JF Diorio/AE
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Desumanização uniformizada

Guerra de torcidas tem base psicológica e material impossível de combater apenas com a apuração dos fatos e o banimento

Roseli Fischmann,

31 Março 2012 | 17h15

O confronto entre as torcidas organizadas, que levou dois jovens à morte nessa semana, brota, alimenta-se e, se erradicado, renasce da invenção de inimigos sob a omissão ou cumplicidade de diferentes setores sociais e governamentais.

A identidade coletiva engolfada pelo fanatismo apresenta-se de várias formas, uma delas a do torcedor que é estudante, trabalhador, pai, filho e irmão e, uniformizado, acaba diluído na turba ensandecida. Veem-se a si mesmos como “nação” (a “nação corintiana” contra o “porco”), separados dos demais da nação brasileira nesses momentos terríveis. Como se dá essa abdicação da identidade individual em favor de uma identidade que, no grupo, se faz criminosa? Que fragilidade de caráter e capacidade crítica garante a autodesumanização?

A suposta convocação para o conflito pela internet e a alegação de vingança, associados ao pesado armamento letal, parcialmente improvisado, indicam base psicológica e material de conflito de guerra, impossível de combater apenas com a apuração dos fatos e o banimento das torcidas.

Na lógica da guerra, a morte dos torcedores assume o lugar de dano colateral, como se fosse óbvio ter a rua como campo de batalha, moradores precisando se esconder e a polícia colocada em situação equivalente à população civil, enquanto as torcidas encarnam o papel de milícias. Após o conflito mortal, os torcedores palmeirenses se encaminharam em silêncio para o estádio para sinalizar o luto. Seguiram-se o jogo e a torcida pelo time, como se nada houvera. Como efeito colateral, as mortes são então dissociadas dos gols, ficando assim moralmente autorizadas as comemorações de vitória.

Que impacto têm sobre a sociedade, em especial sobre crianças e jovens, essas mortes evitáveis e a frieza com que são apartadas, para darem lugar à jactância da vitória? Qual a mensagem que se está passando com a complacência, ainda que relativa, da sociedade e do Estado, com relação à gravidade do crime? Banir as torcidas organizadas é o único ou o melhor caminho?

Para Herbert Kelman, todo conflito “nacional” entre grupos, que toma o caminho da violência, vê ameaçada sua identidade e seus valores, sendo alimentado por necessidades não atendidas, medos e preocupações. Na guerra “tradicional”, os medos dirigem-se a um inimigo real, e ligam-se à perda de território, da soberania ou da própria vida. As preocupações, por sua vez, ligam-se ao futuro que se anuncia distante ou impossível, sem perspectivas para os filhos, sem adequação a expectativas legítimas, por causa de impedimentos que o inimigo impõe.

No caso das torcidas, como isso se traduz? Necessidade de reconhecimento de, por exemplo, aderir à imagem de um time que se quer vitorioso, para sentir a vitória como sua. Medo, entre outros, de que o inimigo inventado possa derrotá-lo de forma mais completa do que a derrota infligida pelos gols. Preocupação, ainda que denegada, de provar a própria masculinidade em um meio tão machista que, a despeito de exceções, faz com que mulheres e crianças sejam tacitamente banidas dos estádios. Resolver conflitos é provocar mudança de identidade, porque, quando se muda o modo de ver o inimigo, a autoimagem muda também. Será possível ao torcedor redimensionar o conflito, de forma a perceber que não há um inimigo de fato no que é seu semelhante, mas apenas uma simpatia distinta da sua?

Como há patrocinadores que associam sua imagem à dos times de futebol, e jogadores que se fazem celebridades vendáveis, é de se esperar que se incomodem de ter sua imagem associada ao desatino homicida de torcidas uniformizadas, que provavelmente consomem seus produtos para fortalecer o time de sua paixão. Algo está a seu alcance, e é agirem com responsabilidade, assumindo, por exemplo, o papel educativo de propor, com autoridades públicas, trabalhos de mediação de conflito entre os líderes das torcidas, para compreender quais necessidades, medos e preocupações potencializam semelhantes eventos. Isso permitiria não apenas abrir o diálogo, na esfera da racionalidade e não da paixão, mas sobretudo permitir desvendar o processo de invenção e construção do ódio, para revertê-lo. Abririam, a partir das próprias falas dessas lideranças, vias de compreensão para a desproporcionalidade do ódio, se confrontado com necessidades, medos e preocupações, associados a essas identidades nacionais.

Entregues a si mesmas, banidas, as torcidas se recriarão e se reproduzirão sob novo nome, mas com as mesmas disposições psicoculturais de violência e destruição dos inimigos que inventarem a cada vez ou dos que herdarem de suas “vidas passadas”. A proximidade da Copa no Brasil, em 2014, pode ser uma motivação adicional, mas o valor da vida de cada brasileiro, cidadão antes de torcedor, é o cerne de uma ação que vá às causas e raízes, e que não se pode mais adiar.

* Roseli Fischmann é coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação Da Universidade Metodista de São Paulo e coordenou o Manual Direitos Humanos no Cotidiano, Iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Unesco e USP

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