentar saudosismos. Vira, ao menos para mim, a possibilidade de aferir os efeitos da passagem do tempo. A casa mudou? A decoração, o cardápio? Ou mudei eu? Ambos? Ou, para dizer aquilo que você já pensou: quem está envelhecendo melhor?A primeira constatação ao retornar ao Dolce Villa é que o lugar continua sendo um refúgio dentro do Itaim-Bibi. Não importa se o trânsito está ruim ou se faz muito calor. Seus jardins, suas paredes rústicas, as mesas de mosaicos, os doces na vitrine logo na entrada, tudo isso nos propõe uma pausa, uma momento de paz consentida. Não é pouca coisa conseguir compor um ambiente como esse, que mantém a mesma atmosfera desde 1996.Mas, e o cardápio? Se antes o tom geral era mais de Itália moderna, percebi algo mais cindido entre o italiano e o contemporâneo. Mudou o menu (ele traz itens novos, com frequência), ou eu é que fiz a leitura de forma diferente? Talvez não importe, e parti logo para o primeiro pedido, capellini al limone (R$ 35,50), enquanto mordiscava o couvert (R$ 9), um kit composto por pães, torradas e copinhos com patê de fígado, manteiga e outras coisas mais. Chegou então a massa, feita na casa, al dente, mas com um molho tão copioso, tão intenso (uma rodela de limão fazia parte da apresentação), que conseguiu ofuscar a qualidade da pasta.Parti então para o stinco de javali (R$ 51), servido com purê de couve-flor. A carne estava tenra, soltando do osso, mas, desta vez, a tal da intensidade, que sobrava no capellini, aqui fazia falta: um sabor tímido, acanhado inclusive de sal. Mas o molho com laranjas (pequenos gomos, como se fosse uma guarnição de feijoada) era o que parecia mais fora do lugar, mais supérfluo. Estaria certo o prato? Mudou o restaurante, mudei eu?Mas as lembranças se reencontraram na sobremesa, cujas sugestões ocupam duas páginas do cardápio - algo notável, considerando que a pâtisserie ainda é o ponto fraco de muitas casas da cidade. Entre clássicos em sua maioria da doçaria francesa e italiana, fiquei com a tarte tatin, preparada ao estilo tradicional: com maçãs macias, mas firmes, sem excesso de açúcar. A bola de sorvete de canela que a acompanha não brilha, mas também não compromete. Eu dispensaria.De resto, predomina uma tranquilidade que é da natureza da casa. Um serviço sem ansiedade, uma liberdade de pedir e propor. Vi um casal, já com certa idade, acompanhando o jantar com suco de laranja, algo que eu não presenciava havia anos. Desde o tempo em que o vinho era menos acessível e menos difundido por aqui. Talvez não ousassem isso num restaurante mais pomposo. Ali, eles sabem que existe uma trégua. DOLCE VILLAR. Pedroso Alvarenga, 554, Itaim-Bibi, 3167-0007 (90 lug.)12h/15h e 19h30/0h (sex. e sáb. até 1h; dom., 12h/16h; fecha seg.)Cartões: A, D e MCardápio: Várias massas, algumas sugestões contemporâneas, muitas sobremesas.Avaliação: Para quem quer um instante de fuga.

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