DEM prepara expulsão do governador

Para dirigentes, explicação de que dinheiro se destinava a panetones para carentes é ''conversa pra boi dormir''

Leandro Colon e Carol Pires, O Estadao de S.Paulo

30 de novembro de 2009 | 00h00

A versão do panetone para famílias carentes não convenceu a cúpula do DEM e seus dirigentes querem o governador José Roberto Arruda fora do partido. A direção do DEM agendou para hoje à tarde um encontro com o governador José Roberto Arruda, quando ele vai tentar justificar as imagens gravadas e os documentos recolhidos pela Operação Caixa de Pandora, com indícios de um esquema de mensalão no governo do Distrito Federal. A investigação indica a coleta e distribuição de propinas pela base aliada, mas Arruda, orientado pelos advogados, quer transformar tudo em um "crime eleitoral". A investigação do mensalão do DEM envolve, além do governador, pelo menos mais quatro secretários e quatro deputados distritais.

Por orientação do advogado de Arruda, José Gerardo Grossi, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral, o secretário de Ordem Pública do DF, Roberto Giffoni, negou no sábado que o vídeo em que o governador aparece recebendo R$ 50 mil do ex-secretário de Relações Institucionais do Distrito Federal Durval Barbosa e guardando o dinheiro numa sacola de papel fosse um flagrante de propina. Seria uma doação, recebida em 2005, para ajudar na compra de brinquedos e panetones destinados a crianças carentes.

"Eu disse a ele (Arruda) que precisamos de provas, fatos, argumentos. Não queremos versões. O partido é realista. O partido se curva aos fatos. Os fatos são devastadores", disse o senador Demostenes Torres (DEM-GO), que conversou ontem com o governador por telefone.

A cúpula do DEM considera "letais" os vídeos divulgados, que foram gravados - sob orientação da Polícia Federal e com autorização do Judiciário - por Durval Barbosa, demitido por Arruda após o escândalo.

Na avaliação da direção da legenda, a manutenção do governador no quadro partidário provoca um "desgaste brutal" e prejudica os planos de recuperação em 2010 do espaço perdido na política nos últimos anos.

SEM ALTERNATIVA

Um dirigente do partido disse ontem ao Estado que "não há alternativa" para o governador que não seja a desfiliação dos quadros do DEM. Numa demonstração de que pretendem se livrar do governador, dirigentes do partido classificaram a explicação sobre os panetones e brinquedos de "conversa pra boi dormir".

Senadores e deputados já sabem que os demais vídeos que integram a investigação da Polícia Federal são igualmente "devastadores" para a imagem do governador e do partido. Arruda será pressionado a deixar a sigla antes que seja aberto processo de expulsão da legenda.

Ontem, o governador pediu ao líder no Senado, José Agripino Maia (RN), que o ajudasse a acalmar os demais integrantes da legenda. Mas a tarefa não será fácil. Candidato à reeleição no Senado, Agripino não se mostrou disposto a bancar a permanência de Arruda. Ele dirá à cúpula do DEM que o vídeo já exibido não tem relação com a investigação da PF.

Os dirigentes do partido, no entanto, explicarão ao governador que não há como avaliar esses elementos de maneira jurídica. É preciso levar em conta, como ressalta um líder partidário, o "mundo político". E, para esse mundo, não há distinção entre o vídeo em que Arruda enche a mão de dinheiro e o coloca num envelope em relação aos áudios nos quais ele discute com Durval Barbosa o pagamento das mesadas aos aliados.

MUDANÇA

Na sexta-feira, o DEM dizia que "confiava totalmente no governador". Na noite de sábado, o partido divulgou nota exigindo "esclarecimentos convincentes" de Arruda, único governador da legenda no País. O conteúdo da nota foi motivo de discordância entre o presidente do partido, deputado Rodrigo Maia (RJ), e Agripino. O primeiro ainda queria dar a chance de Arruda se explicar. Por isso, preferia termos mais brandos, mas prevaleceu a pressão de Agripino e do líder na Câmara, Ronaldo Caiado (GO), defensores de uma posição mais dura contra o governador.

A revelação de um esquema de corrupção no governo do Distrito Federal é um duro golpe no DEM, que depositava na gestão de Arruda sua bandeira de administração nas eleições de 2010. Ontem, no fim do dia, o PPS, partido aliado do DEM e do PSDB, defendeu o rompimento do partido com o governador Arruda e a entrega dos cargos que ocupa na administração do DF.

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