Direto da Fonte

''O AfroReggae é um trabalho espiritual''

Sonia Racy, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2009 | 00h00

Mergulhado na luta para tirar jovens da criminalidade, José Júnior adverte: o maior desafio do Rio não são as drogas, são as armas

José Júnior é o que se pode chamar um ponto fora da curva. Nascido em uma zona pobre do Rio de Janeiro, trilhou um caminho pouco comum para os jovens daquelas paradas. Com uma personalidade que ele próprio define como "meio arrogante", o fundador do Grupo Cultural AfroReggae, uma das ONGs mais respeitadas do País, combina carisma, senso de oportunidade e habilidade política. E é fazendo uso desse jeito controverso e eloquente que ele tira centenas de jovens da criminalidade, todos os anos, abrindo-lhes portas de saída nos centros de produção cultural. O que ele define como "um trabalho espiritual" do grupo.

À frente do projeto que começou como uma resposta à chacina de Vigário Geral, em 1993 no Rio, Júnior conquistou a confiança de comunidades, políticos e patrocinadores. A ONG atua hoje em quatro complexos na cidade, presta consultoria de mediação de conflitos e exporta seu precioso know how social para 74 projetos no Brasil e no exterior.

Todo esse pacote de realizações e a popularidade, no entanto, não o convencem a se aventurar na político. "Acho que perderia minha imparcialidade e castraria minha criatividade se o fizesse", afirma. Com o olhar de quem se debruça, há anos, sobre os problemas da violência, adverte: "Favela não é problema de segurança pública. É problema de educação, saúde, habitação e infraestrutura". A seguir, trechos da entrevista.

Que avaliação você faz, hoje, da violência do Rio? Ela aumentou em alguns aspectos e diminuiu em outros. O narcotráfico, no passado, era muito pior, por falta de comunicação - sem telefone, os moradores não tinham como fazer denúncias. Hoje a comunidade tem como se manifestar. Mesmo com muitos casos de violência - e o AfroReggae viveu isso recentemente, com a morte do Evandro (um dos integrantes do grupo, que foi assassinado)-, começa a haver um certo gerenciamento diante do caos e das mazelas acumuladas. Depois de anos de abandono, hoje existe uma tentativa de melhora.

O atual governo tem contribuído para a diminuição da violência? Acho Sergio Cabral um corajoso. Vivemos uma coisa inédita no Rio. São onze meses em que prefeitura, Estado e governo federal têm diálogo - uma união que nunca aconteceu antes no Rio. O Cabral é um mediador competente, confio plenamente nele.

Está existindo, enfim, a tão cobrada vontade política? Sim. Há quatro políticos que considero admiráveis: Lula, José Serra, Sérgio Cabral e Aécio Neves. São exemplos de bons gestores, independente dos problemas gerados.

Há quatro anos tivemos o referendo sobre o desarmamento. Você acha que a proibição de armas de fogo ajudaria a reduzir a violência urbana no Rio? Ajudaria bastante. No mundo inteiro há problemas com drogas. Mas o problema maior, no Rio, são as armas que o narcotráfico usa. E em uma quantidade absurda. O Rio não consome mais droga que Madri ou Amsterdã, por exemplo. O que cria aqui uma situação insustentável são as armas dos traficantes.

A descriminalização das drogas ajudaria? Não sei se ajudaria. O problema das drogas é complexo. Se o traficante atual operasse o negócio legalizado, eu seria a favor. Mas como sei que não seria o traficante, e sim as grandes indústrias, acho que não seria correto. Por isso sou contra.

É uma boa ideia a ocupação dos morros pelo Exército? Da forma que vem sendo feita no Morro da Previdência, por exemplo, não funciona. Se o militares tivessem o mesmo preparo dos que estão em missão no Haiti talvez pudesse ser interessante. Uma coisa é certa: não adianta só colocar o Exército lá. Porque a favela não é problema de segurança pública. Isso é uma visão equivocada. O problema das favelas é de educação, saúde, habitação e infraestrutura.

Fala-se muito de corrupção dentro da polícia. Como você vê isso? Por mais que alguns índices tenham subido bastante, a polícia de hoje sabe da sua função. O cenário vem mudando. Não como deveria, mas está melhor. O governo do Estado busca, de alguma forma, dialogar. Temos a UPP, Unidade de Polícia Pacificadora, que hoje ocupa quatro ou cinco favelas. Os policiais entram e conquistam comunidades dominadas por milícias ou pelo narcotráfico. Parece-me que essa tem sido uma solução interessante.

Você acha, então, que a cidade tem condições de receber uma Olimpíada? O Rio vai melhorar, já mostramos nosso potencial. Vamos ter em 2014 a final da Copa do Mundo. Já fizemos grandes eventos bem sucedidos. Estou seguro de que o Rio vai estar preparado não na questão de segurança como em termos do legado social e urbano que vai deixar. É muito investimento, infraestrutura. Não temos que ficar com receio de nada ligado à Olimpíada.

Há exageros no modo como é tratado o problema do Rio?Acho que existe um olhar pouco generoso. A cidade não merece ser enxergada só por suas mazelas.

Como avalia a onda de "favela movies"? Esses filmes têm estimulado uma cultura do medo? Acho, em primeiro lugar, que cada um deve fazer o que quiser. Alguns filmes foram considerados sensacionalistas - ou até mesmo fascistas, como alguns avaliaram o Tropa de Elite. Mas eles não deixam de apresentar uma realidade. O mesmo aconteceu com Cidade de Deus ou Carandiru. No entanto, não podemos esquecer que são filmes. Eles trazem preocupações ligadas não só à ficção, mas à comercialização, enfim.

Você já pensou em entrar para a política? Não. Mas, sem querer ser arrogante, se eu me candidatasse, ganharia. Já foram feitas pesquisas por dois partidos políticos que me ofereceram candidatura em 2002 e 2006.

Por que não? Acho que perderia minha imparcialidade, minha criatividade e meu foco, que é o AfroReggae. Por mais que o que fazemos influencie as políticas públicas, não tenho interesse em ser parlamentar.

Quando você começou com o AfroReggae, imaginou que daria tão certo? Que a ONG teria repercussão internacional? Meu sonho de criança era ser astronauta e o cara que quer ser astronauta tem muitos sonhos na vida, né? Eu esperava algo, mas não imaginava que fosse assim.

Quando foi que você percebeu que a sua voz era importante para mediar conflitos no morro? Eu fui jogado nisso. Não me programei nem me estruturei para essa tarefa. Foram os conflitos que nos obrigaram, a nós do AfroReggae, a sermos sobreviventes. A criarmos um método baseado no diálogo, para tentar preservar alguma coisa.

Como o AfroReggae reagiu à violenta perda do Evandro? Emocionalmente ficamos muito abalados. Mas não posso mentir que enfraquecemos. Estamos mais fortes e determinados. O AfroReggae não aceita a derrota passivamente. Isso é uma missão de vida, está no DNA. É mais do que um trabalho social, é um trabalho espiritual.

Colaboração

Doris Bicudo doris.bicudo@grupoestado.com.br

Gabriel Manzano Filho gabriel.manzanofilho@grupoestado.com.br

Pedro Venceslau pedro.venceslau@grupoestado.com.br

Marilia Neustein marilia.neustein@grupoestado.com.br

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