Descoberta do pré-sal elevou prioridade da exploração oceânica

Questões econômicas e geopolíticas ligadas aos recursos marinhos deram 'outra dimensão' ao mar, dizem cientistas

O Estado de S.Paulo

27 Maio 2012 | 03h06

A aquisição do Alpha Crucis e a construção do Alpha Delphini simbolizam uma mudança de paradigma não só para a oceanografia brasileira, mas na maneira como o País olha para o mar de uma maneira geral. Um fenômeno motivado em grande parte nos últimos anos pela descoberta das reservas de petróleo e gás do pré-sal, em águas extremamente profundas e distantes da costa.

"Desde que descobriram o pré-sal, o mar ganhou outra dimensão", diz o pesquisador Frederico Brandini, do IO-USP. "Foi um catalisador, sem dúvida."

Segundo o diretor do instituto, Michel Mahiques, a mudança começou ainda antes, com a propagação do conceito da Amazônia Azul - um slogan criado pela Marinha para valorizar as riquezas biológicas e minerais do mar brasileiro. "Temos de pensar nas questões geopolíticas também. Quem tem mais conhecimento leva vantagem."

Por enquanto, afirma Mahiques, a maior parte do conhecimento científico sobre o Atlântico Sul é produzido por estrangeiros, apesar de o Brasil ser a maior potência econômica e ter o maior território marítimo dessa região. "Ou a gente se lança ao mar e começa a fazer ciência ou vamos ficar a reboque dos outros para sempre", argumenta.

O território marítimo brasileiro é de 3,5 milhões de km², estendendo-se até o limite padrão de 200 milhas náuticas (370 km) da costa, que forma a chamada Zona Econômica Exclusiva (ZEE). Várias reservas do pré-sal estão bem no limite dessa faixa.

Limites. Desde 2007, porém, o Brasil tem aprovação provisória da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar para acrescentar quase 1 milhão de km² a essa área, tomando como base os limites da plataforma continental - as bordas submersas do continente, que em vários pontos se prolongam para além da ZEE. Com isso, o território oceânico do País crescerá para 4,5 milhões de km², até um limite de 650 km da costa. Muito além do alcance do Professor W. Besnard ou qualquer outra embarcação de pesquisa civil até agora.

Com o Alpha Crucis, dizem os cientistas, será possível estudar essas regiões mais distantes e profundas do território brasileiro sem depender de embarcações militares ou estrangeiras.

"É muito importante ter essa independência", disse ao Estado o cientista chileno Sergio Navarrete, da Pontifícia Universidad Católica de Chile, um dos palestrantes da Conferência USP sobre o Mar, realizada há duas semanas. No Chile, segundo ele, não há navio oceanográfico, e os cientistas dependem de parcerias com estrangeiros. "Com esse navio, o Brasil poderá determinar suas próprias prioridades de pesquisa." A conferência na USP teve mais de mil inscritos - sinal do interesse cada vez mais profundo do País pelo mar. / H.E.

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