Detetive pega 14 anos de prisão por morte de modelo em MG

Corpo de Cristiana Aparecida Ferreira foi encontrado em flat, em agosto de 2000; morte foi dada como suicídio

Eduardo Kattah, O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2009 | 10h25

O detetive particular Reinaldo Pacífico de Oliveira Filho, de 41 anos, foi condenado na madrugada deste sábado, 10, a 14 anos de prisão pela morte da modelo Cristiana Aparecida Ferreira. A sentença foi lida às 3 horas, após 13 horas de sessão no I Tribunal do Júri do Fórum Lafayette, em Belo Horizonte. O juiz presidente do tribunal, Carlos Henrique Perpétuo Braga, concedeu a Pacífico a prerrogativa de a interposição de recurso em liberdade. Ele adiantou que sua defesa irá recorrer da decisão.   Veja também: Todas as notícias publicadas sobre o caso    Então com 24 anos, Cristiana foi encontrada morta no dia 6 de agosto de 2000, três dias depois de se hospedar no San Francisco Flat Service, na região centro-sul da capital mineira. Na época, o laudo da Polícia Civil concluiu que ela havia suicidado ao ingerir veneno para ratos. O Ministério Público Estadual (MPE), no entanto, decidiu reabrir as investigações em novembro de 2002.   O corpo da modelo foi exumado três vezes para exames. O MPE concluiu que ela fora assassinada, denunciando Pacífico como autor do crime. Ele chegou a ser preso, mas aguardava o julgamento em liberdade. Durante a longa sessão e após ouvir a sentença, Pacífico reafirmou inocência, sempre sustentando a versão que Cristiana teria cometido suicídio. Ele disse que foi vítima de um "erro judicial". O advogado Dino Miraglia Filho, assistente da acusação, por sua vez, considerou "justo" o resultado do julgamento e afirmou que espera que o MPE busque agora os "mandantes do crime".     Políticos   O caso teve grande repercussão porque Cristiana, que se apresentava como miss, costumava circular entre autoridades da política mineira. A quarta testemunha a depor foi o ex-governador Newton Cardoso, arrolado pela defesa do detetive. O ex-governador foi irônico ao chegar ao tribunal. "Vim falar sobre a Faixa de Gaza", disse. Irritado ao ser questionado pela acusação, Cardoso negou que tivesse sido amante da modelo e disse que viu Cristiana apenas uma vez, no Palácio da Liberdade, em companhia do então governador, Itamar Franco, e seu secretário de Estado de Governo, Henrique Hargreaves. Ele, porém, assumiu que é dono de um apartamento no mesmo andar do flat onde a modelo foi encontrada morta.   O ex-ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia, também foi arrolado como testemunha no processo, mas não compareceu porque estaria em viagem aos Estados Unidos. Além de Mares Guia, Cardoso e Hargreaves, o ex-ministro e presidente da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Djalma Morais, também foi ouvido pelo MP durante a investigação. Nenhum político foi denunciado. A esposa de Mares Guia, a empresária Sheila Mares Guia, também foi ouvida na época pelo promotor Francisco Assis Santiago.   Edna Gonçalves, uma ex-funcionária do flat - primeira pessoa a entrar no quarto da vítima -, confirmou que Cristiana mantinha encontros com políticos. Ela afirmou que nunca viu o detetive nos andares do prédio. O delegado Paulo Bittencourt, responsável pelo inquérito que concluiu pela hipótese de suicídio, sustentou a versão de que "não existiu crime". "Foi auto-extermínio". A segunda testemunha a depor, José Geraldo Nunes, disse que Pacífico confessou a ele na época que teria matado a modelo por ciúmes. Afirmou ainda que Cristiana costumava transportar dinheiro de políticos de Brasília para Belo Horizonte.   Malas   No final de agosto de 2005, após o estouro do escândalo do mensalão, o MPE encaminhou cópias de depoimentos de familiares de Cristiana para a CPI dos Correios e para a Procuradoria-Geral da República. Na ocasião, a mãe e três irmãos da jovem prestaram novos depoimentos a Santiago e afirmaram que ela costumava transportar "malas suspeitas" para São Paulo e Brasília.   Diante das denúncias de financiamento ilegal de campanhas políticas, o MPE julgou na época que era importante colher os novos depoimentos. Durante o debate, Santiago disse havia pessoas interessadas no arquivamento do inquérito com a conclusão de suicídio. Após a sentença, ele admitiu que poderá solicitar a abertura de novas investigações para apurar as denúncias das testemunhas.   Para o irmão de Cristiana, o técnico em manutenção Eduardo Ferreira, a morte da jovem "está relacionada a uma queima de arquivo".

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