Dilma recua e elogia discurso do pontífice

Presidente do Brasil havia dito que apenas atenção à pobreza não seria suficiente

VATICANO , O Estado de S.Paulo

20 de março de 2013 | 02h05

Um dia depois de contestar o papa Francisco, a presidente Dilma Rousseff mudou de discurso, recuou, fez amplos elogios ao pontífice e à sua estratégia de lidar com a pobreza no mundo. Ontem, Dilma não comungou na missa de inauguração do pontificado do argentino, mantendo-se sentada enquanto a hóstia era distribuída aos chefes de Estado. Mas o papa aceitou um pedido de Dilma para que fosse recebida, hoje, em uma audiência privada

Na segunda-feira, a presidente havia declarado que a atenção que o argentino daria ao combate à pobreza não seria suficiente e a Igreja também deveria "compreender as opções diferenciadas" de cada pessoa, numa alusão à homossexualidade, ao aborto e a outros temas polêmicos. O presidente da Conferência Nacional dos Bispos no Brasil (CNBB), d. Raymundo Damasceno, deixou claro que "respeitar não significaria aprovar".

Ontem, às vésperas de seu encontro privado com o papa, Dilma mudou o tom. "Acho que ele fez um sermão bastante interessante, porque afirmou um grande compromisso com os pobres", disse. "Se espera de um representante de uma grande religião, como a religião católica, esse compromisso com os mais frágeis."

Dilma chegou a apontar que a insistência do papa com os pobres estaria influenciada pela nova realidade da América Latina e pelos avanços sociais na região. "Acho que o fato de ele ter essa opção preferencial pelos pobres tem a ver com o nosso continente, que está passando por um processo de superação da pobreza."

Comungar. Dilma ainda fez questão de rasgar elogios à cerimônia e mostrar que conhece as missas. "Foi uma missa muito solene, muito bonita, em latim", disse. Durante a celebração, ela chegou a cantarolar em latim. "Foi muito bonito. Seu coro é muito bonito também. Sou da época da missa em latim e então eu lembro quase tudo", disse.

No momento da hóstia, quem queria receber a hóstia ficava de pé - Dilma permaneceu sentada. Gilberto Carvalho, secretário da presidência, confirmou que Dilma não comungou.

Hoje, o papa aceitou um pedido da presidente para uma audiência, de cerca de 20 minutos. Os dois estarão sozinhos e o tema central é a Jornada Mundial da Juventude, que será a primeira viagem internacional do papa, justamente ao Brasil, em julho. Dilma não será a única a ser recebida entre as delegações.

Diante da popularidade do papa, a presidente prevê uma multidão no Rio para o evento. "Tenho a ligeira impressão de que é o maior evento que ele vai participar", disse Dilma. "Isso vai atrair para o Brasil uma multidão de jovens católicos, que serão muito bem recebidos como a gente sempre faz."

Ontem, na fila dos cumprimentos após a missa, Dilma falou com o papa por 24 segundos, metade do que foi usado por Rafael Correa, presidente do Equador e por outros líderes da região. Questionada sobre o que teria dito ao papa, a presidente explicou que nenhum tema específico foi tratado. "Eu disse que tinha muito prazer em vê-lo e que nós vamos nos encontrar amanhã. Foi o que ele me disse e o que eu disse para ele", declarou.

Dilma deixa Roma hoje, após quatro dias na cidade. Nesse período, ela se hospedou no luxuoso hotel Excelsior com quatro ministros. Já o prédio da Embaixada do Brasil em Roma, na Piazza Navona, ficou vazio. / JAMIL CHADE

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