Dermatologia vive crise de identidade com a estética

Atraídos pelo ramo mais lucrativo da beleza, médicos deixam de dar atenção e 'perdem a mão' no tratamento de doenças da pele

MARIANA LENHARO, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2012 | 02h05

As bolinhas vermelhas que apareceram no corpo da designer Patricia Panza, de 22 anos, foram identificadas primeiro como catapora. Depois, como alergia. Mais tarde, quando veio o diagnóstico correto - de psoríase -, o périplo da paciente por consultórios de dermatologistas estava só começando. Ao longo dos oito anos em que convive com a doença, já encontrou desde médicos que mostraram desconhecimento sobre o assunto até especialistas que indicaram para seu caso carboxiterapia e bronzeamento artificial, técnicas comumente associadas a tratamentos de beleza.

Assim como ela, muitos pacientes com doenças de pele têm a impressão de que os dermatologistas, ao focarem suas práticas em procedimentos estéticos, estão cada vez mais se afastando do contato com doenças de verdade. A percepção é comum também entre os próprios profissionais, que creditam a tendência a problemas na formação do dermatologista e aos valores baixos pagos por convênios, o que leva os especialistas a optarem pelo ramo mais lucrativo da especialidade: a cosmiatria.

A dermatologista Marcia Ramos e Silva, chefe do Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conta que tem pacientes que, ao final da consulta, dizem estar felizes por finalmente terem encontrado um dermatologista "que entende de doença" e não apenas de beleza.

"A gente lamenta isso porque conhecer dermatologia clínica é imprescindível para fazer uma boa cosmiatria. Como alguém vai saber se pode ou não fazer determinado método cosmético sem conhecer anatomia, fisiopatologia e imunologia da pele?", questiona a médica.

O professor da disciplina de Dermatologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Silvio Alencar Marques, tem a mesma percepção. "Não são raros os médicos residentes de muita competência que, aos poucos, vão se envolvendo com uma prática dermatológica que os afasta da dermatologia tradicional e 'perdendo a mão' para diagnosticar e tratar doenças reais."

"Também é comum ter pacientes que vão ao médico com uma queixa específica, ele dá uma pomadinha e já diz que o paciente tem de fazer laser ou outro procedimento estético", diz Marcia.

A situação já foi experimentada por Patrícia Panza. Uma vez, ela viu uma dermatologista em um programa de televisão que dizia ter tratamentos inovadores para psoríase e vitiligo. "Fui ao consultório em Alphaville. Ela indicou carboxiterapia, usado em estrias e celulite. Cheguei a gastar R$1,5 mil por mês porque ela dizia que o tratamento só daria resultado depois de seis meses."

A mesma médica indicou que ela fizesse bronzeamento artificial e sugeriu que ficasse um período em um spa de tratamento de pele no Guarujá, do qual ela era proprietária. As recomendações foram seguidas por Patrícia. Cada procedimento era pago à parte e, ao final do período, nenhum resultado foi notado.

"É por essas e outras que fiquei um tanto desesperançosa com os dermatologistas", lamenta Patricia.

Invenção. O conceito de "dermatologista estético" formalmente não deveria existir, de acordo com o médico Carlos D'Apparecida Santos Machado Filho, titular da disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), já que faz parte da formação do profissional o conjunto de habilidades em clínica, cirurgia e cosmiatria.

"A própria população criou esse conceito", diz. Ele recebe pacientes que, apesar de frequentarem uma 'dermatologista estética', recorrem a outro profissional quando têm algum problema de verdade. "Eles dizem: 'Vou a uma clínica super chique, não vou mostrar essa unha encravada horrível'."

Machado Filho observa que, se no passado a formação do dermatologista exigia, além dos seis anos de graduação, dois anos de clínica médica e mais dois de dermatologia, hoje o médico sai da graduação e entra direto no programa de dermatologia, com duração de três anos. "Isso gera distorções. Em escolas menores, onde o curso não é consolidado, tem aluna que já no primeiro ano da faculdade resolve que quer fazer dermatologia porque gosta de estética. Ela não se dedica, tem formação pouco sólida e ainda cai direto no programa de dermatologia", diz.

Para o médico Paulo Eduardo Velho, coordenador da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o desafio dos formadores em dermatologia é escolher alunos que não tenham definida a intenção de focar sua prática apenas na medicina estética.

Ele acrescenta que existe um conceito equivocado de que a dermatologia seria uma especialidade fácil, de pouca demanda científica e menor compromisso com a saúde dos pacientes.

"Tem crescido a impressão de que ser dermatologista é ser um profissional que cuida da beleza. A dermatologia não é só isso; é fazer medicina através da pele. Inclui não só as doenças da pele, mas também as doenças sistêmicas que têm manifestações cutâneas", diz.

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