Direção de parque pode ser responsabilizada por morte de adolescente em SP

Funcionários disseram que o treinamento para operar o brinquedo foi a leitura de um manual

Tatiana Fávaro - O Estado de S. Paulo, texto atualizado às 19h28

06 Março 2012 | 17h38

CAMPINAS - O delegado de Vinhedo, Álvaro Santucci Noventa Júnior, que investiga as causas da morte da adolescente Gabriella Nichimura, de 14 anos, após queda de um brinquedo do parque de diversões Hopi Hari, no interior de São Paulo disse que a responsabilidade pelo uso indevido do equipamento do qual caiu a menina deverá ser estendida à direção do parque. Noventa Júnior fez essa afirmação após ouvir o depoimento do segundo de cinco operadores da atração La Tour Eiffel que estavam no brinquedo naquele dia.  A jovem morreu no dia 24 de fevereiro.

Assim como Vitor Igor Spinucci de Oliveira, de 24 anos, afirmou em depoimento na quarta-feira passada, o operador Marcos Antonio Tomaz Leal, de 18 anos, disse nesta terça-feira, 6, que seu treinamento para operar o brinquedo foi a leitura de um manual intitulado "padrão básico operação rides". Leal trabalha no Hopi Hari há seis meses e estava na Torre Eiffel havia 20 dias. O manual, com dez páginas, traz informações gerais sobre o parque e mas não sobre a atração, especificamente.

"Se realmente ocorreu apenas a leitura é um ato muito falho da direção do parque. De quem está hierarquicamente acima deles e até mesmo da direção, se sabia disso", afirmou Noventa Júnior. "Então, não vai se limitar aos operadores a responsabilidade. A gente vai, na hierarquia, chegar até quem teve o dever de zelar pela integridade dos usuários do parque", disse.

Em nota, o parque informou que Leal foi admitido em agosto do ano passado e realizou 40 horas de treinamentos corporativos. Segundo o Hopi Hari, o funcionário iniciou as atividades na equipe de operação Torre em janeiro deste ano.

O delegado informou que vai ouvir os outros três operadores do brinquedo nesta quarta-feira, 7, e, se necessário, outros funcionários, para confirmar se não havia um curso mais aprofundado para operar os equipamentos.

O advogado do parque, Alberto Toron, reafirmou que o treinamento dos funcionários tem três fases, incluindo uma de campo. "O treinamento não se resumia à simples leitura do manual. Tinha três fases, sendo que a terceira era em campo, ao lado de funcionários mais experientes", afirmou. "Quem faltou com dever de cuidado faltou em relação a algo muito simples. Portanto, vamos aguardar a continuidade das apurações e confiamos no juízo prudente do delegado de polícia", completou.

O brinquedo é uma torre com cinco conjuntos com quatro cadeiras cada um. Dois deles estão interditados. A cadeira do setor 3 na qual Gabriella sentou-se estava inoperante havia ao menos dez anos. O parque explica que o assento não era usado pois se um visitante com maior estatura se sentasse ali poderia esbarrar os pés em estrutura metálica usada para dar ao brinquedo o formato da Torre Eiffel.

Acareção. O advogado dos dois operadores, Bichir Ale Bichir Júnior, disse que Leal contou ao delegado que 15 minutos antes da abertura dos portões do parque, teria notado que a trava da cadeira inoperante estava solta. O rapaz teria avisado Oliveira. Segundo Leal, o colega teria avisado um superior, mas em seu depoimento, Vitor Oliveira disse ter acionado uma colega chamada Amanda que entrou em contato com um atendente sênior. A ele, a funcionária teria dito que a cadeira travada do setor 3 estava abrindo, o que permitia que alguém sentasse ali.

Em depoimento dado na semana passada, a mãe de Gabriella, Silmara, disse ter questionado o fato da cadeira da filha não possuir um cinto de segurança ligando a trava ao banco e ter ouvido de algum funcionário: "o brinquedo é seguro". A família apresentou uma fotografia ao delegado.

"Os dois ouvidos até o momento se eximem de terem respondido à mãe. É importante chegar aos outros operadores. Se for necessário, marcaremos uma audiência de acareação", disse o delegado Noventa Júnior.

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