Devemos explorar o nosso próprio mundo extraterrestre

A exploração do fundo dos oceanos será como a exploração de Marte - mas já sabemos que vamos encontrar vida

O Estado de S.Paulo

31 Março 2012 | 03h07

Artigo

Há quase 36 anos, a nossa compreensão da vida mudou para sempre. Isso aconteceu quando cientistas, rebocando um veículo remoto pelas profundezas do mar, fotografaram um aglomerado de moluscos vivendo no fundo do Oceano Pacífico - em uma região muito além do alcance da luz solar, onde supostamente não deveria haver nenhum tipo de vida. Esses moluscos eram nutridos por fontes hidrotermais - uma espécie de gêiser no solo do oceano - em vez da energia do Sol.

Desde então, cientistas e exploradores de todo o mundo têm silenciosa e pacientemente descoberto um universo estrangeiro cheio de vida aqui mesmo, na Terra. A maior incursão ocorreu no domingo passado, quando o diretor de cinema James Cameron (de O Exterminador do Futuro, Titanic e Avatar, entre outros) desceu pouco mais de 11 quilômetros por um abismo oceânico conhecido como Depressão Challenger, o ponto mais profundo do planeta que se conhece, ao largo da Ilha de Guam, uma colônia norte-americana na Micronésia.

Devemos louvar esse feito e encorajar a exploração contínua por meio de um esforço global da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar para preservar os mares profundos.

O mar aberto fora das regiões de jurisdição nacional cobre aproximadamente metade da superfície do planeta. Não temos ideia de que formas de vida estranhas prosperam na escuridão das profundezas de 3 quilômetros ou mais. Mas sabemos o suficiente para não querer perdê-la.

Os pesquisadores de mares profundos vivem distantes das luzes brilhantes e dos bilhões de dólares dedicados à exploração espacial. Mas esses pesquisadores, trabalhando em relativa obscuridade, mesmo assim documentaram comunidades ricas e surpreendentemente diversificadas de organismos nas profundezas oceânicas. Essas têm sido expedições de baixo orçamento, principalmente robóticas, patrocinadas por um punhado de países com pouco capital para investir.

Nas "chaminés" oceânicas, gases quentes emergem do leito do oceano e sustentam formas de vida que não dependem da fotossíntese e da luz solar. Nos anos 1980, formas de vida diferentes foram descobertas em escoamentos de metano frio. Essas formas de vida usam o metano como fonte de energia, e não o Sol ou meios fotossintéticos.

E a estranheza continua. Recentemente, meus colegas Rosa Levin e Greg Rouse, da Instituição Scripps de Oceanografia, documentaram um ecossistema nas proximidades da Costa Rica que mostra elementos tanto de vida das fontes hidrotermais como de escoamentos no solo oceânico, onde organismos capazes de tolerar calor e frio extremos vivem lado a lado.

Em 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin voou pelo espaço no primeiro voo espacial tripulado, mais de um ano após o batiscafo Trieste, um submersível de águas profundas carregando Jacques Piccard e Don Walsh, descer 10.739 metros pela Depressão Challenger.

Eles eram os verdadeiros loucos da época: o Trieste poderia ter sido enviado sem tripulação a essa profundidade, mas Walsh e Piccard o acompanharam em sua primeira tentativa e não apertaram o botão de pânico nem mesmo quando uma janela de Plexiglass trincou a 8,7 mil metros.

Avanço interrompido. Na época, nós pensamos que a era da exploração das profundezas oceânicas e do espaço havia começado. Estávamos certos apenas sobre o espaço.

Somente quando quatro expedições privadas foram montadas recentemente que um retorno à Depressão Challenger foi possível. Nos próximos dez anos, os cientistas esperam explorar a maravilhosa tecnologia inventada para essas expedições.

No domingo, Cameron, num submarino que ele próprio projetou, em uma expedição patrocinada pela National Geographic Society, finalmente se tornou o primeiro ser humano a voltar à Depressão Challenger em mais de 52 anos. Devemos continuar essa exploração. Ainda há muita coisa a ser descoberta.

Aliás, como apenas um exemplo, meus colegas esperam descobrir novas criaturas que produzem moléculas originais que, manipuladas e sintetizadas em laboratório, reabastecerão nosso arsenal em rápido declínio de fármacos eficientes. Se for adequadamente manejado, o uso não invasivo dos oceanos poderá nos manter seguros até sermos suficientemente inteligentes para projetar drogas apenas com nossos cérebros e computadores.

A exploração das profundezas oceânicas ocorrerá como a exploração de Marte. Robôs farão a maior parte do trabalho, coletarão todos os dados e, se tivermos sorte e inteligência suficiente para ocasionalmente assumir a pilotagem, essas expedições enriquecerão a condição humana mais do que podemos imaginar.

Sim, a exploração das profundezas oceânicas será como a exploração de Marte - com uma enorme exceção. Nos já sabemos que vamos encontrar vida nas profundezas oceânicas - uma grande profusão dela. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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