DEMolição

É sabido que, em se tratando dos nossos trópicos, tudo é possível. Até mesmo a tentativa de juntar Deus e o diabo em uma mesma oração. Pois foi o que se viu num dos mais excêntricos atos de cunho religioso-político de nossa curvilínea História: três figuras rezando e agradecendo ao Senhor por ter escolhido um deles como "instrumento de bênção" para a vida deles. A cerimônia continha os elementos da liturgia cristã: contrição, louvação a Deus, solidariedade. O detalhe: tratava-se de uma arapuca. Coisa armada para pegar fiéis da propina. Durval Barbosa, o "abençoado instrumento" de Deus naquela reza, ex-secretário de Relações Institucionais do governo do Distrito Federal (DF), deve ter feito grande esforço para não gargalhar, pois gravava a cena em que dois deputados, um deles presidente da Câmara Legislativa, abraçados a ele, rezavam a Oração da Propina. A prece, dirigida diretamente ao Senhor, ganha o troféu de ouro da hipocrisia nacional pela antinomia de símbolos que encarna: agradecimento à Providência Divina pela existência de um "homem da mala". Nunca a estética da corrupção alcançou grau tão elevado de sofisticação. O espetáculo, digno de Macunaíma, nosso herói sem caráter, marcará a história do caixa 2 não apenas pela abordagem inusitada, mas pelo fato de que terá consequências no pleito de 2010.

Gaudêncio Torquato, O Estadao de S.Paulo

06 Dezembro 2009 | 00h00

Os parlamentares agraciados com pacotes de cédulas não desconfiaram da armadilha e recitaram com fervor a reza, que, tempos depois, surgiu como profecia: "A sentença é o Senhor que determina, o parecer e o despacho é o Senhor que faz acontecer." Se o Senhor fez ou não acontecer, o fato é que o flagrante até parece coisa do diabo. O diabo, no caso, foi o próprio "instrumento" Durval, que deixou os devotos em maus lençóis. A morfologia de nossa cultura explica o fervoroso gesto, a começar pela lembrança de que o santo nome de Deus sempre frequenta os mais comezinhos atos do cotidiano. Inédito, porém, é usá-lo como escudo para abrigar desvios criminosos. Eis a mania da velha malandragem: cobrir o espaço profano, e mazelas, com o manto sagrado, esperando que esse recurso consiga atenuar a gravidade de delitos praticados. Ou seja, o escudo dos Céus serve como pronto-socorro psicológico de hipócritas e oportunistas.

O flagrante que ameaça afastar do cargo o governador do DF, José Roberto Arruda, mostra por inteiro a semântica e a estética do propinoduto. Diálogos entre corruptos e corruptores, agentes com a tarefa de coletar propina, repartição de dinheiro entre figurantes e o gesto hilário de esconder dinheiro no paletó, dentro de cuecas e, pasmem, até em meias. Quem iria imaginar que essas peças do vestuário fossem meio seguro de transporte? A crônica da corrupção flagrada apresenta densa coleção de imagens. Cenas foram vistas por milhões de brasileiros. Como é sabido, mais vale a visão do que a expressão. Maquiavel ensinava: "Os homens em geral julgam antes com os olhos do que com as mãos. Todo mundo vê muito bem o que aparentas por fora, mas poucos percebem o que há por dentro." Ao contrário do que pensa o presidente Lula - "as imagens não falam por si só" -, estamos em plena era da telepolítica. O cidadão reage à imagem do que vê, e não ao argumento dos envolvidos. Pacotes de dinheiro, esconderijos, encontros furtivos, rezas esquisitas compõem a estética que gera emoção.

Esse desfile escatológico deixará em segundo plano o arsenal argumentativo dos flagrados. Justificativas não serão críveis pelo artificialismo da arquitetura expressiva. O folclore político ganha histórias fantasiosas, como essa de que a grana recebida pelo governador se destinou à compra de brinquedos e panetones para crianças carentes. O DEM deverá expulsar Arruda de seus quadros, menos por convicção e mais por conveniência. Mas não conseguirá repor o eixo do discurso: ataque ao mensalão do PT. A sobrevivência política do governador será uma equação de difícil solução no curto prazo. A aliança entre tucanos e democratas será abalada. As paredes do edifício a ser construído por ambos ganharão rachaduras. No jogo de soma zero, o gol contra do time da oposição significa o avanço do time da situação. Alguém pode opor o argumento de que o jogo está zerado: PT, PSDB e DEM, e os partidos que giram a seu redor, exibem - todos - a fatura dos mensalões. Mas há um diferencial: a proximidade. Os últimos eventos prevalecem sobre os anteriores, principalmente quando as imagens são mais fortes. A cada evento aumenta o descrédito na política, o vácuo entre a sociedade e as instituições.

Seguindo a mesma lógica, o tsunami sobre o DEM invade o território do governador José Serra, eventual candidato tucano. Diminui a probabilidade de escolha de um vice democrata na chapa tucana. O ímpeto do tucanato fica amortecido. Sem participar diretamente da chapa, o Democratas poderá sentir-se livre nos Estados para fazer campanha com partidos não coligados. E uma chapa puro-sangue, defendida por uma ala do PSDB, só não seria limitativa se o governador de Minas Gerais, sob intensa pressão, aceitasse ser o vice de Serra. Ante a rejeição da ideia, já tornada pública por Aécio Neves, sobra a perspectiva cada vez mais defendida por um grupo de tucanos: o governador paulista ficaria com o pássaro na mão (a garantia da reeleição em São Paulo), deixando os dois a voar para Aécio (a candidatura presidencial, risco de monta).

Os escândalos políticos sucedem-se em ritmo avassalador, expandindo as especulações. No meio das dúvidas, a única certeza é sobre a extraordinária dimensão que a hagiologia, área de estudos que cobre a obra dos santos, adquire no Brasil, particularmente em tempos de turbulência. Os nossos santos mais populares têm dado expediente dobrado para atender às súplicas, com destaque para São Judas Tadeu, o santo das causas perdidas, e Santo Expedito, a quem seres angustiados recorrem quando se defrontam com questões impossíveis. Pelo andar da carruagem, no campo da política, as graças vão demorar a chegar.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político e de comunicação

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