Estadão
Colunistas Estadão Estadão

Dez anos em retrospectiva

Colunistas do 'Estado' destacam os acontecimentos mais marcantes da década

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 17h38

Para relembrar os destaques da década que se encerra, colunistas do Estado foram convidados a escrever sobre o que consideram ser o acontecimento mais importante dos últimos dez anos. Os protestos no Brasil no ano de 2013, o uso frequente de smartphones, a ascensão de Trump e a chegada do Brexit são alguns dos marcos da década.



“A década de 10 vai chegando ao fim, mas os ecos daquele 2013 em que tudo virou do avesso ainda vão ser sentidos ao longo dos anos 20”, avalia a jornalista Vera Magalhães.

Ainda no campo político, William Waak avalia o ano de 2018 como o cenário para uma onda disruptiva, que mudou os rumos da política. “A natureza da onda é disruptiva, pois afetou a credibilidade de instituições centrais para o funcionamento da política nacional, e não foram só lideranças ou partidos estabelecidos.”

Para o filósofo Leandro Karnal, o uso recorrente de celulares marcou o costume de uma sociedade que está cada vez conectada. “O aparelhinho inovador tornou cada cidadão conectado e apto a ter determinada voz.”


 

Tudo o que sabemos sobre:
História do Brasil

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem William Waack
Colunista
William Waack
Colunista
Conteúdo Exclusivo para Assinante

William Waack: A oportunidade

Uma onda política sem precedentes abriu uma janela histórica

William Waack, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2019 | 03h00

A década foi curta, parafraseando título famoso de livro de Eric Hobsbawm. Começou com a vitória do “dedaço” de Lula em 2010 (a primeira eleição de Dilma) e terminou com a onda disruptiva de 2018. Destaco essa onda, e seu resultado eleitoral, como o principal fato do período, sabendo muito bem que é impossível tomá-lo de forma isolada (mas nosso editor de Política, o Eduardo Kattah, disse que os colunistas só poderiam destacar um fato).

Ela alterou os rumos da política, destruiu figuras consolidadas, encerrou um período de capitalismo de Estado que produziu resultados catastróficos do ponto de vista econômico – mas, sobretudo, moral –, destruiu por período ainda imprevisível o chamado “centro” do eleitorado político, alterou o funcionamento do sistema de governo (com o Legislativo encurtando as prerrogativas do Executivo). Por último, expôs à sociedade o severo desafio que uma geração (a partir de 1988) não conseguiu enfrentar de forma satisfatória: o de diminuir a desigualdade, aumentar a prosperidade e encurtar a diferença que separa o País das economias mais avançadas.

A natureza da onda é disruptiva, pois afetou a credibilidade de instituições centrais para o funcionamento da política nacional, e não foram só lideranças ou partidos estabelecidos. A onda disruptiva mexeu com fundamentos do estado de direito, como está demonstrado no embate entre setores do STF e a Lava Jato. Colocou o País diante de uma encruzilhada complexa, que é definir quem, no fim das contas, estabelece o controle sobre a esfera da política. Jogou suas elites econômicas que se dizem “liberais” nas ideias diante da tarefa de que modelo adotar de funcionamento do Estado e suas decisões.

A onda arrasou a credibilidade de setores importantes da mídia, especialmente grandes grupos de comunicações. Acentuou pelas redes sociais o comportamento “tribal” de vastos segmentos da sociedade, demonstrando que a moderna tecnologia de informação não é sinônimo automático de “avanço” ou “progresso”. As redes, ao mesmo tempo causa e efeito, tornaram ainda mais fechadas e excludentes as “tribos” políticas ou culturais que hoje nem sequer conseguem concordar sobre fatos, ou se dispõem a admitir fatos que não combinem com o que já pensam.

Ela tem menos o caráter de “revolução conservadora” do que alguns de seus principais beneficiados (começando por Jair Bolsonaro) gostariam. Na sua essência, ela traduziu uma enorme indignação e insatisfação populares com um “sistema” entendido como contrário a qualquer um que é honesto, trabalha e se esforça. Partes integrantes do “sistema”, nessa percepção bastante disseminada, são imprensa, políticos, partidos, Legislativo, impostos exagerados e incompreensíveis, um conjunto sufocante de leis e regulamentos.

A mesma onda expôs a difícil encruzilhada a que chegou o Brasil, país que se tornou velho antes de ficar rico. Falhou nossa tentativa de construir um Estado de bem-estar social apoiado em crescentes gastos públicos, que nem sequer uma carga tributária inédita entre economias de países comparáveis consegue sustentar. E expôs a necessidade de as elites pensantes encararem outra questão desagradável: qual a razão da nossa produtividade permanecer tão baixa durante tanto tempo?

Essa onda ocorreu também por causa de um fenômeno positivo de engajamento político de vastas camadas da sociedade. Há não só um interesse inédito do público por política, mas uma crescente percepção de que a dedicação à política traz resultados e mudanças, ainda que seja notória a frustração com a velocidade com que as transformações ocorrem. A onda disruptiva abriu uma janela histórica de oportunidade.

Quem sabe ela também reforçará a noção de que a realização dessa oportunidade não é automática, e só depende de nós.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Fernando Reinach: A casca de civilidade está rachando

Rachaduras tornaram aceitáveis a difusão de mentiras, a agressividade nas redes sociais, a religiosidade dogmática, o desprezo pela ciência e pelo planeta onde vivemos

Fernando Reinach, colunista

28 de dezembro de 2019 | 05h00

O homem não passa de um animal recoberto por uma casca de civilidade. Nos últimos dez anos, me parece que essa casca começou a rachar. Pelas trincas, o passado está invadindo o presente e nos transformando no que sempre fomos. Por baixo da casca, somos um símio agressivo, temeroso dos fenômenos naturais e focado unicamente no futuro próximo.

Comer e reproduzir foram as únicas atividades que garantiram nossa existência por milhões de anos. Recentemente, há menos de um milhão de anos, o desenvolvimento do cérebro e da mente que ele produz fez com que descobríssemos nossa mortalidade, algo novo no reino animal. A descoberta adicionou o medo de morrer à fome e ao desejo sexual e talvez seja o motivo para criarmos o que chamo de casca civilizatória.

Criar e aperfeiçoar a casca vem do fato de sermos também o único ser com dois modos de transmitir informações entre gerações. Animais têm só a capacidade de transmitir sua informação genética por meio de espermatozoides e óvulos. Para eles, o progresso depende do lento processo da seleção natural. O que aprendem durante a vida se perde com a morte, pois só os genes sobrevivem na próxima geração.

Alguns animais são capazes de aprender com os pais: pássaros aprendem a cantar e carnívoros, a caçar. Mas isso não chega aos pés do que aprendemos na infância, lendo, vendo aulas, fotos e filmes. Nossos filhotes, além de receberem nossos genes, passam anos absorvendo parte da enorme quantidade de informação que acumulamos em milhares de anos. É por esse processo de aquisição de conhecimento que cada um de nós é recoberto por sua própria casca e nossa espécie leva adiante o que chamamos de civilização.

Os benefícios da casca civilizatória são enormes e cresceram ao longo dos séculos. No início, os aprendizados eram estocados na memória de uma geração e repassada à próxima nas conversas ao pé do fogo. Como lascar a pedra para fazer uma lança, cercar a presa, construir um abrigo, voltar ao local onde frutas podem ser colhidas.

Mais tarde, foram as informações sobre como cultivar plantas, domesticar animais e praticar o comércio. Com o advento da escrita, a quantidade de informação que pôde ser acumulada para consulta futura aumentou exponencialmente e ainda não parou de aumentar, passando pelas bibliotecas e chegando à memória dos computadores.

Fenômenos naturais que nos apavoravam começaram a ser compreendidos e, em vez de rezar por chuva, irrigamos lavouras. Roupas e outros utensílios permitiram que nos espalhássemos pelo planeta. Leis e acordos sociais contiveram a violência do individualismo e permitiram que colaborássemos. Surgiram as primeiras civilizações.

A preservação da casca e seu desenvolvimento nortearam a humanidade nos últimos séculos. O ensino passou a ser obrigatório e se espalhou pelos países e classes sociais.  O aperfeiçoamento das regras de convivência, formas de governança das nações e mecanismos para garantir a paz se tornaram metas da humanidade, mesmo quando abandonadas temporariamente. O conhecimento científico se tornou indispensável, pois, aos poucos, se transformou em tecnologia – da eletricidade às ondas eletromagnéticas, passando pela metalurgia, máquina a vapor, medicina, carro, bomba atômica e internet.

Grande parte da humanidade lamenta o fato de muitas pessoas não terem a possibilidade de desenvolver sua casca individual e inveja países em que isso ocorre.

No Brasil era assim. Nos últimos dez anos, em muitos locais do planeta, mas principalmente no Brasil, me parece que essa casca está rachando. Políticos não só se vangloriam de não serem educados, como percebem que vivem um enorme conflito de interesse: se incentivarem a educação, a ciência e a cultura, põem em risco os votos que conquistaram com discursos populistas e simples mentiras.

Corrupção e mecanismos para defender sua manutenção e impunidade seriam insustentáveis se a educação tivesse fortalecido a casca da população. Rachaduras na casca civilizatória tornaram aceitáveis a difusão de mentiras, a agressividade nas redes sociais, a religiosidade dogmática, o desprezo pela ciência (terraplanismo e negacionismo climático) e pelo planeta onde vivemos. A medicina vai sendo solapada (movimento antivacina e homeopatia) e as instituições de ensino e pesquisa são aos poucos destruídas.

Combinadas, essas mudanças permitem surgir por baixo da casca nossa natureza animal: agressiva, temerosa de deuses imaginários, suscetível a líderes fanáticos, propensa à violência irracional e preocupada unicamente com o curto prazo. São mudanças difíceis de reverter, pois têm a seu favor a natureza selvagem do animal que ainda somos. Só espero que meu pessimismo passe com o ano novo.

*FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem Vera Magalhães
Colunista
Vera Magalhães
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Vera Magalhães: 2013, o ano que mudou a década

Jornadas de junho foram prenúncio do tsunami que viria em seguida, com a Lava Jato

Vera Magalhães, O Estado de S. Paulo

29 de dezembro de 2019 | 03h00

“Infelizmente assinei a lei que criou a delação premiada.” O sincericídio foi cometido por Dilma Rousseff durante palestra proferida em Londres em 5 de maio de 2018, dois anos depois de ser apeada da Presidência da República. A síntese dos anos 10 do século 21 no Brasil é, também, a da ascensão e queda da primeira mulher a ser eleita e reeleita presidente do País, justamente no ano inaugural da década. E o ano da virada entre uma coisa e outra foi justamente aquele em que Dilma assinou a lei pela qual viria a se lamentar: 2013, quando pegamos o desvio que nos trouxe até aqui.

As chamadas "jornadas de junho" explodiram, sem que houvesse qualquer aviso prévio, aparentemente por um motivo banal: o aumento de R$ 0,20 no preço das passagens de ônibus em São Paulo. Dilma estava, então, no auge de sua popularidade. Em abril, tinha 65% de avaliação ótima ou boa, segundo o Datafolha. As eleições do ano seguinte eram consideradas um passeio pelo entorno da petista, então ainda vista como uma gerentona que havia feito uma “faxina” no próprio governo, afastando sem hesitar ministros acusados de desvios e promovendo uma limpeza na Petrobrás.

Os protestos se alastraram pelo País como um rastilho de pólvora, levando milhões às ruas com uma pauta difusa, em que começava a aparecer uma insatisfação geral com os políticos, os serviços públicos e de má qualidade e a corrupção. A lei das delações, sancionada por Dilma em agosto, foi uma tentativa do Congresso e da presidente de “limpar a barra” com os que foram às ruas, e, curiosamente, viria a ser peça-chave no outro fato definidor da década: a Lava Jato.

Surgido em 2014 a partir de outro fato aparentemente banal – a apuração de lavagem de dinheiro por doleiros num posto de gasolina em Brasília –, o petrolão quase custou a reeleição de Dilma, que nunca havia se recuperado da traulitada dos protestos. Mas graças a doses cavalares de empulhação marqueteira, ela venceu no fio da navalha, numa eleição que já mostrava o eleitorado cindido entre os que ainda apoiavam o PT e os que passavam a manifestar verdadeira ojeriza ao partido e a Lula e seus postes.

Dali para o impeachment o caminho foi vertiginoso, com as revelações atordoantes da Lava Jato mostrando um esquema profissional de pilhagem do Estado tendo como forças motrizes os partidos, PT à frente, empreiteiras e dirigentes de estatais. Nada ficou de pé depois da operação: o antes imbatível Lula foi condenado em duas instâncias e passou um ano e meio preso em Curitiba; Dilma foi apeada do cargo; seu algoz, Eduardo Cunha, está preso até hoje; seu adversário em 2014, Aécio Neves, também foi flagrado em traficâncias e virou um deputado apagado; o substituto de Dilma na Presidência, Michel Temer, enfrentou três denúncias por corrupção no cargo, e escapou das três graças a um intensivão de fisiologia com o Congresso. Grandes empresários, antes intocáveis, foram em cana. 

Das ruínas da política, emergiu Jair Bolsonaro, com um discurso calculado para ser a alternativa a tudo isso que provocava engulhos no eleitorado estarrecido. E é nesse ponto que chegamos ao fim da década, com a sociedade entrincheirada nos extremos e um governo que, nascido da negação de tudo, tem à frente um presidente com claro pendor autoritário e que mistura religião e culto à personalidade ao mesmo tempo em que emergem preocupantes indícios de ligação de sua família com práticas da velhíssima política e com grupos milicianos.

A década de 10 vai chegando ao fim, mas os ecos daquele 2013 em que tudo virou do avesso ainda vão ser sentidos ao longo dos anos 20. Apertemos os cintos e respiremos fundo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Lourival Sant'Anna: A ascensão de Trump e a chegada do Brexit

Os dois eventos foram respostas à mesma ruptura

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2019 | 06h00

O Estado me pediu para apontar o principal acontecimento internacional da década que termina. Não há dúvida de que o grande fenômeno do nosso tempo é a ascensão da China. Ela se consolidou na última década. Mas não é um fato novo: é algo que evolui desde os anos 80. A grande notícia da década é uma resposta à China: Donald Trump.

O ano de 2016 foi marcado não só pela eleição de Trump, mas também por outro fato que desde então dialoga com ela: o plebiscito do Brexit. Os dois se desdobraram, este ano, na vitória conservadora, sob a liderança do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e na abertura do impeachment contra Trump. E se desdobrarão novamente em 2020, com a saída britânica da União Europeia e as eleições americanas.

As vitórias de Trump e do Brexit foram respostas à mesma ruptura: o fechamento de vagas na indústria e na mineração, e a migração dos trabalhadores de baixa escolaridade para o setor de serviços, sob condições mais precárias. 

Políticos como Trump, Johnson e Marine Le Pen, que obteve 34% no segundo turno da eleição presidencial francesa em 2017, foram hábeis em responsabilizar a China e o livre-comércio por essas perdas. 

Como observou Matthias Fekl, ex-ministro do Comércio Exterior da França, foi exatamente nos dois berços do liberalismo, Estados Unidos e Reino Unido, que a rejeição a esse modelo teve maiores consequências políticas.

Consequências que vão muito além dos cenários político e econômico desses dois países e da própria União Europeia. O tipo de liderança representado por Trump e Johnson (que encabeçou a campanha em favor do Brexit) introduz uma importante mudança cultural, algo com repercussões mais amplas e mais profundas.

Eles partem de experiências distintas. Trump vem do mercado imobiliário e da televisão. A presidência é seu primeiro cargo público. Johnson começou no jornalismo, cobriu a União Europeia para o Daily Telegraph, foi prefeito de Londres e deputado. 

Ambos têm em comum a defesa dos setores produtivos nacionais, sem a explicitação de um conflito entre empresários e trabalhadores. É nesse ponto que eles conseguem reunir o apoio de dois setores que não costumavam marchar juntos para as urnas. A esquerda se perdeu ao manter o foco na dicotomia patrão/empregado, conforme a prescrição do sindicalismo clássico, e na fórmula mais impostos, mais serviços públicos. 

Em Trump e Johnson, não há esses conflitos. Parece que o Estado pode ser ao mesmo tempo mínimo e protetor. E, com a pressão certa, as empresas farão o que é melhor para os trabalhadores. O conflito foi deslocado das velhas classes sociais e do debate sobre o Estado para “inimigos comuns”: a esquerda, a mídia, os imigrantes, os chineses, os políticos e burocratas.

Os conceitos se embaralharam. As relações entre causas e consequências perderam nitidez. As decisões ganharam um forte componente de improviso. As cobranças de coerência são rechaçadas com ataques aos adversários e aos jornalistas. O debate se deslocou da qualidade dos argumentos e dos índices para a legitimidade e a idoneidade do interlocutor.

Um ambiente de vale-tudo, a lei do mais forte, o bullying, a grosseria, o preconceito e a falta de limites ganharam licença. Trump, Johnson e outros líderes neles inspirados encarnam um novo modelo de comportamento em público, antes censurado. 

O superego, ridicularizado como “politicamente correto”, e a empatia, rotulada de “vitimização”, caíram em desuso. Há um palco para esse “espetáculo”: as redes sociais.

Qual o tamanho e a duração dessa onda? As vitórias de Trump e do Brexit em 2016 foram por margens ínfimas. Já a de Johnson, no dia 12, foi folgada. Se as eleições fossem hoje, Trump não teria dificuldades em vencer. De qualquer forma, resultados eleitorais não contam toda essa história. Estamos, como digo, diante de um fenômeno cultural. Ele veio para ficar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem Rosely Sayão
Colunista
Rosely Sayão
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Rosely Sayão: Década em frente à tela

Quantas vezes você interrompe, tanto sua refeição quanto a presença verdadeira na reunião familiar, para dar uma olhada no celular e até mesmo responder a algumas mensagens instantâneas?

Rosely Sayão*, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2019 | 05h00

Imagine você e sua família ao redor da mesa no jantar. Quantas vezes você interrompe, tanto sua refeição quanto a presença verdadeira na reunião familiar, para dar uma olhada no celular e até mesmo responder a algumas mensagens instantâneas? E seus filhos?

Pois é: na última década, tanto o cenário doméstico quanto as relações entre pais e filhos mudaram muito devido à estreita ligação que desenvolvemos com as tecnologias, notadamente com o aparelhos plugados na internet.

Leia Também

O papel da escola

Estudo global feito na última década pela empresa AVG Technologies revela, por exemplo, que 48% dos pais brasileiros admitem usar celular ou tablet no jantar. Mais: 65% deles reconhecem se distrair com o aparelho enquanto conversam com os filhos – consideram essa atitude um de seus piores hábitos –, e 40% enviam mensagens instantâneas a algum parente na mesma casa! Não é impressionante? Realmente, precisamos admitir que nossas relações interpessoais e familiares têm sido mediadas pelas tecnologias. Para o bem e para o mal.

Pais que viajam a trabalho ou que só retornam para casa quando os filhos estão dormindo contam, por exemplo, com chamadas virtuais e mensagens instantâneas, não importa o local em que estejam. Antes desses recursos, a presença dos pais na sua ausência só era possível por fotos e bilhetinhos escritos. Hoje, ver os pais ao vivo muda tudo para as crianças. E os avós que moram longe? Nada como olhar os netos e acompanhar seu desenvolvimento. Melhor ainda para as crianças que, desde pequenas, ouvem as histórias que seus avós podem contar, mesmo tão distantes.

Mas – ah, esse mas... – os prejuízos do uso desenfreado da internet nos aparelhos portáteis têm sido bem grandes, tanto para os mais novos quanto para nós, adultos. Vamos fazer algumas constatações a esse respeito, primeiramente sobre o que ocorre com crianças e adolescentes.

Muitas crianças pequenas são colocadas em contato com tablets e celulares para assistir a vídeos, por exemplo; aprendem rapidamente a rolar as páginas do aparelho para escolher o que querem. Nada de espantoso nisso, gente! Desde que a criança inicia o controle dos movimentos, aprende a tocar o que lhe chama a atenção. Há estudiosos que afirmam que, pelo menos até os 18 meses, as crianças não deveriam olhar para essas pequenas telas. Há muito mais o que fazer e descobrir na exploração que visa ao conhecimento do mundo e das relações.

Crianças mais velhas já ganham a maior intimidade com os aparelhos e perdem tempo precioso – e pequeno! – de bem se desenvolver brincando com outras crianças, por exemplo. Fora que, muitas vezes, acessam conteúdos com os quais ainda não sabem lidar. Há adolescentes que sofrem e praticam bullying virtual por puro impulso, já que estão com tudo à mão; têm realizado exposições prejudiciais da intimidade, aprendido o que não precisam e, principalmente, se isolado muito por ficarem horas colados em seus aparelhos.

A pesquisa citada apontou dados bem preocupantes: no Brasil, 87% das crianças afirmaram que seus pais usam aparelhos em excesso a ponto de ficarem bem descontentes com a situação. E, olhe só o que ensinamos a eles: 59% dos pais brasileiros admitem usar o celular enquanto dirigem, inclusive com filhos no carro. É preciso também lembrar do trabalho que parece ter duração de 24 horas por causa do uso dos aparelhos com internet. Assim, o relacionamento familiar, o amoroso, o com os filhos, a vida pessoal, enfim, cede muito espaço à vida profissional. Perdemos demais com isso porque o que segura nossa onda, sanidade, energia, é a vida pessoal e não a profissional.

No balanço geral da década, constatamos que o uso que temos feito de aparelhos tecnológicos tem sido bem menos benéfico do que poderia. E nem adianta colocar a responsabilidade nos tempos modernos e nas tecnologias. São nossas escolhas que nos impedem de usar melhor todos os recursos disponíveis. “Sou adulto” deveria ser nosso mantra e entoado toda manhã, ou a todo momento em que nos pegamos prestes a agir impulsiva e irresponsavelmente – de modo infantil. Desse modo, quem sabe o balanço dessa questão no próximo ano seja mais favorável à nós e mais benéfico aos mais novos. E que seja um bom ano para cada um de nós!

*É psicóloga

Notícias relacionadas

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Ugo Giorgetti: Acontecimento da década

A morte de Sócrates é o acontecimento esportivo que mais me impressionou na década que termina

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2019 | 04h26

Fui convidado a escrever sobre o acontecimento esportivo que mais me impressionou na década que termina. Pensei em vários, mas todos se revelaram de conhecimento geral, repetidos à exaustão. Então recorri ao que recorro sempre quando me vejo em dificuldades: a mim mesmo. Pensei no que foi de maior impacto para mim na década, independentemente de tê-lo sido para outros.

Cheguei à conclusão que o acontecimento, assombroso, ocorreu bem no começo, especificamente em 2011. Foi a morte de Sócrates, o dr. Sócrates Brasileiro. Fui amigo de Sócrates durante um tempo limitado. De 1995 ao final de sua vida, em 2011. Um dia ele me ligou para me dizer que tinha lido em algum lugar que eu ia começar um novo filme sobre futebol, Boleiros II, e que queria fazer parte dele. Ele não só fez o filme como ao filme se seguiu a amizade.

Nada comparável a Juca Kfouri ou José Trajano, esses sim amigos de uma vida. Por isso, diante do que conviveram outros, me sinto até um intruso, alguém que se mete num assunto indevidamente. Não importa, arrisco, porque sempre me lembro dele, e faz uns três dias estava falando dele.

Não consegui encontrar em minhas colunas antigas o que escrevi na ocasião de sua morte. Devo ter escrito alguma coisa, principalmente porque sua figura ocupou minhas colunas várias vezes. Mas não encontrei nada e então escrevo como se hoje fosse 4 de dezembro de 2011. Leio nos jornais e ouço no rádio e na TV que Sócrates morreu. Com as informações costumeiras desse imenso personagem chegam os inevitáveis comentários sobre sua voluntária autodestruição, sua entrega ao alcoolismo, seu desapego à vida, enfim, todos os clichês sobre alguém que se foi vítima de si mesmo.

Nada me parece mais falso. Durante o espaço de tempo que convivi com ele me pareceu, ao contrário, alguém que amava a vida. Só que a vida explorada em todas as suas potencialidades. Tinha que espremer o suco dos dias até não sobrar nada. Seus excessos, que todos lamentam, foram uma cuidadosa construção de um tipo de vida. 

Seu desregramento foi a não submissão a nada que o pudesse afastar do máximo de vivências e de prazer. Se isso implicava em regras a serem infringidas, pior para as regras. 

Num famoso filme de Jean Luc Godard, que inaugurou a Nouvelle Vague francesa, o personagem principal, um aventureiro temerário, que flertava constantemente com o absumo, declara num determinado momento: “É preciso viver rápido e feliz”. Acho que isso era Sócrates. Era sobretudo feliz. Teve tudo, ou muito, do que pretendia: glória popular, respeito até de desafetos, amizades, mulheres. Meteu-se em mil atividades, queria abraçar tudo. Da medicina ao futebol, da política à musica, era ator, escritor, homem de comunicação. 

E livre. Essa era possivelmente sua obsessão, a liberdade. Reagia a qualquer coisa que viesse lhe tolher a liberdade. Bateu de frente com treinadores autoritários, dirigentes ignorantes, decadentes aristocratas florentinos, sem escândalos, no máximo com ironia. De vez em quando topava com alguém que o surpreendia. Telê Santana, por exemplo, seu contrário em tudo, com quem tinha nada em comum e temia não se entender na seleção, e que o surpreendeu dando-lhe a braçadeira de capitão do grande time de 1982. Telê, com sua argúcia mineira, compreendeu que alguém que lidera a si mesmo lidera qualquer um.

Devia ter defeitos e fantasmas, como todos nós, mas nunca soube que, conscientemente, tivesse feito mal a alguém, muito menos a si mesmo. Sem aderir à religião, que já na época tragava o futebol, tinha, no entanto, instintivamente, a maior das virtudes cristãs, não o amor, mas a compaixão pelo outro. Sabia que todos caminhamos para um fim inexorável e queria, na caminhada, fruir tudo da vida, com todos os riscos. Viver rápido e feliz. Faz muita falta.

Tudo o que sabemos sobre:
futebolSócrates

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Leandro Karnal: A revolução de bolso

A solidão foi ressignificada: todos estão acompanhados pelos smartphones

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

29 de dezembro de 2019 | 07h00

Escolher um fato marcante para um recorte de dez anos é perigoso e complexo. Algo que parece fundamental hoje, na perspectiva do fluir dos anos, fica deslocado do brilho original. Além do deslocamento de importância (podemos chamar de “paralaxe histórica”), existe um outro risco: o que é essencial para mim ou meu grupo é irrelevante para o conjunto maior. Exemplo: um fato que mudou a perspectiva da vida na Venezuela na década que se encerra foram os governos de Nicolás Maduro. Determinante para a Venezuela em qualquer sentido, o chavismo em crise afeta pouco outras áreas vitais do planeta. Tragédias impactantes, como os desastres das barragens de Mariana e Brumadinho, são absolutas para os envolvidos, enormes para o Brasil e quase irrelevantes para populações do Sudão do Sul, tirando a solidariedade humana básica. 

Fui convidado para pensar qual seria o grande fato da década que termina. Rigor de historiador: o novo século não começa no ano “zero”, porém no ano um. Assim, a nova década, se formos muito rigorosos, começará em 2021. Porém, podemos começar a pensar no intervalo que nosso sistema decimal estimula. Qual acontecimento dos anos 2010-2020? Qual fato parece ter sido mais mundial do que local, mais permanente do que episódico, mais influente do que uma agitação na tensão superficial da água do tempo?

Faço uma escolha subjetiva ao extremo. Vou escolher uma tecnologia. Para esgarçar mais o rigor, uma tecnologia um pouco anterior ao recorte, todavia disseminada nele. O que seria? A coisa mais fundamental da década foi o uso coletivo do smartphone. Trata-se do celular conjugado a recursos de computador e com acesso à internet. O computador já tinha sido eleito “o homem do ano” em 1982, pela mesma revista Time que agora indica “pirralhas” para o posto. O uso generalizado de smartphones começa nos anos anteriores a 2010 e, na década escolhida, torna-se uma epidemia avassaladora. O smartphone ao alcance de todos é o grande fato. 

Vamos pensar no exemplo da televisão. Experimental nos anos 1930, ela passa a crescer sistematicamente e se torna um dado dominante a cada novo ano pós-1950. O smartphone mudou a comunicação. Ele derruba aparelhos telefônicos fixos. Eliminou ou diminuiu o uso de lanternas, rádios-relógio, agendas, máquinas fotográficas, filmadoras, relógios de pulso, gravadores, calendários e muitas outras coisas. Sistemas de busca ao alcance da mão tornaram o smartphone uma memória universal portátil: a revolução de bolso. Hábitos de consumo foram mudados. Ir a banco pessoalmente virou sinal de idade. Cartas e telegramas foram tragados em mares de aplicativos. Tudo isso já tornaria o celular inteligente considerável, mas insuficiente para ser “o fato da década”. Há mais, muito mais.

O aparelhinho inovador tornou cada cidadão conectado e apto a ter determinada voz. Para o bem? Posso filmar uma violência, um problema, um abuso de uma autoridade e divulgar na rede. Não preciso conhecer o dono do jornal, um amigo na televisão: eu me torno editor, repórter, dono do jornal e cameraman. Quantos escândalos políticos nasceram de denúncias feitas com simples celulares? Para o mal? A intimidade devassada, pessoas filmadas em cenas sexuais, o “olho que tudo vê” atravessando toda porta. A aceleração do fim da ideia de público e privado. Uma revolução individual. É uma arma. Muitos manifestantes já avançam com o smartphone na mão, prevenindo-se contra algum ataque. O homem do Paleolítico erguia uma tocha bruxuleante diante do desconhecido lúgubre da caverna. O ser contemporâneo ergue seu smartphone no escuro do cinema.

Há mais: as consultas fáceis reinventaram o turismo. Há curadorias individuais, guias eletrônicos, indicações a todo instante. As consultas imediatas colocaram em questionamento a biblioteca como ponto de referência do saber. A conexão retirou as pessoas do contato olho no olho. A bateria em perpétua agonia estimula a dependência de tomadas e carregadores. Os acidentes, ao caminhar /dirigir, indicam, tragicamente, que conexão é considerada superior à vida e à segurança. A solidão foi ressignificada: todos estão acompanhados pelos smartphones. Difícil saber se o olhar total dos jovens sobre as telas seja causa de crise familiar ou a preservação de atritos. Sem serem obrigados à interação, os adolescentes conversam pouco. 

O mercado musical foi revolucionado. A televisão aberta sofreu bastante. Jornais e revistas tiveram de se adaptar. Os aplicativos de busca de endereços mudaram a maneira de existir nas grandes cidades. Há quem assista a cursos, palestras e aulas na palma da mão. A política abandonou o palanque formal e esposou a telinha. Partidos pequenos cresceram com maior domínio do novo modus operandi. Dizem que eles foram as novas barricadas da primavera árabe. A Liberdade Guiando o Povo de Delacroix é, agora, uma antena de transmissão. 

A dúvida é legítima. Por um lado, o smartphone tornou o humano mais livre, no sentido de encontrar respostas que antes demandavam mais consultas ou um especialista. Ao mesmo tempo, a maquininha transforma-se em uma muleta indispensável e há estudos mostrando que pessoas não conseguem dormir, comer, esperar ou até mesmo ter momento de descanso e intimidade sem elas. Ficamos mais autônomos ou mais autômatos? Übermensch ou zumbi? A humanidade teria se tornado um grupo frágil que pode ser reduzido a pó pela simples queda de uma rede? 

Nada mudou tanta gente como a difusão do smartphone. Chegamos ao admirável mundo novo. Entramos no Éden ou fomos expulsos dele? Varia a resposta, mas o símbolo do processo continua sendo a maçã mordida. Que todos vivam bem em 2020, o que implica, hoje, boa conexão... e alguma esperança.

Tudo o que sabemos sobre:
televisãointernettelefone celular

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem Monica De Bolle
Colunista
Monica De Bolle
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Monica de Bolle: A década da ansiedade

Os anos 2010 foram marcados pelo aprofundamento da polarização política como forma de lidar com o medo daquilo que não se sabe

Monica de Bolle, O Estado de S. Paulo

29 de dezembro de 2019 | 05h00

"A ansiedade é a tontura da liberdade"

Soren Kierkegaard

Para alguns, a década prestes a se encerrar foi de rupturas. Na economia, a crise global de 2008 redefiniu os rumos da política econômica ao longo de todo o período transcorrido entre 2010 e o fim de 2019: velhos dogmas caíram por terra, como o de que inflação seria a consequência inevitável da emissão de moeda em grandes quantidades que ainda fazem os bancos centrais nos países desenvolvidos. Na política e nas relações internacionais, o repúdio à globalização, que parecia bem estabelecida durante os anos 1990 e o início dos anos 2000, fez ressurgir o nacionalismo estridente em seus diversos matizes. Na vida social e política, o alcance das mídias sociais contribuiu para exacerbar a polarização de arranjos, práticas e opiniões, abalando instituições que haviam sido concebidas para facilitar a convergência ao centro e à moderação. Tudo isso pode ser interpretado como ruptura. Mas tudo isso também pode ser interpretado como uma vertigem da liberdade, fruto de uma ansiedade causada por um mundo em contínua transformação.

A constatação de que as políticas econômicas não funcionavam mais como imaginávamos foi fonte de grande ansiedade ao longo da década. Como impedir que o abalo financeiro de 2008 se transformasse em profunda depressão econômica, tendo os instrumentos macroeconômicos se esgotado: os juros reduzidos a zero, a política fiscal com pouca margem de manobra ante dívidas elevadas? A ansiedade provocada por essas perguntas levou, no início da década, a uma profunda transformação na maneira de se pensar e de se fazer política monetária. Vieram os afrouxamentos quantitativos – as políticas de emissão monetária em grande volume pelos bancos centrais; vieram, também, as antes impensadas taxas de juros negativas. A ausência de pressões inflacionárias nos países desenvolvidos proveniente dessas medidas revolucionou a macroeconomia. Economistas e gestores de política econômica foram forçados a repensar todo o arcabouço teórico que sustentara durante décadas o que parecia ser um entendimento profundo dos canais de transmissão e dos efeitos associados ao uso desse ou daquele instrumento na economia. Esse esforço de reformulação está em curso, e isso é algo positivo. Há muito o que repensar na macroeconomia.

Os anos 2010 viram renascer, além disso, a preocupação da economia com a desigualdade e as suas diversas ramificações e inter-relações com o campo das ciências sociais. Como medir a desigualdade? Por que, ante todo o progresso alcançado, ela ressurgiu, sobretudo nos países avançados? O que fazer para combatê-la? A ansiedade derivada dessas perguntas tem sido fonte de grandes avanços na discussão do tema tanto entre acadêmicos quanto no público geral. Já não é mais possível tratar de política econômica sem olhar o tema da desigualdade. Já não é mais possível separar a política da justiça social. A vertigem da liberdade está em perceber que não há liberdade com injustiça social. O que fazer com isso, como repensar o conceito de liberalismo nesses termos será tarefa para a próxima década, e uma tarefa a ser cumprida em meio às transformações que já sabemos que nos esperam. Novamente, essa ansiedade haverá de ser a força propulsora de novas formas de refletir e de tentar entender problemas que requerem não só conhecimento, mas criatividade.

A ansiedade também se exprime de formas menos auspiciosas, evidentemente. Os anos 2010 foram marcados pelo aprofundamento da polarização política como forma de lidar com o medo daquilo que não se sabe. O medo, quando exacerbado, provoca a busca por explicações simplistas e por bodes expiatórios. A política nesse fim de década está repleta de exemplos de como esse medo se expressou: das promessas falaciosas do Brexit e de Donald Trump às falsas esperanças atreladas ao bolsonarismo. O bolsonarismo, aliás, pode ser encarado como expressão extrema da ansiedade – uma espécie de crise de pânico que acometeu a sociedade brasileira em um desenlace traumático do petismo. A crise de pânico ainda domina o discurso, a falta de rumo, a estridência que acometeu o Brasil. Para resolvê-la, de nada adiantará apegar-se ao pensamento mágico de que tudo mudou porque o ministro Y ou Z está lá para transformar o País. Há muita gente no Brasil, sobretudo no ministério bolsonarista, que não entendeu o quanto o mundo mudou nessa última década, e que se apega às suas referências e conceitos ultrapassados para responder perguntas erradas, anacrônicas. O fiscalismo estreito, o Estado mínimo, boa parte da agenda de reformas econômicas estão em rota de colisão com a desigualdade. Não reconhecer isso é não entender nada do que ocorreu nos últimos dez anos.

A partir de primeiro de janeiro de 2020 iniciaremos década em que, aplacada a ansiedade pelo Brexit, testemunharemos os efeitos da ansiedade por suas consequências. Com o freio na globalização, nela testemunharemos o contínuo desabrochar de movimentos nacionalistas, em que a desigualdade, a injustiça e a segmentação social continuarão a testar as instituições que não souberam se adequar ao mundo. A ansiedade provocada pelas mudanças climáticas poderá trazer grandes inovações na forma de desenhar mercados e instrumentos de política econômica, a exemplo do que têm pensado as lideranças europeias. A ansiedade provocada pela corrida tecnológica e pelo crescente domínio da China poderá ter graves consequências para a organização geopolítica e econômica do mundo.

O Brasil terá de escolher. Escolher se quer continuar a se desintegrar em meio à crise de pânico ou se pretende libertar-se da vertigem coletiva para integrar os novos debates que estarão ocorrendo, com ou sem o País. Feliz 2020.

ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY 

Tudo o que sabemos sobre:
desigualdade socialeconomia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem Carlos Pereira
Colunista
Carlos Pereira
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Monica de Bolle: O Brasil mudou, só cego não vê

A condenação de corruptos transformou radicalmente a trajetória da política brasileira

Carlos Pereira, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 03h00

Fim de ano nos chama à reflexão. Uma espécie de retrospectiva do que de mais relevante ocorreu nas nossas vidas. Fatos que alteram o curso da nossa história. Que chegam quase a mudar o nosso DNA e, portanto, nos fazem trilhar uma nova trajetória. Para o bem ou para o mal, eventos dessa magnitude não acontecem todos os dias. Vivemos na maior parte do tempo numa condição de piloto automático, em que, mesmo insatisfeitos, continuamos nas nossas rotinas sem realizar grandes transformações. Quando mudanças acontecem, elas são apenas pontuais, como se fossem pequenos ajustes de percurso.

Há ocasiões, entretanto, em que somos acometidos por grandes choques (endógenos ou exógenos) que, se aproveitados, têm potencial de nos catapultar para uma nova direção... para um novo equilíbrio.

Assim como fumantes inveterados podem parar de fumar quando descobrem que o seu melhor amigo está prestes a morrer de câncer de pulmão ou obesos podem passar a reeducar sua alimentação e a praticar exercícios físicos de forma regular após descobrirem que uma de suas artérias coronárias está obstruída, sociedades que se aprisionaram em equilíbrios insatisfatórios durante décadas, caracterizados pelo vale-tudo da corrupção sistêmica, podem, a partir de um evento inusitado ou crise generalizada, mudar o rumo da sua história.

Como reflexão de maior fôlego, o editor de Política do Estado sugeriu que minha última coluna do ano fosse dedicada à análise do evento político mais relevante para o Brasil, não apenas de 2019, mas da última década. Vários fatos políticos foram relevantes nesse período. Mas dois, para mim extremamente concatenados, alteraram definitivamente a trajetória do País. Refiro-me especificamente ao julgamento do mensalão e à Operação Lava Jato

Esses eventos acarretaram mudanças sem precedentes em várias dimensões da vida política, econômica e ética do País. O julgamento do mensalão quebrou o paradigma predatório de que ricos e poderosos sempre encontrariam maneiras de se livrar de condenações judiciais pelos seus crimes. Os números das 113 operações da Lava Jato falam por si sós: 186 ações penais; 204 condenados; 96 acordos de colaboração; 19 acordos de leniência; mais de R$ 14 bilhões previstos de recuperação. Na conta da Lava Jato também é possível incluir o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff por crimes fiscais e orçamentários, o surgimento de uma direita eleitoralmente competitiva à Presidência da República, fato comum em democracias desenvolvidas, bem como investigação do filho do atual presidente.

Esses eventos certamente não livrarão o País de comportamentos desviantes de agentes políticos, atores econômicos e burocratas. Mas, seguramente, os riscos e os custos de tais comportamentos aumentaram exponencialmente.

Mesmo diante de mudanças institucionais de ampla magnitude que o Brasil tem vivido nesta última década, não é possível assegurar que o País estará imune a retrocessos. Uma vez no trilho, trens podem descarrilar. A recente decisão da Suprema Corte de que a execução da pena de um condenado pela Justiça só pode ter início após o trânsito em julgado, e não mais a partir da condenação por um colegiado em segundo grau, pode ser interpretada como uma reversão no combate à corrupção. Mas a observação de eventos isolados às vezes gera falsas interpretações do que de fato está acontecendo. Da mesma forma que implementar reformas tem custos, reversões institucionais também têm custos.

Democracias maduras e consolidadas também apresentam inconsistências ao longo da sua história. Após o atentado de 11 de setembro de 2001, por exemplo, os EUA, a partir da sua agência de inteligência (CIA), passaram a adotar técnicas de tortura como meio de obter informações de pessoas supostamente ameaçadoras sob a justificativa de evitar a todo custo novos ataques terroristas. O reconhecimento público e o repúdio de tal prática abominável pelo governo subsequente recolocaram a democracia americana no seu curso.

Desenvolvimento, portanto, não é linear nem constante em nenhum lugar do mundo. O importante é cuidar para que potenciais desvios não se transformem em mudanças de direção.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem Daniel Martins de Barros
Colunista
Daniel Martins de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Daniel Martins de Barros: Psiquiatria móvel

Esse mundo como o conhecemos começou com o lançamento da Apple App Store e da Google Play, em 2008. Dois anos depois, em 2010, a American Dialetic Society já elegeu “app” a palavra do ano

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 05h00

Nem sempre é fácil reconhecer uma revolução de perto. A maior parte das grandes promessas de transformar o mundo malogram sem deixar mais do que lembranças. Sabiamente o comitê do Prêmio Nobel espera um bom tempo para laurear uma pesquisa – de vinte a trinta anos, em média. É arriscado apontar uma revolução sem a cumplicidade do tempo ao nosso lado.

Na Medicina não é diferente. Como em praticamente qualquer área do conhecimento, sua história é marcada por avanços que foram negligenciados e erros que foram exaltados. Com o agravante de impor sofrimento a cada um desses tropeços, tornando uma narrativa tragicômica quando contada à distância. Particularmente no caso da Psiquiatria, especialidade inserida na área médica tardiamente e com características peculiares, como a grande subjetividade inerente a ela e as implicações sociais de suas práticas, contar sua história é elencar tanto avanços humanitários quanto equívocos cruéis ímpares.

Como então apontar qual foi a grande descoberta ou o maior avanço da década em área tão conturbada? Ainda que seja temerário, acho possível um palpite. Dizem que os peixes são os últimos a notar a água. De fato, não é fácil reconhecer algo que nos cerca por todos os lados, parecendo fazer parte da paisagem. Mas se conseguirmos nos distanciar um pouco e olhar para os últimos dez anos deve chamar atenção uma mudança que foi tão grande no cenário tecnológico como no dia a dia das pessoas. A revolução dos aplicativos.

Esse mundo como o conhecemos começou com o lançamento da Apple App Store e da Google Play, em 2008. Dois anos depois, em 2010, a American Dialetic Society já elegeu “app” a palavra do ano. Dez anos depois aqui estamos, com quase dez bilhões de celulares pelo mundo e centenas de bilhões de aplicativos instalados por ano.

Com o passar do tempo os telefones, agora chamados smartphones, passaram a agregar tanta tecnologia que tornaram possível reunir dados individuais em tempo real, de maneira até então impossível. O que, para uma especialidade que depende de dados sobre os sentimentos e comportamentos dos indivíduos, é uma mina de ouro. 

Para diagnosticar um transtorno mental os profissionais da saúde dependem de informações não apenas subjetivas, mas também retrospectivas. “E aí, como passou o mês?”, perguntamos. “O remédio fez diferença?”. “A última semana foi melhor ou pior do que a penúltima?”, “Quanto tempo tem dormido por noite?”. A regra é as pessoas se confundirem ao tentar responder essas questões.

Cada vez mais têm surgido aplicativos dedicados a reunir dados sobre o padrão de atividade de pacientes, desde a distância e velocidade no deslocamento até o número de postagens em redes sociais, bem como conteúdo das mensagens e tom de voz, de modo que as respostas às perguntas que fazemos venham prontas e precisas. 

Embora o grande impulso para o desenvolvimento seja comercial existem muitas iniciativas sendo testadas cientificamente, com resultados interessantes. Em 2016 a revista Nature publicou os resultados de um experimento no qual os cientistas criaram um aplicativo capaz de diagnosticar o estado de humor de pacientes com transtorno bipolar integrando características de voz (velocidade e entonação), dados comportamentais (numero de telefonemas ou mensagens por dia) e questões de auto-avaliação (feitas no próprio telefone). Esse ano outro grupo foi capaz de prever com grande margem de acerto recaídas em pacientes psicóticos a partir da análise de postagens em redes sociais.

Exagerando – apenas um pouco – a ubiquidade dos aparelhos celulares e a versatilidade dos aplicativos em breve será para os médicos tão útil como se cada um andasse por aí com um aparelho de ressonância magnética ligado e um psicólogo a tiracolo fazendo anotações.

Se lembrarmos que na outra ponta já existem tentativas bem-sucedidas de intervenção para pacientes, de terapias cognitivas com inteligência artificial a apps que ajudam da adesão aos medicamentos a desenvolvimento de atitudes mais saudáveis, fica claro que estamos diante de um avanço sem precedentes na psiquiatria. O quão revolucionário terá sido, só o tempo dirá.

*É PSIQUIATRA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem Robson Morelli
Colunista
Robson Morelli
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Robson Morelli: A dor de uma derrota

Nossa segunda Copa em casa teve um dissabor igual, ou pior, ao da primeira, em 1950

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 04h30

Os ecos de uma derrota esportiva podem durar para sempre. O fracasso do Brasil diante dos uruguaios no Maracanã, em 1950 parecia eterno e insuperável até 8 de julho de 2014, quando a seleção tomou a maior surra de sua vida numa Copa. Dentro de casa de novo. Aqueles 90 minutos em que a Alemanha triturou o time brasileiro no Mineirão vão nos acompanhar para sempre, feito um fantasma.

Brasil e Alemanha tinham tudo para fazer uma semifinal em alto nível, dada a tradição das equipes e seus elencos. Mas apenas uma seleção jogou naquela tarde em Minas. E não foi a nossa. O Brasil amargou sua maior goleada em Copas desde 1930, quando a Fifa organizou seu primeiro Mundial: 7 a 1. 

Nunca antes na história do futebol brasileiro uma derrota fez tanto barulho. Muitas explicações foram formuladas. Cada brasileiro tinha a sua. Todas elas poderiam explicar o que o mundo viu, até incrédulo. Nenhuma serve isoladamente, no entanto. Nem mesmo os alemães imaginavam poder fazer tanto estrago em uma nação sem pegar em armas, sobretudo na brasileira, anfitriã, que a recebeu de braços abertos e a que mais taças coleciona em Copas.

Aqueles 90 minutos representaram a falência de uma década de futebol no Brasil, ou mais, com suas mazelas, seu conservadorismo, o caráter amador que ainda predomina nos centenários clubes brasileiros e entidades esportivas, a pobreza de um esporte que já foi rico, que já encantou o planeta com tamanha leveza e talento ímpar, com a bola de Pelé para Garrincha, passando por Zico, Sócrates, Falcão, na conclusão de Romário e Ronaldo, nos dribles de Rivaldo e Gaúcho, e ainda Neymar e tantos outros jogadores brasileiros.

Tudo foi para o fundo do poço naquele 7 a 1. Tudo virou lembrança feito um filho que cresce. Buscamos explicações e não a encontramos. Meninos e meninas choraram. Passamos a viver de migalhas. O futebol era a alegria do nosso povo. Fé. Mas o fez chorar.

Parece que foi ontem. O torcedor, após muita desconfiança gerada pelos mandos e desmandos de Brasília, com aumento de tarifas do ônibus que levou o trabalhador às ruas um ano antes, comprou a Copa em casa, passou a cantar o Hino a capela, acreditou. 

Mas afundamos em nossas angústias. Empobrecemos em espíritos. Tivemos de aceitar em campo o que nos recusávamos a enxergar. A paixão nos cegou, pela seleção e pelos clubes. Há quem defenda que se tratou de resultado isolado. Não penso em culpados. 

Apontar esse ou aquele seria o mais fácil a se fazer, mas não nos colocaria em um patamar diferente. Era preciso pensar, planejar, reorganizar de modo a não sofrer mais o que sofremos. Aquela derrota foi um divisor de águas. Continua a nos assombrar de quatro em quatro anos. Passados seis anos, tenho dúvidas se aprendemos alguma coisa com ela. Continuamos a exportar os melhores jogadores ao mundo, para equipes da Europa, mas não somos capazes de montar uma seleção para voltar a ganhar Copas.

Nos misturamos à multidão. Voltamos mais cedo da Rússia e não temos um caminho definido para o Catar. No jogo jogado, onde éramos mestres, caímos de produção. Não temos tática e nos contentamos com pouca técnica. Chegamos a entregar a bola ao rival como estratégia. Que volante marcador é a salvação. Que pontas não têm função. 

Antes mesmo dos 7 a 1 o futebol brasileiro já vinha rateando. Então, o resultado que para mim marcou a década nada mais foi do que uma consequência inevitável da nossa mediocridade, excesso de confiança, escolhas erradas e evolução que nunca chegou. Nossos técnicos, de modo geral, pararam no tempo. Nosso futebol foi pelo mesmo caminho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Rosângela Bittar: Meia-sola

No momento final do processo de votação do impeachment houve sério risco à democracia

Rosângela Bittar, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2019 | 05h00

Se fossem selecionadas, para escolher uma, as invenções políticas brasileiras de maior impacto e desapontamento, da década que se encerra, nenhuma criação desbancaria do primeiro lugar a sentença de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, aquela de 2016 que é possível cunhar como a “sentença Lewandowski”.

Preparada na calada da noite anterior à votação, engendrada por uma seleta roda de advogados e políticos coordenados por Renan Calheiros, presidente do Senado, além de Lewandowski, presidente do Supremo, a manobra foi o ápice da teatralidade daquele momento de ruptura. Presidindo o processo como presidente do Supremo Tribunal Federal que era, então, o ministro Ricardo Lewandowski consumou uma transgressão à Constituição que viria superar todas as arbitrariedades de que hoje o STF é acusado.

O que fez o magistrado foi mais simples que uma receita de bolo: pegou o artigo 52 da Constituição, separou em duas a indivisível pena ao condenado por crime de responsabilidade, de perda do cargo com suspensão dos direitos políticos por oito anos, colocou uma parte em votação, primeiro (afastamento do cargo), e a outra parte (perda dos direitos políticos) submetida ao escrutínio, depois.

Na primeira, a ré foi condenada; na segunda, absolvida. Uma compensação política, apesar da Constituição, que provocou tanta surpresa e uma certa paralisia na reação pela perplexidade que invadiu a capacidade de ação dos parlamentares.

Ou Dilma não era culpada, e não poderia sofrer nenhuma sanção, ou era culpada, e tinha que ter seu mandato cassado e a elegibilidade suspensa.

Os três Poderes, por seus presidentes, estiveram envolvidos no ato, razão pela qual ninguém se salvou dos arranhões à imagem jurídica, política e moral. Com o esquartejamento do que era monolítico, conseguiram, com o mesmo dispositivo, tirar Dilma do cargo e dispensá-la da perda dos direitos políticos por oito anos.

A razão para tal ousadia cometida diante de todo o País, atento ao que se passava no interior do Congresso, foi fútil. Dilma não poderia, alegou-se, perder o direito a se candidatar no pleito seguinte porque, coitada, não sendo rica, ficaria sem emprego, sem renda e não teria como manter seu próprio sustento.

E ainda lhe foi permitido escolher, desta vez dentro da legalidade, o domicilio eleitoral onde preferisse. Como presidente, teve relações políticas e eleitorais com todos os Estados, mas ficou entre Minas Gerais e Rio Grande do Sul, por onde exerceu atividade política ao longo de sua vida adulta.

Definindo-se por Minas, disputou a eleição para o Senado Federal e foi derrotada. O eleitorado não caiu na trama.

No momento final do processo de votação do impeachment houve sério risco à democracia e à institucionalidade pela ação dos três Poderes envolvidos. Chamado de golpe pela esquerda, que assim fez seu marketing político mundo afora, o impeachment - “quem diria, Greta Garbo, acabou no Irajá” - a bordo do golpe de mão do condutor do processo.

As leis são o que está escrito, ou não são. As prescrições do impeachment, pela condição extrema, são ainda mais rigorosas, e não têm previsão para arranjos na sentença final. Muito menos arreglos. A partir do impeachment de Dilma ficou criado o impeachment de ocasião, fácil de ser proposto e aprovado porque é manipulável.

É inquestionável a gravidade da sentença Lewandowski, cujo papel era meramente técnico, de presidente de um conselho de sentença parlamentar. Com a vulgarização do uso do instituto do impeachment, que desde a Constituição de 1946 era um remédio para casos extremos, pode--se falar, no Brasil, de impeachment “meia sola”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem Renata Cafardo
Colunista
Renata Cafardo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Renata Cafardo: Risco de andar para trás

O MEC tem de olhar para o Brasil. Hoje já há experiências incríveis em vários Estados e cidades, não dá para achar que a solução são escolas militares. Não dá para perder um minuto sequer com embates ideológicos

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2019 | 05h00

Sei que é difícil de notar, que o desânimo é enorme especialmente neste ano, mas é fato que a educação pública no Brasil já foi muito pior. Não, não estou comparando com o século passado, quando pequena quantidade da população tinha acesso à escola e era fácil ter bom ensino. Comparo com o começo da década de 2010, quando o País tinha feito o esforço – louvável – de incluir quase a totalidade das crianças de 6 a 14 anos na escola.

Mas foi também nessa década que começamos a falar que não bastava ter vaga para estudar, era preciso aprender. E ainda que passamos a nos preocupar com a diferença entre ricos e pobres e a imensa desigualdade educacional. Economistas se interessaram nos últimos anos pela educação e estudamos muito as razões do nosso fracasso, propusemos soluções, olhamos para as evidências mundo afora e nos surpreendemos com as experiências brasileiras de sucesso.

E o resultado é que continuamos mal, mas nossas crianças entram em 2020 sabendo mais do que sabiam em 2010. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) foi criado em 2008 e, depois disso, só melhora. Sim, ainda temos um grande desafio no ensino médio, que pouco avança, mas os otimistas acreditam que o bom desempenho das crianças menores vai ser carregado com elas até o fim da escola. 

Isso só não aconteceu até agora porque é preciso mudar também a escola que se oferece para adolescentes. O ensino tem de se aproximar deles, que vivem em uma cultura digital, têm acesso a todo tipo de informação, mas ainda precisam ficar parados diante de uma lousa, olhando o professor falar coisas que não lhes interessam. Qualquer avanço feito entre crianças se perde depois nessa sala de aula ultrapassada. A mudança do ensino médio é uma das maiores tarefas para a década que entra.

Mas, voltando à anterior, as avaliações – algo que praticamente inexistia no início deste milênio e hoje está muito fortalecido – mostram claramente a evolução do aprendizado das crianças. O Ideb medido entre alunos de 1.º ao 5.º ano passou de 4,6 em 2009 para 5,8 em 2017, último ano disponível. E esses 5,8 estão acima da meta estabelecida pelo Ministério da Educação para 2019. Destrinchando os índices, vemos que quando começamos a década 28% das crianças de 10 anos aprendiam o adequado em Português e hoje estamos com cerca de 60%.

Esses saltos foram maiores ainda regionalmente. O País começou a se preocupar com resultados tornados públicos. Prefeitos, secretários e governadores foram em busca do que fazer para melhorar e crescer no Ideb. E aí surgiram sucessos como Ceará e Pernambuco, Estados que saíram na década passada de resultados desastrosos na educação para as primeiras colocações nos rankings de aprendizado nacionais atualmente. Em menos de dez anos, os nordestinos viraram referência em educação e agora ensinam o Brasil.

Há criticas às avaliações em massa e a um sistema meritocrático, mas isso ajudou muito o Brasil a acordar para a educação nos últimos anos. Cobrar resultado, indignar-se. E neste 2019, tão desanimador para a área, a população foi às ruas, pela primeira vez em anos, por causa da educação. Quando o governo Bolsonaro cortou verbas das universidades públicas, exaltou a perseguição a professores por suposta doutrinação, a população gritou.

Mas é preciso mais. O Brasil tem de olhar para o Brasil. O MEC tem de olhar para o Brasil. Hoje já há experiências incríveis em vários Estados e cidades, não dá para achar que a solução são escolas militares. Não dá para perder um minuto sequer com embates ideológicos. Infelizmente, corremos hoje um grande risco de arruinar nosso pequeno avanço da década que termina e andar para trás. 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE  JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.