Amanda Favali
Amanda Favali

Dia das Mães sem mas nem porém

Uma coluna para todas as que lutam por seus filhos, independentemente da missão que a maternidade lhes destinou  

Carla Miranda, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2019 | 13h38

Esta coluna é para falar de Margarete, Ivanise e Yen Yin. Também de Silmara, Érika e Deise. E por meio delas homenagear todas as que lutam por seus filhos, pela saúde deles, para que sejam encontrados, para que haja Justiça por suas mortes. Todas as que defendem os filhos de outras. As que querem que seus filhos sejam felizes e aceitos. As que acreditam em parceria, e não em limites. Porque é Dia das Mães sem mas nem porém.

Mãe da Sofia, Margarete Brito ficou sabendo que um óleo rico em canabidiol estava sendo usado por uma criança americana com a mesma doença rara de sua filha. O tratamento ajudava a reduzir os episódios de epilepsia reversa, sintoma da síndrome CDKL5. Vendido como suplemento alimentar nos Estados Unidos, o óleo não podia entrar no Brasil legalmente. A advogada Margarete partiu para a importação ilegal. “Ou tráfico internacional de drogas”, como ela esclarece. 

Sofia virou símbolo da luta pelo tratamento e Margarete foi uma das vozes ativas em prol de uma regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para importar o óleo, em 2015. No ano seguinte, obteve habeas corpus preventivo e começou a plantar maconha, a matéria-prima para o remédio de sua filha. Foi o primeiro caso do gênero no País, abrindo as portas para que outras famílias fizessem o mesmo e se livrassem da burocracia e dos custos altos da importação do óleo. 

Conheci Margarete e Sofia por meio das reportagens feitas por colegas do Estadão e de outros veículos. A força do laço que têm sempre nítida nos depoimentos da mãe e no olhar da filha. Conheci Ivanise da Silva durante uma entrevista, em 2005. E Fabiana, sua filha, apenas por fotos. As que a mãe me mostrou e a que estava colada na parede da ONG Mães da Sé. “Desaparecida”, era o que se lia no cartaz, junto com a informação complementar “Idade: 13 anos”. 

Dez anos antes, Fabiana havia se despedido da mãe para ir a uma festinha na vizinhança, em Pirituba. Nunca mais foi vista. Na delegacia, a mãe encontrou descaso, ouviu que a garota deveria ter saído com um namorado. Como lidar como aquele ‘se’? E se as buscas da polícia tivessem começado imediatamente, será que a história seria diferente?   

Na entrevista, Ivanise contou da dor sem fim por não saber o destino de Fabiana. Dor que ela transformou em ONG e em luta para ajudar mais de 10 mil famílias a encontrar parentes desaparecidos, sejam crianças ou adultos. “Mãe sofre do mesmo jeito, seja o filho grande ou pequeno”, me explicou na época. Grávida de um mês de minha primeira filha, chorei ao sair da ONG - por ela e por Fabiana. No finzinho do ano passado, Ivanise conversou com meu colega de redação Caio Nascimento: “Vivo um luto inacabado há 23 anos.”    

Também completou duas décadas a morte de Edison Tsung Chi Hsueh. Calouro de Medicina da USP, ele se afogou durante um trote na piscina da Atlética da Faculdade. Tinha 22 anos. As explicações não vieram, a Justiça não veio. Os acusados foram absolvidos por falta de provas e o processo, arquivado. Sua mãe, a professora Yen Yin Hwa Hsueh, ainda pede a reabertura do caso. Não se conforma, como não se conformava o pai do estudante, que até falecer peregrinava quase todos os dias até o Ministério Público. 

Uma das promotoras que atuaram no caso, Eliana Passarelli, diz ter sido ameaçada na época das investigações. Ela fala de lentidão e da falta de vontade de julgar.  Yen Yin ainda espera. “Fico pensando que meu filho caçula está viajando para longe”, diz a mãe do Edison. “Se estivesse vivo, a família estaria saudável.”

Mãe de três jovens, Silmara Moraes ganhou mais uns 60 filhos no dia 13 de março, quando arrastou um freezer para bloquear a entrada do refeitório, evitando mais mortes durante o ataque à Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano. No colégio morreram cinco adolescentes e duas funcionárias, além da dupla de atiradores. Outros 11 jovens ficaram feridos. 

E a “tia da merenda” não se sente a heroína que virou ao proteger os alunos. “Eu não vejo por esse lado”, conta. “Eu vejo, assim, como um coração de amor.” Silmara sente pelos adolescentes que não conseguiu esconder dos atiradores. Esteve no velório, compartilhou a dor de outras mães como ela. A luta assume várias formas quando se lida com as mães sem mas nem porém. 

Para Érika de Souza, mãe de Vinícius e Victor, o grande desafio foi vencido com muita compreensão e a certeza de que nada, nunca, mudaria a relação que tem com os filhos. Ouvir de Vinícius que ele era um garoto trans não foi simples, relata Érika, na reportagem publicada no site Capitu e também em Orgulho de Mãe, e-book gratuito lançado pelo Estadão. “Beleza, tô aqui para o que você precisar, não mudou nada”, falou para o filho. Na sequência, ela se trancou no quarto e chorou vários dias.  

Gentileza e amor no coração é o que os pais precisam ter em situações semelhantes, na opinião de Érika. Com o filho, ela aprendeu sobre disforia de gênero e sobre aceitação. Um ano depois, Victor também se identificou como menino trans. A mãe diz não ter sentido a sensação de luto relatada por outras famílias, por terem “perdido” a menininha ou o menininho que tinham visto crescer. “São as mesmas pessoas, mas que hoje desabrocharam.” 

Mãe do Guilherme, Deise  Campos sempre viu só potencial no filho. Tanto que não hesitava em trocar o filho de escola se sentia que ele não estava sendo aceito ou não estava recebendo a devida atenção. Quando Guilherme quis estudar gastronomia e a faculdade avisou que o jovem com síndrome de Down precisaria de uma acompanhante, a engenheira que não gostava de cozinhar voltou à universidade. E esteve do lado do filho nas aulas até a formatura. “Quando ele nasceu, me falaram que ele poderia não andar ou falar”, lembra Deise. “Eu não queria que ele ficasse encostado em um canto, por isso eu ficava em cima. Queria que ele fosse feliz. Eu sou uma mãe igual a qualquer outra.”

Revisitar a história de força e amor dessas mães era preciso. Porque a coluna de hoje não é para falar da origem comercial da data e do movimento nos shoppings e nas floriculturas. Ou de jornadas duplas ou triplas, nem das dificuldades e das desigualdades enfrentadas pelas mães no mercado de trabalho. Assim como não é para relatar casos de maternidade tóxica ou criminosa. Porque é Dia das Mães sem mas nem porém.

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