Digitalização de acervo do Butantã pode ter sido destruída em incêndio

Junto com os mais de 500 mil espécimes de animais, o acervo digitalizado do Instituto Butantã pode ter se perdido no incêndio que atingiu um galpão do centro de pesquisas, na zona oeste da capital paulista, na manhã de anteontem.

Tiago Dantas, JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2010 | 00h00

Uma funcionária estava catalogando digitalmente documentos, livros e projetos científicos. O trabalho, que não estava concluído, poderia diminuir o impacto do incidente, caso seja localizado. Os registros em papel foram queimados.

O fogo destruiu a maior coleção científica de cobras do mundo, iniciada há 120 anos. Cerca de 85 mil exemplares eram guardados no prédio. O acervo de aracnídeos, com 450 mil aranhas e escorpiões, também se perdeu.

Ontem de manhã, o Corpo de Bombeiros voltou ao galpão destruído para controlar um princípio de incêndio. As chamas teriam sido provocadas pelo contato das cinzas com o que restou de álcool e formol, onde os animais mortos eram conservados.

A Polícia Civil deve instaurar um inquérito hoje para apurar as causas do incêndio no Instituto Butantã. Peritos do Instituto de Criminalística (IC) vão elaborar o laudo técnico sobre o acidente.

A investigação também pode apontar se alguém será responsabilizado pelo desastre. O instituto afirmou que aguarda o trabalho da perícia para se pronunciar. A suspeita inicial dos bombeiros que atuaram na ocorrência é de que o fogo foi provocado por curto-circuito ou sobrecarga elétrica.

Interditado. O prédio do laboratório de répteis foi interditado pela Defesa Civil. Há risco de desabamento, segundo funcionários. "O teto está apoiado sobre umas prateleiras de ferro que foram compradas recentemente. Acho que, se não fosse isso, tudo teria caído", afirma um dos pesquisadores do instituto, que prefere não se identificar.

Durante o dia, estudantes visitaram o Butantã para saber se alguma coisa poderia ser salva. Na portaria, eram informados de que não poderiam entrar. "Tenho um amigo fazendo mestrado em cima desse acervo. Vai ter de começar de novo ou mudar a pesquisa, porque não tem como continuar sem a coleção daqui", conta o universitário Caio Amadeu Souza, de 23 anos, que cursa Biologia na Universidade de São Paulo (USP).

O acesso ao parque do instituto permaneceu fechado ontem. O local será reaberto ao público junto com os museus amanhã, segundo informou o órgão. Além dos seguranças, trabalharam ontem funcionários que recebem animais doados pela população. O instituto é procurado diariamente por pessoas que encontram serpentes ou aranhas em suas casas.

Como não tem onde armazenar esses bichos temporariamente, o biólogo Antônio Carlos Barbosa diz estar levando alguns deles para casa. "É muito triste para todo mundo o que aconteceu. Trabalho aqui há dez anos. Ver o fogo consumir todo aquele prédio foi muito difícil", declara o biólogo, visivelmente abalado.

O incêndio no Instituto Butantã começou por volta das 7h30 de sábado e destruiu um galpão de 1 mil m². O fogo se espalhou rapidamente e só foi controlado pelos bombeiros por volta das 19 horas. Ninguém ficou ferido.

O prédio não tinha sistema de combate a chamas. O centro de pesquisa afirmou, em nota, que "não havia no prédio qualquer problema relacionado às instalações que possa ter originado o incêndio".

Dimensão da perda

535 mil

é o número aproximado de

espécimes perdidos na coleção

85 mil cobras

conservadas no álcool

compunham o acervo do instituto

450 mil

aranhas e escorpiões também foram perdidos

120 anos

foram necessários para formar o acervo destruído em poucas

horas pelo fogo

1.200°C

é a temperatura estimada pelos bombeiros durante o incêndio

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.