Dissidentes vislumbram 'transição suave' em Cuba

Refugiados acreditam que possível regime de Raúl Castro será mais pragmático.

Bruno Garcez, BBC

19 Fevereiro 2008 | 23h15

Os dissidentes cubanos antevêem uma transição gradual em Cuba, mas estão acompanhando as mudanças que deverão se seguir à renúncia do presidente Fidel Castro com cautela.''Acreditamos que existem alguns ingredientes de uma transição suave que estão presentes em Cuba há alguns meses e a renúncia de Castro pode ser parte disso'', disse à BBC Brasil Alfredo Durán, vice-presidente do Cuban Committee for Democracy, uma organização de dissidentes baseada em Miami.Durán é um veterano da invasão frustrada da Baía dos Porcos, uma operação realizada em 1961, que contou com o apoio logístico da CIA e que visava derrubar o regime de Fidel Castro.A despeito de seu histórico, ele é um dissidente moderado e tanto ele quanto a organização a que pertence se opõem ao embargo contra o regime cubano, um bloqueio econômico que já dura desde 1962. ''Seja quem for o próximo presidente (americano) eleito em novembro, é preciso rever a atual política americana para Cuba, já que ela vem fracassando há 50 anos. Ela não funciona atualmente e não irá funcionar no futuro'', afirmou.Novo governoAlfredo Durán afirmou que não será possível determinar os rumos que serão seguidos pelo regime cubano até o próximo dia 24, quando a Assembléia Nacional elegerá as novas lideranças do país. ''Nós veremos se será o governo de um só homem, um governo coletivo e se Fidel Castro irá manter o seu posto no comitê central, apesar de não ser mais presidente'', disse. O cientista político cubano-americano Frank Calzón, diretor-executivo do Center for a Free Cuba, de Washington, organização que defende os direitos humanos em Cuba, vê com ceticismo uma possível transição em Cuba.''Ele (Fidel) não partiu. Ainda está em Cuba e na história de Cuba já houve pessoas poderosas que governaram sem o título de presidente. Raúl e Fidel estão seguindo os passos de Batista, que controlou o governo de Cuba entre 1933 e 1940 sem deter o título de presidente'', disse Calzón, em referência ao líder autoritário Fulgencio Batista, que foi derrubado pela Revolução Cubana. O cientista político disse que ele próprio estava entre os que aguardavam algumas mudanças no regime cubano com a ascensão de Raúl Castro, o irmão de Fidel, que atualmente governa o país interinamente, mas afirmou que, contrariando expectativas, o líder interino trouxe ao poder representantes da linha dura do regime cubano e não promoveu reformas.'Ajustes'''Teremos de esperar para ver se haverá mudanças, mas em pouco mais de um ano com Raúl no poder ainda não vimos quaisquer mudanças. Ele não irá mudar tudo, mas poderão haver alguns ajustes.'' Calzón acredita que antes de discutir um possível fim ou um relaxamento do embargo econômico contra Cuba, é preciso salvaguardas por parte do governo cubano. ''A questão não é se o embargo deve ou não ser afrouxado. A questão é afrouxar em resposta a quê? Se os cubanos puderem opinar sobre o seu próprio destino, se os dissidentes políticos forem libertados, então, cubano-americanos como eu seremos favoráveis a essa discussão'', afirmou Calzón.'Tudo é possível'Pedro Pablo Álvarez, dissidente cubano que integra o chamado Grupo dos 75, viu a renúncia de Fidel com cautela. Ele é um dos 75 dissidentes políticos que foram condenados em Cuba em abril de 2003, sob a acusação de terem conspirado com os Estados Unidos e de ter atentado contra a independência de Cuba e os princípios da revolução.Álvarez foi libertado no sábado e partiu para a Espanha. Em entrevista à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Álvarez afirmou que a renúncia de Fidel ''pode ser mais uma manobra, mas a essa altura isso não funcionaria''.Ele acrescentou que a renúncia de Fidel talvez seja uma forma de testar a reação popular, ''ver se eles irão pedir novamente que ele regresse. Em Cuba, tudo é possível''. O dissidente acredita que se Raúl Castro for confirmado como presidente algumas reformas poderão ser promovidas. ''Raúl Castro é um homem mais pragmático, mais preocupado em satisfazer as necessidades básicas do povo de Cuba.''Ele acredita que haverá algumas mudanças no regime do país caribenho, ''sobretudo na esfera econômica", mas que a transição ''será moderada e não traumática''. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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