Dilma pede ao papa que compreenda as 'opções diferenciadas das pessoas'

A presidente Dilma Rousseff pediu ontem ao papa Francisco que compreenda as "opções diferenciadas das pessoas" e alertou que apenas cuidar dos pobres não é suficiente. Hoje, o Vaticano realiza a cerimônia de entronização do novo papa, num evento para mais de 150 autoridades e transmitido para todo o mundo (mais informações na página A14). Nas ruas de Roma, 1 milhão de pessoas estão sendo esperadas.

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / ROMA, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2013 | 02h06

Dilma desembarcou em Roma com uma ampla delegação, justamente para demonstrar a importância da Igreja para o País. "É uma postura importante, um papa preocupado com a questão dos pobres no mundo", disse a presidente, ao sair de uma visita a um museu em Roma, referindo-se ao discurso de Francisco de combate à pobreza. "Ele tem um papel especial", acrescentou, apontando que esses foram alguns dos princípios básicos que inspiraram o cristianismo.

Mas alertou: "É claro que o mundo pede hoje, além disso, que as opções diferenciadas das pessoas sejam compreendidas". Cuidadosa para não ferir nenhum grupo de eleitores e apoio - nem evangélicos, nem gays, nem católicos, nem defensores do aborto -, Dilma não explicou sua declaração. Mas ela foi interpretada como uma alusão a temas polêmicos para a Igreja, como a expansão de igrejas evangélicas, o aumento do secularismo na sociedade, homossexualismo, aborto e até o uso de preservativos.

A relação entre o governo de Dilma Rousseff e a Igreja tem sido marcada por atritos. Semanas antes de sua eleição, em 2010, a campanha de Dilma foi surpreendida por uma declaração do papa Bento XVI aos bispos do Maranhão contra alguns dos pontos defendidos pela então candidata. Outro ponto que tem irritado o governo é a decisão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de fazer declarações sobre temas como o Código Florestal, leis no Congresso e pontos como o homossexualismo, aborto e outros temas. Nos bastidores, cardeais têm se queixado da posição do governo em relação à Igreja.

Dilma, porém, admite que o argentino não deve ter posições revolucionárias em relação a temas como casamento entre pessoas do mesmo sexo ou aborto. "Não me parece que seja um tipo de papa que vai defender esse tipo de posição", disse.

Hoje, ela estará na cerimônia de entronização do papa Francisco, ao lado de 150 autoridades de todo o mundo. A previsão é de que a presidente faça parte da fila de cumprimentos ao pontífice após a missa e os dois troquem algumas palavras. Francisco deve convidar Dilma para a Jornada Mundial da Juventude, organizado pela Igreja, que ocorrerá no Rio de Janeiro, em julho. Dilma ainda não confirmou sua participação.

Outro ponto que não deixa de irritar Dilma é a possibilidade de que o brasileiro Odilo Scherer fosse considerado como um dos favoritos no conclave. Questionada ontem sobre o que ela achava de um papa brasileiro, Dilma não disfarçou sua irritação. Depois de um breve silêncio, apenas respondeu: "Acho essa pergunta um pouco estranha", disse. "Ele (o papa Francisco) é latino-americano", insistia. "Acho que é uma afirmação da região."

No governo, a eventual eleição de Scherer era vista com desconfiança e até certa preocupação. Além de posições contrárias a algumas das políticas do governo, Scherer seria alguém que acabaria sendo ouvido para todos os temas domésticos e acabaria influenciando a agenda interna.

Dilma, apesar de estar em Roma, fez questão de declarar que o País não é apenas católico, já de olho no fato de que parte de seu governo tem na base os movimentos evangélicos. A presidente também comentou o comportamento da Igreja durante a ditadura na América Latina, um ponto delicado para Francisco. "Acho que a Igreja brasileira foi extremamente combativa contra a ditadura em geral", disse, afirmando que se lembrava em especial da ação dos dominicanos.

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