Desemprego nos EUA leva a alistamento recorde

Jovens qualificados buscam Exército, mesmo sob risco de ir para o front afegão

, O Estadao de S.Paulo

25 de outubro de 2009 | 00h00

Quando se formou na faculdade de Decoração e Fotografia, a americana Myeshia Townsend, de 23 anos, sonhava em trabalhar num escritório de arquitetura. Mas o tempo foi passando e ela não conseguiu arrumar emprego: candidatou-se a vagas de vendedora em loja, caixa de banco, assessora administrativa. Nove meses depois, ela tomou uma decisão radical - se alistou nas Forças Armadas dos EUA, seguindo os passos dos avós, veteranos da Marinha e do Exército.

Agora, Myeshia está prestes a começar seu treinamento básico e tem grandes chances de acabar lutando no Afeganistão. "Pode ser uma boa escola para ganhar conhecimentos de gerência e relações pessoais e melhorar meu currículo para quando eu voltar", disse Myeshia ao Estado.

A crise econômica e o desemprego fizeram as Forças Armadas baterem todos os recordes de recrutamento neste ano fiscal, que terminou em setembro. Gente que jamais pensaria em entrar para o Exército formava uma fila de 2 quilômetros na última feira de carreiras das Forças Armadas, em Fort Mead, segundo o sargento Joseph Perdieu, recrutador do Exército.

O centro de recrutamento de Largo está lotado e muitos candidatos esperam de pé. "Nunca recrutei tanta gente como agora", disse Perdieu. "Antes, a gente ligava para recrutar nesta região e as pessoas eram arrogantes, diziam que preferiam ir para a faculdade estudar para ser os próximos presidentes. Agora, com esse desemprego, engoliram o orgulho."

Essa foi a primeira vez, em 35 anos, que todos os ramos das Forças Armadas - Marinha, Exército, Força Aérea e Marines, da ativa e da reserva - cumpriram as metas de recrutamento e de qualidade dos recrutas. No ano fiscal de 2009 foram recrutados 168.968 para a ativa, 103% da meta, e 127.537 para a reserva (103,8% da meta). Mesmo assim, as Forças Armadas continuam sobrecarregadas.

"O desemprego teve um papel forte no aumento do recrutamento", diz Bill Carr, vice-secretário assistente de Defesa para a política de pessoal militar. "Não havíamos previsto o desemprego e mantivemos nosso investimento em recrutamento, então, ficamos em uma posição confortável. Tanto que, para o ano que vem, vamos cortar em 11% o orçamento de US$ 5 bilhões para recrutamento."

MUDANÇA

Dois anos atrás, a situação era oposta. O Departamento de Defesa se viu obrigado a reduzir seu nível de exigência para conseguir preencher as metas de recrutamento. Até pessoas que haviam sido presas por furto, embriaguez ou invasão de propriedade, homens com enormes tatuagens no pescoço e quarentões passavam pelo controle de qualidade do Exército.

Em 2005, o Exército não conseguiu cumprir sua meta de alistar 80 mil recrutas. Ficou 8 % abaixo do objetivo - a maior margem em duas décadas. Em 2006, a Marinha, a Força Aérea e o Exército conseguiram alistar o número previsto de soldados, mas a um custo alto.

"Apesar de o Exército estar cumprindo suas metas de recrutamento, em 2006, a qualidade dos recrutas caiu muito", dizia o relatório do Escritório de Orçamento do Congresso daquele ano.

Em 2009, haverá uma redução de 37% nas chamadas "dispensas" para recrutas, que permitem o alistamento de pessoas que já cometeram crimes ou que tenham problemas de saúde. A qualificação dos candidatos também melhorou.

Em 2004, 92% dos soldados na ativa do Exército tinham completado o segundo grau. Em 2007, esse número caiu para 79,1%. Entre os recrutados este ano, saltou para 95%.

O Pentágono também cortou os incentivos financeiros que usava para convencer americanos a se alistar. Em 2006, o bônus máximo de alistamento foi elevado de US$ 20 mil para US$ 40 mil para algumas funções. Agora, com o desemprego perto dos 10%, os EUA não precisam mais de bônus para convencer candidatos.

Também foram suspensos os bônus de US$ 2 mil para pessoas que indicavam alguém para se alistar. "Seis meses atrás, todo mundo ganhava bônus. Agora, em geral, não precisamos mais disso", diz Perdieu. Alguns ainda recebem incentivos para preencher posições com pouca oferta, como cozinheiro, limpador de banheiro, tradutor de árabe, dari ou pashtun.

BENEFÍCIOS

Entrar para as Forças Armadas é uma solução para muitos. Na aposentadoria, depois de 20 anos de serviço, o militar recebe 50% de seu salário-base, com assistência médica e odontológica para a família inteira - filhos, inclusive, até se formarem na universidade.

Perdieu se aposentará com 37 anos. O salário não é alto - começa nos US$ 30 mil por ano -, mas há vários extras, além de plano de saúde e moradia grátis. "O único problema é que, com os EUA envolvidos em duas guerras, a probabilidade de o alistado acabar no Afeganistão é muito alta", adverte Perdieu.

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