Depressão é principal motivo para paciente com HIV deixar tratamento

Estudo feito pelo Instituto de Infectologia Emílio Ribas com 201 soropositivos que interromperam a terapia mostrou que 53% falharam na adesão por estarem deprimidos

Mariana Lenharo, de O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2012 | 03h06

SÃO PAULO - A depressão é o principal motivo que leva pacientes com HIV a abandonar o tratamento. Um estudo feito pelo Instituto de Infectologia Emílio Ribas com 201 soropositivos que interromperam a terapia mostrou que 53% falharam na adesão por estarem deprimidos. A falta de tempo para comparecer às consultas e o medo de perder o emprego também apareceram como fatores importantes: 38% alegaram esses motivos para cessar o acompanhamento médico.

O levantamento envolveu pacientes que abandonaram as consultas por pelo menos seis meses sem justificativas. Com base nas conclusões do estudo, o Emílio Ribas criou um grupo de adesão semanal. Batizado de Tá Difícil de Engolir? - em referência à quantidade de pílulas que alguns dos pacientes têm de tomar diariamente -, o projeto funciona como uma terapia em grupo, na qual cada um relata suas próprias dificuldades em relação ao tratamento.

O grupo é acompanhado por uma equipe multidisciplinar composta por assistentes sociais e psicólogos. "O objetivo é que o paciente fale sobre sua situação para, desta maneira, um estimular o outro. À medida que surge alguma dúvida, a gente interfere para explicar", diz o assistente social Claudemir Leite de Almeida.

Ele observa que é bastante comum que o paciente com doença crônica, como o HIV, em determinado momento, interrompa a terapia. O grupo de adesão, segundo ele, é apenas uma das estratégias para estimular o paciente, que também deve receber recomendações nas consultas de rotina e nos grupos de acolhimento.

Além da depressão e da falta de tempo para comparecer às consultas, outros motivos que também contribuem de forma importante para a falta de adesão são os efeitos colaterais do tratamento, o estigma da doença e a falta de autoestima.

Nas palavras de um paciente que compareceu ao grupo anteontem - e preferiu não ser identificado -, "tomar o remédio não é só um ato físico, mas principalmente um ato interno: para tomar o remédio, a pessoa tem de querer o melhor para si, tem de se gostar e estar disposta a lutar". A falta de amor próprio, alavancada pelo peso do estigma da doença, foi o que o levou a interromper a medicação durante um período de sua vida (mais informações nesta página).

O aspecto simbólico vinculado às pílulas também está associado à dificuldade de aderir ao tratamento. Almeida observa que o remédio é a parte concreta que lembra o paciente de que ele tem um problema de saúde. "Os medicamentos têm essa carga psicológica. Fazem a pessoa entrar em contato com a doença todo dia."

SuscetibilidadeO médico Augusto Penalva, coordenador do Serviço de Neuropsiquiatria do Instituto Emílio Ribas, explica que os pacientes com HIV estão mais suscetíveis aos transtornos neuropsiquiátricos, que incluem depressão, ansiedade e problemas cognitivos. Essa suscetibilidade ocorre por duas razões: tanto pelos aspectos psicossociais associados à doença quanto pelos fatores orgânicos.

A própria doença viral ataca o sistema nervoso central, levando à ocorrência de algumas dessas enfermidades. São os chamados transtornos neurocognitivos associados ao HIV (Hand, na sigla em inglês).

A reação do organismo à interrupção do medicamento é muito variável, conforme Penalva. Ele observa que isso pode variar de acordo com a forma como se deu o tratamento inicial: soropositivos que começam a se tratar precocemente, quando interrompem a medicação, tendem a demorar mais tempo para sentir os efeitos negativos. Já os que começaram a se tratar quando a doença já estava avançada tendem a reagir à interrupção com uma rápida queda de imunidade.

Para Penalva, o levantamento mostra que o tratamento da aids é mais complexo que apenas colocar a medicação à disposição. "É preciso abordar o paciente de maneira mais profunda", diz o coordenador.

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