Depois do Katrina

Casal supera tragédia do furacão e reconstrói lar, respeitando o passado de New Orleans

Joyce Wadler - NYT,

18 de abril de 2011 | 07h00

 

A arquitetura mente. A longa e estreita casa de Karina Gentinetta e seu marido, Andrew James McAlear, no distrito de Lakeview, em New Orleans, parece um típica construção que sobreviveu intacta à passagem do furacão Katrina pela cidade. As janelas altas têm cortinas à moda antiga, e os ornamentos do telhado parecem ter 150 anos. Dentro, uma decoração romântica, e, com frequência, desgastada, conta a história de gerações de proprietários abastados.

 

Mas, na verdade, esta casa tem pouco mais de três anos. Foi construída no terreno onde ficava o antigo lar do casal, destruído pela enchente provocada pelo rompimento do dique que acompanha o Canal da Rua 17, a poucos quarteirões de distância, em 2005.

 

O Katrina teve efeito devastador sobre suas finanças, suas carreiras e seu casamento. McAlear, antes negociante de vinhos e agente imobiliário, viveu um período de bebedeira, um empreiteiro não entregou o trabalho para o qual foi contratado e eles tinham de quitar a hipoteca de uma casa que não existia mais.

 

Mas Karina conseguiu decorar a casa toda, sem contar eletrodomésticos e aparelhos eletrônicos, por US$ 12.477 (R$ 19.800). Encontrou os ornamentos do telhado em lojas de antiguidades, assim como boa parte da mobília. Pouquíssimos dos pertences da família puderam ser salvos após o Katrina: a escrivaninha de teca que suportou a enchente, pintada de cinza claro, parece agora um móvel sueco; uma travessa de prata, irreparavelmente enferrujada e descolorida, jaz no hall de entrada.

 

O interessante é reparar na beleza dos objetos metálicos. O estrago da enchente conferiu à travessa a aparência da idade, do mistério e da história. Mas, se tocarmos a moldura do pesado espelho italiano no quarto de Karina, como ela costuma convidar os visitantes a fazer, descobriremos que é de plástico. "Comprei isto por US$ 16 (R$ 25)numa loja de descontos."

 

Perseverança. Algumas pessoas jamais se recuperam de perdas monumentais. Aos 42 anos, Karina pertence ao grupo dos que perseveram. Ela e o marido, de 45 anos, concordam quanto ao motivo de tamanha força: a atitude pragmática e enérgica que ela herdou da família imigrante. Karina tinha 12 anos quando seu pai, um capitão da marinha mercante argentina, trouxe a mulher e os quatro filhos para os Estados Unidos, onde trabalhou como taxista. Ela planejava se formar em artes até que os pais a aconselharam a procurar outro destino, mais seguro, e, então, se tornou advogada.

 

Ela e McAlear se casaram em 2002 e compraram um chalé de 120m², de 1892, na parte de New Orleans conhecida como Uptown. Em março de 2005, com um filho pequeno e outro a caminho, se mudaram para um chalé maior, com dois andares, em Lakeview, pagando US$ 389 mil (R$ 618 mil). Cinco meses mais tarde, quando o Katrina passou pela cidade, eles deixaram New Orleans. Voltaram ao local algumas semanas mais tarde, mas o interior da casa tinha sido destruído. "Por mais que você se prepare, é uma experiência traumática", diz Karina.

 

Instalados na casa de parentes na cidade de Covington, eles receberam da seguradora US$ 250 mil (R$ 397 mil)pela enchente, mas US$ 200 mil (R$ 318 mil) foram usados para quitar a hipoteca - e perderam US$ 100 mil (R$ 160 mil) para um empreiteiro que não entregou o trabalho.

 

As três horas gastas por dia no transporte até o trabalho fizeram Karina buscar refúgio nas revistas de decoração, sonhando com a casa própria. Nesse período, começou a restaurar móveis antigos. "Quando nos mudamos, já sabia exatamente onde ficaria cada peça da mobília."

 

Com uma concessão estadual de US$ 100 mil e um empréstimo de US$ 240 mil (R$ 380 mil), ela e o marido puderam reconstruir o lar. Por segurança, o terreno foi elevado em 1,2 m. A casa, com dois banheiros, três pequenos quartos, escritório, cozinha ampla e sala de estar, custou US$ 356 mil (R$ 567 mil).

 

No início de 2010, Karina deixou a carreira de advogada e abriu a loja Disegno Karina Gentinetta, de mobília antiga. No seu próprio lar percebe-se o ocasional lapso de gastança, como a escrivaninha florentina de US$ 700 (R$ 1.113) no quarto e a bela cadeira que a acompanha, comprada por US$ 350 (R$ 556)pela internet. Em contraponto, há peças como o par de poltronas de US$ 5 (R$ 8) cada na sala de estar, cobertas com linho belga. O tapete desfiado na sala de estar estava à venda por US$ 85 (R$ 135) no site Craigslist, e ela comprou o desbotado tapete que fica acima deste por US$ 15 (R$ 24).

 

"Todas essas peças têm a aparência de objetos que possuem história", diz Karina. "Sou uma dessas pessoas que agiam com excessivo perfeccionismo, e o Katrina me ajudou a entender que não há problema quando não atingimos a perfeição." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.