Desconstrução

Casa dos Buarques de Hollanda em São Paulo deteriora-se enquanto aguarda um destino cultural prometido há 19 anos

Ivan Marsiglia, O Estado de S. Paulo

29 de janeiro de 2011 | 16h00

Na terça-feira, 25, aniversário da cidade e de nascimento da matriarca Maria Amélia Buarque de Hollanda, operários da Prefeitura de São Paulo subiram a construção pela rampa e ergueram no patamar quatro paredes sólidas. Tijolo por tijolo, o portão principal foi lacrado no dia seguinte. A casa, onde muito se escreveu, dançou e gargalhou nos anos 60 e 70, além de inabitada, ficou inacessível até mesmo para manutenção interna. E o cartaz do grupo de estudantes que a "ocupava culturalmente" desde o início de janeiro agonizou no meio do passeio público.

O casarão em estilo chalé normando, erguido em 1929 no número 35 da Rua Buri, bairro do Pacaembu, zona oeste da capital, serviu de residência ao historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982). Ele adquiriu o imóvel de 600 metros quadrados em 1957, pagando-o com seu ordenado de professor da Universidade de São Paulo, em suaves prestações. Lá produziu boa parte de sua obra e viveu com a mulher Memélia e os sete filhos, entre eles o compositor Chico Buarque e a atual ministra da Cultura, Ana de Hollanda (o patriarca aboliu um dos dois "eles" originais do sobrenome).

Desapropriado pelo município e declarado de utilidade pública em 2002, o casarão foi alvo de uma esganiçada disputa judicial que se estendeu até fevereiro de 2010, quando Emérita Aparecida Carbone, ex-babá de um dos filhos do historiador, perdeu o processo por usucapião que movia na Justiça paulista e foi obrigada a sair. De lá para cá, porém, permaneceu fechado e habitado exclusivamente por baratas e pelos cupins que corroem sua estrutura, até a chegada de um inusitado grupo de "moradores".

Exatamente à meia-noite do dia 1° de janeiro, um grupo de estudantes escalou o portão de entrada e invadiu a casa pelos fundos. Zanzaram nus pelo jardim, cada qual com um livro debaixo do braço - entre eles, o clássico Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque. Era o começo de uma "intervenção urbana" que duraria quase um mês, entre idas e vindas à delegacia.

"Nossa intenção foi tomar posse simbolicamente de um espaço que pertence à população", explica Caio Castor, de 27 anos, recém-formado em economia pela PUC-SP. Ele é membro do grupo Comboio Universo Cidade (http://comboiolivre.wordpress.com), que defende em seu manifesto a criação de uma "universidade livre, autogestionada, não hierárquica, não burocrática e autônoma". Anteriormente, o grupo participou de ações como a que, em outubro, ofereceu oficinas culturais aos sem-teto que reocuparam o edifício Prestes Maia, no centro da cidade.

No dia 3, uma vizinha alarmada chamou a polícia e, num instante, 6 viaturas com 15 PMs baixaram no local. "Explicamos que aquilo era uma ação política e pacífica", conta Luisa Doria, de 23 anos, estudante de artes plásticas da Faap. O grupo teve que assinar um termo circunstanciado, espécie de BO para crimes de menor importância, no 5º DP da Aclimação. Mas como não havia proprietário para prestar queixa, os jovens acabaram liberados. E, após um compreensível intervalo para mobilizar colegas que chegavam de férias, voltaram ao local.

Puseram, então, mãos à obra dos Buarques de Hollanda: retiraram o entulho, varreram os cômodos, capinaram o jardim. Escancararam, então, o portão da rua e convidaram vizinhos e transeuntes a conhecer a biblioteca montada no local, com 80 volumes trazidos de casa. Inauguraram também uma videoteca, que exibiu documentários como A Revolução não Será Televisionada, dos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain, sobre a tentativa de golpe contra o presidente venezuelano Hugo Chávez, e Encontro com Mílton Santos, de Silvio Tendler, tributo ao célebre geógrafo brasileiro. Isso até o dia 25, quando os funcionários da Administração Regional da Sé acabaram com a festa e emparedaram o "centro cultural".

Cachaça de graça. Para quem a conheceu nos bons tempos, no entanto, a velha casa da Rua Buri viveu dias ainda mais movimentados. Intelectual prolífico e leitor compulsivo, Sérgio Buarque de Holanda permitia-se com frequência descer o lance de escadas que separava sua biblioteca no andar superior da sala para participar dos saraus organizados por Maria Amélia e os filhos. Por eles passaram de acadêmicos como Caio Prado Jr., Gilberto Freyre e Fernando Henrique Cardoso a poetas como Vinícius de Morais e músicos como Paulo Vanzolini, Toquinho, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Nas palavras do sociólogo e crítico literário Antonio Candido, amigo íntimo e assíduo frequentador do casarão, o historiador era "um erudito extraordinário, mas muito inclinado à molecagem. Um camarada de uma seriedade intelectual fora do comum e um gozador de marca maior". O depoimento foi dado ao cineasta Nelson Pereira dos Santos em Raízes do Brasil: Uma Cinebiografia de Sérgio Buarque de Holanda. Opinião corroborada no passado por Manuel Bandeira, amigo de juventude: "Sérgio só não soçobrou no cerebralismo porque caiu na farra".

Esse ambiente de tranquilidade entremeada de alegria permitiu o florescimento de uma obra capital para o entendimento do Brasil. Foi Sérgio Buarque que concebeu a ideia de "cordialidade" do homem brasileiro - movido não pela bondade, como erroneamente se costuma achar, mas pela emoção e o personalismo em lugar da racionalidade e da impessoalidade que caracterizam as sociedades modernas. A mulher fazia a casa funcionar e mantinha a perturbação dos filhos longe de seu escritório. "A maior prova de inteligência que Serjão deu foi se casar com Maria Amélia", diz Paulo Vanzolini no filme. Não por acaso, Chico Buarque conta ter tomado contato com a obra do pai só após os 20 anos. E, quando disse estar lendo Raízes do Brasil, ouviu de volta o muxoxo paterno: "Não, meu filho. Leia Visões do Paraíso, é muito melhor".

A novela da preservação desse patrimônio intelectual e cultural do País começou com a destinação da biblioteca do historiador, pela qual passaram de 30 a 40 mil volumes, pelos cálculos de Antonio Candido. Em 1983, os cerca de 10 mil que sobraram foram arrematados pela Unicamp e levados da Rua Buri para o campus no interior paulista. A destinação do imóvel, no entanto, permanece incerta há quase 19 anos.

No meio do passeio público. Foi em 1992 que surgiu pela primeira vez a ideia de transformar a residência dos Buarques de Hollanda em bem público, ao alcance do cidadão. Durante o governo de Luiz Antonio Fleury Filho, o jornalista Fernando Morais, então secretário estadual da Educação, propôs um projeto para montar no local um centro de pesquisas voltado para professores de história da rede pública. Faltou dinheiro e Morais acabou saindo do governo. "Só que mamãe gostou muito da ideia", disse ao Aliás o primogênito do casal, o economista Sérgio Buarque de Hollanda Filho, o Sergito, professor aposentado da Faculdade de Economia e Administração da USP. "Não achávamos justo doar uma casa que papai comprou com tanto esforço, mas também não era do nosso desejo entregá-la ao mercado imobiliário."

Cansados de esperar por uma decisão do governo, em maio de 2001 a família capitulou, com uma placa de "vende-se" sobre o número 35 da Rua Buri. A sorte foi que o então vereador pelo PT, Carlos Giannazi, passava por ali e correu a telefonar para Ana de Hollanda propondo apresentar um projeto de lei na Câmara Municipal. "A prefeita Marta Suplicy encampou a ideia de fazer lá uma discoteca pública de MPB e acomodar um acervo semelhante ao que existe no Centro Cultural São Paulo", conta Giannazi, que acabou expulso do PT e hoje é deputado estadual pelo PSOL.

No dia 11 de julho de 2002, data do centenário de nascimento do historiador, Marta oficializou a coisa. Mas, então entrou no meio o imbróglio da caseira, dona Emérita, a prefeita perdeu a reeleição e a formalização do processo ficou para o sucessor, José Serra. Só então, lembra Sergito, o valor da desapropriação foi estipulado: R$ 449.700. A luta na Justiça seguiria até 2010, quando a casa finalmente foi entregue e a família recebeu o valor, sem correção. "A gente sabia que estava subavaliada, mas queria resolver a coisa logo." A essa altura d. Maria Amélia havia morrido sem ver seu grande sonho realizado.

Sobre a reação da família à invasão dos estudantes este mês, Sergito mede as palavras: "Não é que gostamos, mas achamos graça". Discretamente, também, revela preferir o projeto original de uma instituição dedicada ao ensino de história à música. Para o deputado Gianazzi, a ação dos meninos chamou a atenção "para esse verdadeiro descaso com o patrimônio público". De Brasília, a irmã ministra Ana manda dizer que a decisão é da competência municipal e acredita que a Prefeitura "fará bom uso do imóvel".

O fim da história está nas mãos do prefeito Gilberto Kassab. Mais especificamente, da Secretaria Municipal de Educação, que afirma, em nota, ter murado a casa provisoriamente para protegê-la das invasões até que seja contratada vigilância patrimonial. Diz ainda que pretende instalar no local um centro de estudos, "mas outras alternativas podem ser analisadas". Em suma, a construção está lá, mas falta à futura Casa Sérgio Buarque de Holanda a certidão pra nascer e a concessão pra existir.

Tudo o que sabemos sobre:
Buarques de HollandaAliás

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.