Desfile de moda lança campanha pela igualdade

'E aí, beleza? Eu sou assim', do projeto Tam Tam, coloca na passarela gente de 6 a 90 anos

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2009 | 00h00

O trabalho do arte-educador Renato Di Renzo começou há 20 anos, com a luta antimanicomial na Baixada Santista. Di Renzo foi o precursor do processo de desativação do então superlotado Hospital Anchieta, alvo de denúncias de maus-tratos e o primeiro manicômio a sofrer intervenção pública, marco da reforma psiquiátrica no Brasil.

Da experiência nasceu a Associação Projeto Tam Tam. A partir daí, a ideia de assistir apresentações de doentes mentais se transformou e ganhou nova dimensão. Di Renzo abriu ao público as oficinas de teatro, dança e capoeira, entre outras, e assim começou, no próprio espaço, o trabalho de inclusão que defende.

Hoje, em Santos, a ONG lança a campanha E aí, beleza? Eu sou assim!, que pretende criar um novo olhar sobre estética e aceitação. Di Renzo quer discutir o que chama de ditadura da beleza - e rechaça a ideia do teatro ou da moda "para deficientes". "Um artista é um artista, não importa se é louro ou moreno, gordo ou magro, se fala ou faz gestos", diz.

A nova bandeira será levantada durante um desfile de moda. Na passarela, o púbico não verá tops magérrimas, mas 60 pessoas comuns, com necessidades especiais ou não. Desfilam também os surfistas Picuruta Salazar e Pauê, a judoca Danielle Zangrando e o jogador de futebol Paulo Henrique Ganso, do Santos Futebol Clube.

Duas grifes santistas, Uó do Borogodó e Benedita, emprestaram looks para o evento. Mas a maior parte foi feita ali, nas oficinas de customização que envolveram os 140 alunos do projeto, familiares e voluntários. Calças viraram coletes e colchas de cama se transformaram em vestidos de festa. Entre os destaques da passarela, dois vestidos de noiva, um de crochê feito com sacolas plásticas e outro de jornal. Há também roupas de fuxico. "Tudo foi reciclado", diz Di Renzo. Até a decoração da sede é montada com objetos doados e customizados.

A associação funciona num canto cedido no Teatro Municipal de Santos. De segunda-feira a sábado ocorrem as oficinas, com alunos de 6 a 90 anos. Nas noites de sexta-feira e sábado, o espaço se transforma no Café Teatro Rolidei, que atrai mais de 2 mil pessoas por mês, em uma balada animada e diferente, das 22h às 3h. Uma das grandes atrações é a novela ao vivo, interpretada por 20 alunos.

VERBA

O projeto Tam Tam abriu as portas do Teatro Rolidei por causa da necessidade de captar fundos. A ONG não conta com incentivos ou patrocínios. "Se até dezembro a gente não conseguir fechar algum tipo de apoio, vamos ter de parar, depois de 20 anos. É uma pena, mas não consigo mais manter as pessoas aqui, sem receber nada. Os voluntários também precisam sobreviver", diz a psicóloga Claudia Alonso, uma das fundadoras do Tam Tam e também voluntária, como todos os orientadores e educadores.

"O desfile, organizado pelo segundo ano consecutivo, é uma forma que arrumamos de conseguir mais fundos", explica Di Renzo, que colocou os ingressos à venda pelos telefones (13) 9124-6493 e (13) 9168-7449. Custam R$ 40, com direito a coquetel e, depois do desfile, shows de bandas. O desfile será hoje no Typographia Brasil, no Centro Histórico de Santos.

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