Desconfortos de um ficcionista crítico

Diário dos Moedeiros Falsos atesta o esforço do romancista para superar hesitações na hora de escrever sua principal obra

, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Depois de muito esforço para começar a escrever Os Moedeiros Falsos, o romancista anotaria no dia 7 de dezembro de 1921 nos cadernos que compõem o Diário (trad. Mário Laranjeira, 144 págs., R$ 31) da obra: "Sem quase nenhuma dificuldade, escrevi as 30 primeiras páginas do meu livro." E acrescenta: "Mas é verdade que eu já tinha tudo pronto na cabeça havia muito tempo.[GRIFO DE AG] Agora aqui estou, parado. Ao debruçar-me sobre o trabalho, parece-me que errei o caminho." Exulta-se com as 30 páginas, escritas currente calamo. Relê o manuscrito. A pressa em escrever o tinha desviado do caminho. O que fora planejado pela imaginação não encontra correspondente na escrita. Fracasso?[/GRIFO DE AG][GRIFO DE AG]

O carma de Gide foi a condição de crítico-escritor. Para compreendê-la, nada melhor que a leitura amorosa do citado diário. Nele se observam o predomínio do trabalho de arte sobre a inspiração, o constante desconforto diante da tarefa de escrever, as hesitações e as suspeitas de fracasso, finas observações sobre a carpintaria literária, anotações de leitura, a relação estreita entre o vivido e o a ser escrito, etc. Independente do valor intrínseco e relativo do diário, ali está um fascinante manual para o jovem escritor, só agora traduzido e publicado no Brasil.

Parodiando Ezra Pound, eu diria que Os Moedeiros Falsos atrai, em primeiro lugar, os próprios escritores. O resumo da trama virou lugar-comum na crítica literária. O romancista André Gide leva a bom termo o romance que deveria ter sido escrito pelo seu protagonista, Edouard. A ironia está em que o romance inacabado de Edouard é apenas parte do romance acabado de Gide. Exitoso, Gide tripudia sobre o fracasso do protagonista-escritor para dramatizar os percalços e frustrações do romancista moderno.

Do ponto de vista retórico, a estrutura de Os Moedeiros Falsos se inspira na composição de brasões. A peça de nobreza pode trazer no seu interior, em miniatura, en abyme, o desenho global. O todo se confunde com a parte. A parte se confunde com o todo. Uma reflete a outra, num jogo de espelhos. Daí que os efeitos de profundidade sejam superficiais, proporcionados por jogos de diferença. Nascem dos reflexos de uma narrativa sobre semelhante, de um personagem sobre parecido, de um ponto de vista sobre similar. Claude-Edmonde Magny escreveu que Gide "desejou entre outras coisas escrever um romance dançante, saltitante, em suma, um romance-lúdico".

Esse Gide se encontra em tamanho menor e de modo não menos genial em Os Porões do Vaticano, sua obra mais atual. Gide esquece o leitor e a si para escrever um texto bizarro, engraçado e demolidor. Precursor do personagem Tom Ripley, de Patrícia Highsmith, o destemido Lafcadio convive no romance com três cunhados, Anthime, Julius e Amédée. Representam, respectivamente, três vertentes bisonhas do catolicismo: o maçom arrependido, o grande escritor católico e o papa-hóstia. Sem motivo aparente, o assassinato de Amédée, o carola, por Lafcadio é considerado um "ato gratuito" e traduz, em escândalo e resumo, os grandes temas de Gide: a liberdade individual, a pedagogia e a moral transgressoras e o desprezo pelos valores da família burguesa. Não por acaso, seu personagem por excelência é o bastardo, o jovem Bernard de Os Moedeiros Falsos.

Silviano Santiago é escritor e crítico literário. Doutorou-se pela Sorbonne com tese sobre André Gide. Seu último romance, Heranças (Rocco), recebeu o prêmio de ficção concedido este ano pela Academia Brasileira de Letras

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