Dificuldades não causam surpresa, diz educador

Para especialista, prazo apertado do Enem pode ter afetado o sistema

Fábio Mazzitelli e Luciana Alvarez, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2010 | 00h00

Especialistas em educação dizem que as dificuldades enfrentadas ontem pelos estudantes no site do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) foram resultado de um processo de implantação apressado e com falhas.

 

Envie suas dúvidas sobre o Enem e o Sisu para o blog do Pontoedu

O problema, segundo eles, foi a velocidade da mudança do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Antes usado para medir a qualidade do ensino, agora a prova também serve como processo seletivo para o ensino superior.

O professor de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Ocimar Munhoz Alavarse, especialista em avaliação educacional, diz que os problemas de ontem foram reflexo da decisão de transformar o Enem em vestibular nacional e do calendário apertado após a fraude revelada pelo Estado, que levou ao adiamento do exame de outubro para dezembro.

"O prazo exíguo pode ter afetado o sistema (de seleção de vagas), congestionando-o. A probabilidade de congestionar o sistema é maior quando se faz em um prazo pequeno como esse. E é complicado acomodar todas essas vagas", afirmou Alavarse, que lembra que muitos dos que se inscreveram podem não ter acesso fácil à internet para fazer várias tentativas.

O professor da USP também é crítico da maneira como foi feita a transição. "Fazer isso em um país dessa proporção foi um passo enorme do Ministério da Educação. A rapidez na implantação está aparecendo agora no exíguo tempo para a escolha do curso", disse. "Poderia ter sido adotada uma política de forte bonificação nas universidades federais, um pouco do que fazem Unicamp e USP."

A professora Maria Helena Guimarães de Castro, especialista em avaliações e presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) de 1995 a 2002, diz que a dificuldade no acesso ao Sisu já era esperada. "Com o Enem adiado, os prazos apertados e a proximidade do início do ano letivo, os estudantes estão ansiosos e houve um acúmulo de entradas no sistema", afirmou.

Segundo ela, o problema não foi transformar o Enem em uma seleção nacional única com as universidades definindo seus critérios, mas sim a maneira de implantar o processo, que ficou "atropelada".

"Ficou claro que será necessário melhorar a aplicação, organização e divulgação dos resultados", afirmou.

RECOMENDAÇÃO

Para evitar o que ele chama de "escolha no escuro" na seleção de vagas pela internet, o professor Alavarse diz que o estudante pode utilizar a nota média dos que fizeram as provas do Enem, divulgada anteontem pelo MEC, como a referência na hora de optar por uma carreira.

"A média é uma referência para o candidato que quer entrar na universidade, independentemente do curso que vai fazer. Uma hipótese é tentar o curso que os estudantes julgam mais viável, de acordo com a própria nota."

Quase metade dos 2,6 milhões de inscritos no Enem teve notas inferiores aos 500 pontos, numa escala de zero a mil, nas quatro áreas do conhecimento em que foram avaliados no Enem. "O candidato tem de levar em conta a média geral para definir o que quer fazer e onde quer fazer. Mas quem sai de São Paulo e vai para Roraima, por exemplo, tem de pensar também em deslocamento, morar fora, etc. Isso vale para todo mundo que quer fazer o curso fora da sua cidade", diz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.