Dérbi bom é no Pacaembu

Se você que acaba de bater os olhos nesta coluna é under 40, como fica chique referir-se hoje à turma nova, talvez discorde do que vou afirmar. Mas, se lembrar do Concurso de Resistência Orniex e do Circo do Arrelia - portanto, já dobrou a curva dos 50 anos -, provavelmente concordará. Com o quê? Que Corinthians x Palmeiras é diferente. E mais charmoso quando marca ponto no "Paulo Machado de Carvalho", o Pacaembu velho de guerra.

Antero Greco, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2010 | 00h00

O dérbi paulistano teve muitos palcos em nove décadas, recentemente frequentou o interior como se fosse ali na esquina e se serviu do Morumbi em momentos memoráveis. Mas, desde que o estádio municipal foi construído, quase 70 anos atrás, não há lugar mais adequado para receber alvinegros e alviverdes. Os dois times têm cara de povo, os dois ficam à vontade no Pacaembu. A casa é de ambos, embora o Corinthians tenha recorrido a ela com mais constância, na falta de teto definitivo. Que bem podia ser a Fazendinha, revista, ampliada e arejada.

Ainda no tempo em que a gente enchia álbum de figurinha com cola de água e farinha, os duelos mais aguardados entre esses irmãos que não se entendem era no Pacaembu. Ninguém seria doido de propor que fossem para Presidente Prudente, só para ficar em escolha recente. Não porque não houvesse palmeirenses e corintianos nessa cidade. Apenas não fazia sentido tirar os atores de seu espaço cênico preferido.

Ultimamente vieram com a conversa de que era melhor afastar o combate da capital por segurança. Papo pra inglês ver. Com o jogo longe de São Paulo a tevê, por exemplo, fica liberada para mostrar ao vivo, com audiência garantida e patrocinadores satisfeitos. Também se estendem tapete vermelho e regalias para que ilustres visitantes se apresentem em campos que são elefantes brancos.

Perdi a conta dos dérbis que vi no Pacaembu. Uma das primeiras calças rancheiras - ops, jeans - que usei encolheu por causa do aguaceiro em que se afogou no caminho do Pacaembu para o Bom Retiro, depois de um Palestra x Corinthians, em meados dos anos 60. O placar? Não lembro. Mas lembro que fui sozinho, fiquei no meio da torcida rival, gritei gol do meu time e o máximo de recriminação que ouvi foi: "Garoto folgado!"

Brigas havia, claro. Em geral provocadas por bebuns ou por alguém que mexeu com a mulher de outro. Também pudera! Era uma temeridade o cidadão levar namorada, esposa, irmã, filha num local eminentemente machista. Ora, onde já se viu! O tempo fechava, mas logo abria com a turma do deixa-disso ou com a intervenção da Força Pública. Os mais esquentados iam para o chiqueirinho que havia embaixo das arquibancadas e perdiam o resto do jogo. Era o maior castigo que recebiam. E que castigo, pois Corinthians x Palmeiras só tinha dois por ano.

Como esquecer que o Corinthians ganhou o título do Quarto Centenário em cima do Palmeiras? Como deixar pra lá o fato de que a última volta olímpica dos palestrinos como campeões brasileiros foi em 1994 no "Paulo Machado de Carvalho", às custas do choro corintiano? No primeiro episódio, eu ainda tomava mamadeira. O segundo assisti no local como profissional.

Se você for ao Pacaembu, em dia de Palmeiras x Corinthians, fechar os olhos e deixar a imaginação livre, é capaz de ver Oberdã e Gilmar em defesas lindas, ou de ouvir Claudio, Luisinho, Julinho em arrancadas pelas pontas. Quem sabe Djalma Santos cobrando lateral para Ademir lançar Vavá? Ou Rivellino dando um drible em Dudu. Um gol de Teleco, do doutor Sócrates? No banco, mestre Osvaldo Brandão, ídolo nos dois Parques...

Essas imagens só existem no Pacaembu de nossa memória afetiva. Pena que Ronaldo vá perder uma experiência única. Mas Roberto Carlos estará lá.

Bom domingo a todos.

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