Direto do inferno

Cauã Reymond reencontra Danilo, personagem que levou o crack à esfera da novela das 9

Patrícia Villalba / RIO,

14 de novembro de 2010 | 07h00

          

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando Cauã Reymond entra num restaurante-floricultura na Barra da Tijuca, não resta dúvida, mesmo sem vê-lo sujo e maltrapilho, de que a volta do personagem Danilo a Passione será impactante. Depois de mais de um mês afastado das gravações por causa de uma cirurgia no quadril, Cauã ainda estará amparado por muletas quando voltar à novela das 9, no capítulo de terça-feira. No período em que ficou fora do ar, o ator continuou os estudos sobre dependência do uso de crack, tema que marca a trajetória do seu personagem, foi com mais frequência à locadora de filmes e assistiu às reprises do canal Viva, enquanto cultivava a barba selvagem e as unhas. De longe, divertiu-se também acompanhando o mistério que o autor Silvio de Abreu tratou de armar para fazer Danilo sumir, em meio ao assassinato do pai.

 

Na terça-feira, o ex-ciclista que parece ter descido ao inferno, voltará à trama, para iniciar um caminho à recuperação. Será encontrado pelo seu tio Gerson (Marcello Antony), debaixo de um viaduto, vivendo como mendigo. Cauã, que ainda não consegue se firmar em pé, usará muletas também em cena. "O Silvio foi muito rápido para encontrar uma saída plausível. Até as muletas vão criar mistério. Onde o Danilo teria se machucado?", divaga Cauã, que nessa entrevista ao Estado admite que se sente mais responsável, mas também muito orgulhoso, por interpretar um papel que traz um alerta sobre o consumo de drogas.

Um personagem como o Danilo, que representa um problema social, vem com um peso maior?

 

Depende da forma como se constrói, porque alguns personagens lançam um assunto mas não aprofundam. Não tem sido esse o nosso caso, porque eu tenho tentado me aproximar ao máximo da realidade do dependente químico. Mas não usaria o termo peso, mas responsabilidade. É uma responsabilidade de trazer o assunto à tona e retratá-lo diante dos limites que o veículo proporciona. A novela fala com muitos públicos, e há ainda uma limitação de faixa etária. A gente tem de lembrar que estamos falando também para crianças, então não dá para mostrar o consumo da droga. Me sinto ainda mais responsável, mas ajuda. Fico orgulhoso de fazer um personagem que trata de um assunto tão sério.

 

 

O Danilo protagoniza cenas bem pesadas. Qual é o processo para entrar naquela energia?

 

No começo era mais difícil, mas com o tempo você aprende a entrar e sair com mais facilidade. É como se fosse um mecanismo. Tem certos exercícios que eu repito antes de entrar em cena que me ajudam. E tem uma concentração no carro, quando estou indo para o trabalho, boto uma música mais excitante e mais pesada. Mas é claro que se esvai uma energia enorme. Preciso de um banho de sal grosso depois.

 

 

Qual foi a cena mais difícil que gravou até agora?

 

Foram as primeiras vezes em que o Danilo usou drogas. Por não ter convivido num ambiente de gente que se droga, não tinha muita consciência de como era. Daí, o primeiro contato foi um mergulho no escuro. Mas depois, conforme fui recebendo o feedback positivo e também algumas correções das pessoas com que eu conversei no Narcóticos Anônimos e nas clínicas que frequentei, foi ficando mais fácil.

 

 

Então, enquanto parte do elenco estudava italiano você pesquisava sobre drogas.

 

É. Já sabia bem antes como o personagem seria, então fui à Cracolândia, ao Narcóticos. Mas não queria que as pessoas soubessem que ele seria dependente químico para não estragar a surpresa, porque ele começou como atleta. Já tive respostas positivas sobre o personagem, de gente que convive bem com a dependência. Também tenho uma pessoa na família que está internada com dependência, então a resposta vem diretamente.

Muita gente torce para que ele se recupere no final. Não sei se você vai me perguntar qual final que eu espero para o Danilo, já respondi muitas vezes que eu queria que ele se recuperasse. Mas se ele não se recuperar, hoje em dia mais maduro nesse processo, eu te digo que se ele não se recuperasse seria bacana também, porque muita gente não se recupera. E pode ser importante um fim negativo, para amedrontar um pouco os que pensarem em consumir crack.

 

 

Você acha que uma mensagem sobre os efeitos do consumo da droga numa novela pode ter maior eficácia do que numa campanha dirigida a isso?

 

Acho que uma coisa pode complementar a outra. Deve haver campanhas, discussões sobre o tema nas escolas, e em casa com os pais. O Silvio se compromete a ter uma função nessa discussão, mas a novela é uma ficção. E só a ficção não dá conta, é preciso um movimento amplo.

 

 

Você já conhecia o assunto?

 

Não, nada! E agora sei que tinha algumas opiniões até mesmo ingênuas sobre isso. Pensava, por exemplo, que a pessoa poderia largar a droga quando quisesse, o que não é verdade.

 

 

Como o Danilo reaparece?

 

Sei que ele volta como morador de rua, ainda viciado. Estou tentando criar, porque como a gente só vai saber o que está acontecendo no final da novela, tenho de me preparar. Se o Danilo for o assassino, tenho de ter isso dentro de mim. Mas meu voto no "quem matou?" é para o Arturzinho (Júlio Andrade).

 

 

Você teve uma carreira de modelo promissora no exterior, fotografou com Bruce Weber e Mario Testino. Naquela época, já pensava em ser ator?

 

A ideia para eu me matricular num curso veio do meu pai. Mas minha mãe falava isso desde que eu era mais novo, mas eu não dava bola – ela é astróloga, e meu mapa astral é todo voltado para as artes. Estava em Nova York, e meu pai me sugeriu que fizesse uma aula de interpretação. A professora gostou de mim e me deu uma bolsa de estudos (no Actor’s Studio), porque eu não tinha dinheiro para pagar. E eu dava aulas de jiu jitsu à noite para me manter.

 

 

Em qual momento da carreira você sentiu que já era respeitado como ator?

 

Ah, isso é uma construção longa... Mas sinto que a minha virada pessoal foi em Belíssima (2005), quando senti que algo mudou em mim para que eu visse a profissão de um jeito diferente. Para o público, a minha virada foi A Favorita (2008), na TV, e Se Nada Mais Der Certo (2007), no cinema. Depois, não precisei mais provar que sou capaz. Deixei de fazer teste, por exemplo. Cada personagem é uma oportunidade de mostrar que tenho interesse de fazer outras coisas, personagens que a princípio não sejam óbvios.

 

 

Você namora a Grazzi Massafera e forma um dos casais mais comentados. Fica incomodado por "namorar em público"?

 

Ah, a gente não namora em público, vai... (risos)

 

 

Estou brincando.

 

Eu sei, tudo bem. Já me incomodou mais. Acho que como eu vinha de uma outra relação que já era pública (com a atriz Alinne Moraes), aprendi a lidar. Hoje sofro muito menos. Tenho meus limites e os veículos perceberam que não é uma relação para aparecer. Tinha um colega que quando a pessoa pedia autógrafo, ele ficava tentando convencê-la de que ele não era melhor do que ela (risos). Só que a pessoa quer o autógrafo, né? Por isso, se estou de mau humor fico dentro de casa.

 

 

Mas como é aquele momento em que está surfando e percebe que foi fotografado?

 

Ai, eu não surfo há tanto tempo... Lembro de uma coisa que me incomodou bastante. Um dia antes da operação, meu médico falou para eu ir surfar, para ver como ia ser. Fui, mas não surfei legal. De repente, vi o paparazzo. Fiquei preocupado, porque ia falar com minha diretora no dia seguinte, para dizer que precisaria me afastar. E eu pensava "como vou explicar que preciso me afastar se aparecer surfando um dia antes?". Nesse momento, me senti mal. Fiquei pensando "que droga, não consigo fazer mais nada". Ainda bem que o pessoal compreendeu.

 

 

 

DA CARTOLA

Já se tornaram piada interna, não sem certa dose de humor negro, as histórias sobre baixas no elenco das novelas de Silvio de Abreu. Nos oito meses que costuma durar uma novela, mais ou menos, não é raro algum ator ser posto de molho – em Passione, aconteceu com Clayde Yáconis, atualmente afastada por causa de uma operação no fêmur, e com Cauã Reymond, que passou por uma cirurgia no quadril.

 

Silvio tem sempre boas cartas na manga – e, se não tem, trata de inventar soluções mirabolantes com rapidez. Drogadito, Danilo sumiu. E a gente imagina que o bonitão esteve perambulando pela Cracolândia.

 

Por sorte, e para completar, a saída de Danilo de cena coincidiu com o assassinato de seu pai, Saulo (Werner Schunemann), por quem o moço não morria de amores. Assim, quando ele reaparecer, até mesmo as muletas de Cauã servirão para alimentar o mistério. Onde Danilo teria se machucado?

Aconteceu coisa parecida em Guerra dos Sexos (1983), centrada nos personagens Otávio e Charlô, de Paulo Autran e Fernanda Montenegro. Autran sofreu um infarte, teve de se afastar das gravações.

 

E como a diversão de Otávio era atormentar Charlô, Silvio fez o personagem simular o próprio sequestro, situação narrada em cartas divertidíssimas enviadas pelo falso sequestrado. A brincadeira rendeu tanto que Autran chegou a gravar, na cama do hospital, um telefonema em que deixava Charlô mais intrigada.

 

Em Belíssima (2005), Glória Pires, a protagonista Júlia, contraiu hepatite. Era complicado tirá-la de cena, porque Bia Falcão (Fernanda Montenegro) e Vitória (Cláudia Abreu), outras duas personagens importantes, estavam supostamente morta e presa, respectivamente. Ainda bem que Júlia tinha um marido crápula – André (Marcello Antony), internou a heroína numa clínica, onde a manteve sob efeito de calmantes.

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