Descompostura em Compostela

Furtado há um ano, o Código Calixtino, relíquia do século 12, reaparece em um caso com ares de crime passional

Ivan Marsiglia,

22 de julho de 2012 | 06h23

O mistério da fé não é o único que existe em um dos maiores centros de peregrinação cristã da Europa. Nos últimos tempos em Santiago de Compostela, a palavra de Deus, tão exaltada na fervorosa capital da Galícia, encontrou concorrência no falatório popular sobre o mal explicado desfecho de um crime que deixou pesarosos católicos do mundo inteiro: o roubo do Código Calixtino.

Principal relíquia religiosa da Catedral de Santiago de Compostela, o pergaminho costurado em forma de livro, datado do século 12, sumiu como por feitiço em julho de 2011 da sala forte do templo, onde se encontrava. As chaves estavam na fechadura e não havia câmera de segurança apontada para a obra. Quando a polícia foi chamada, com atraso, os responsáveis pela manutenção da relíquia não sabiam sequer precisar a data em que se dera o desaparecimento, se no dia 4 ou 7 daquele mês. Sinal, para muitos, de que uma das mais importantes peças do patrimônio histórico e cultural espanhol se encontrava, por assim dizer, ao deus-dará.

Causou ainda mais estranheza o silêncio obsequioso do deão (autoridade religiosa logo abaixo do bispo) da catedral, José María Díaz. Compungido, recusou-se a dar informações sobre a segurança da sala onde o livro estava ou sobre os poucos que tinham acesso a ele. Murmurou algo sobre "atentado" e "vingança", mas não quis dar nome ao santo. "Se suspeito, não digo. Porque é pecado fazer juízos temerários", declarou, com solenidade eclesiástica.

Escrito por monges entre 1135 e 1140, supostamente sob encomenda de Guido de Vienne, o papa Calixto II (1060-1124), o Código mede 30 cm por 21 cm e é composto por cinco volumes e dois apêndices, encadernados em um único tomo. Narra os feitos do apóstolo Santiago Maior e traz reflexões, cantorias (algumas das primeiras partituras medievais estão ali) e iluminuras (pequenas pinturas usadas como ilustração ou nas letras iniciais de capítulos). É célebre por conter uma espécie de guia para o "caminho de Santiago" - aquele mesmo, que pavimentaria, séculos depois, o sucesso do escritor brasileiro Paulo Coelho.

"A última parte, que vai da folha 192 à 213, Iter pro Peregrinus a Compostellum, é um itinerário com descrições de rotas e possíveis alojamentos da época para os que já percorriam os 800 km do caminho, que vai dos Pirineus à catedral", diz o teólogo Fernando Altemeyer Junior, professor do Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP.

Até as pedras da catedral sabiam que apenas alguém que desfrutasse da intimidade do clero de Compostela poderia movimentar-se em seus intrincados corredores para exercitar sua mão de gato livremente. "O que mais chamou a atenção dos investigadores foi a falta de colaboração dos religiosos, que atuavam todos como se fossem culpados", conta ao Aliás o jornalista José Precedo Nouche, que cobriu o caso para o jornal espanhol El País.

Ao longo de 12 meses, a polícia espanhola peregrinou por todas as hipóteses possíveis, batendo até à porta do mercado negro europeu de relíquias medievais. É impossível estimar quanto um colecionador fanático pagaria para folhear - só ele e Deus - o sacro documento. Mas levando em conta que apenas o seguro cobrado em 1990 para o transporte e exposição do Código Calixtino numa mostra de arte religiosa em Burgos, a 244 km de Madri, bateu em 1 bilhão de pesetas (algo como 6 milhões, hoje), tal cifra vai às alturas.

A revelação do mistério, no entanto, seria bem mais mundana. A joia rara da arte medieval do século 12 foi encontrada no dia 4 deste mês dentro de um saco plástico preto, na garagem do ex-eletricista da catedral José Manuel Fernández Castiñeiras, que foi preso com a mulher, o filho e uma nora. Na casa, também foi descoberta a espantosa soma de 1,6 milhão, surrupiada da catedral ao longo dos 25 anos em que Fernández iluminou a fé de Compostela - sem que aparentemente ninguém se desse conta de seu pecado continuado.

O eletricista fora demitido em 2011 apesar da longa dedicação e da conhecida amizade com o deão José María Díaz. Rumores de que haveria, digamos, certa eletricidade na relação dos dois não foram comprovados. "O que se sabe é que eles se davam muito bem e depois passaram a se odiar. Não posso afirmar que tenham tido um caso, mas havia confiança suficiente entre eles para que o ladrão pudesse manejar livremente as chaves", relata o repórter Precedo.

Diante da repercussão do caso, o próprio primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, abalou-se até Santiago de Compostela para a cerimônia de devolução do santo livro, no dia 8 de julho, um domingo. Embora a polícia ainda não saiba da missa o terço, pelo menos por enquanto fiéis e a Igreja podem respirar aliviados.

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